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O Melbourne Park volta a receber o Open da Austrália: mas, desta vez, com contornos bastante diferentes

AFP via Getty Images

O Melbourne Park volta a receber o Open da Austrália: mas, desta vez, com contornos bastante diferentes

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Três voos azarados, seis privilegiados e uma quarentena: arranca o Open da Austrália que anda a ser jogado fora de court há três semanas

Casos de Covid em voos fretados, seis privilegiados, uma carta de Djokovic e muita polémica. O Open da Austrália anda a ser disputado fora de court há três semanas mas só começa esta segunda-feira.

Em dezembro, de forma natural, a Tennis Australia anunciou que o Open da Austrália, o primeiro Grand Slam da temporada, seria empurrado três semanas para a frente no calendário. Ou seja, em vez de arrancar a 18 de janeiro, iria arrancar a 8 de fevereiro. O plano era simples: as três semanas de diferença ofereciam uma margem que permitia colocar todos os jogadores, treinadores e staff em quarentena durante 14 dias, logo depois da chegada ao país, e os sete dias extra seriam aproveitados para condensar seis torneios pré-Open num único local. Em teoria, era tudo lógico. Na prática, tornou-se quase insustentável.

Caos no Open da Austrália: perto de 600 participantes em isolamento depois de um caso

O Open da Austrália arranca finalmente esta segunda-feira depois de três semanas cheias de avanços e recuos. O último revés, que chegou a colocar em causa a realização do torneio, apareceu no final da semana passada: um único caso num dos hotéis em que os jogadores cumpriram a quarentena obrigatória, detetado num segurança, levou ao isolamento de 500 a 600 pessoas associadas ao Grand Slam (e dois milhões de habitantes), à suspensão de todos os jogos em Melbourne Park durante o dia de quarta-feira e ao adiamento do sorteio para o emparelhamento do Open. Jogadores, treinadores e funcionários alojados no Grand Hyatt Hotel foram testados no dia seguinte, o sorteio passou para sexta-feira e Craig Tiley, o presidente da Tennis Australia que tem sido o grande porta-voz do já atribulado torneio, descansou os corações mais inquietos.

“Esperamos manter a agenda original depois de hoje [quinta-feira]. A probabilidade de existir algum problema é muito baixa e achamos que vão todos testar negativo. Estamos absolutamente confiantes de que o Open da Austrália vai acontecer”, disse. E tinha razão: todos testaram negativo, o sorteio aconteceu na sexta-feira. O caso positivo do segurança do Grand Hyatt Hotel, porém, foi apenas a ponta de um icebergue que esteve constantemente a derreter nas últimas três semanas.

Craig Tiley, o presidente da Tennis Australia, tem sido o grande porta-voz do Open da Austrália

BELGA MAG/AFP via Getty Images

Os três aviões da discórdia, os treinos em confinamento e a história do rato no quarto

Mas comecemos então pelo início. Atletas, treinadores e staff voaram para a Austrália há cerca de três semanas, cientes de que teriam de cumprir uma quarentena obrigatória de duas semanas numa unidade hoteleira, face às regras rígidas do Estado de Victoria. À partida, toda a logística parecia desenhada ao pormenor e com todo o contexto para correr bem. As partidas de qualificação para o Open foram disputadas fora do território australiano — em Doha, no Qatar, e no Dubai, nos Emirados Árabes Unidos –, para que os jogadores só estivessem no país durante o tempo estritamente necessário. Além disso, a Austrália parecia o país perfeito para receber um evento desta envergadura nesta altura, já que manteve os números da Covid-19 constantemente abaixo dos níveis europeus e tem normalmente uma resposta muito rápida e pragmática a eventuais surtos.

Ora, tudo começou a correr mal a partir do azar. Três aviões fretados pela organização para transportar jogadores e outros intervenientes — um que partiu de Los Angeles, outro de Abu Dhabi e outro de Doha — acabaram por viajar com casos positivos de Covid-19. Uma situação inesperada que colocou estes três grupos de jogadores, um total de 72 onde se incluíam os portugueses Frederico Silva e Pedro Sousa, numa quarentena muito mais restrita quando comparada com os restantes.

Um único caso num dos hotéis em que os jogadores cumpriram a quarentena obrigatória, detetado num segurança, levou ao isolamento de 500 a 600 pessoas associadas ao Grand Slam, à suspensão de todos os jogos em Melbourne Park durante o dia de quarta-feira e ao adiamento do sorteio para o emparelhamento do Open.

Se a maioria dos participantes do Open da Austrália, ainda que confinados e sem a possibilidade de sair do hotel por outros motivos, estava autorizada a treinar cinco horas por dia em Melbourne Park, estes 72 jogadores só puderam voltar aos courts depois de vários dias totalmente encerrados nos quartos. Testados regularmente, com polícias nos corredores dos hotéis e ameaçados com multas pesadas em caso de desrespeito pelas regras, tenistas como Belinda Bencic, Aryna Sabalenka ou Lesia Tsurenko começaram a partilhar vídeos dos treinos que iam fazendo nos quartos enquanto estavam ainda impedidas de sair. Os testes constantes acabaram por resultar em 10 casos positivos — mas nem isso parou a avalanche de críticas que ia surgindo.

A dada altura, os reparos feitos pelos jogadores já não eram somente sobre a quarentena — mas sim sobre as condições (ou a falta delas) dessa mesma quarentena. Queixas sobre a qualidade pobre da comida, sobre a ausência de quaisquer máquinas de exercício físico nos quartos e sobre a inexistência de respostas por parte da organização começaram a inundar as redes sociais. O ponto mais crítico terá sido atingido com um vídeo partilhado por Yulia Putintseva, em que a tenista do Cazaquistão mostrava um rato no interior do quarto onde estava alojada e contava ainda que estava “há duas horas” a tentar mudar de quarto, sem qualquer sucesso. Ao longo de todo este tempo, a maioria dos atletas envolvidos no Open da Austrália estava a treinar cinco horas por dia, com a presença do treinador e do preparador físico; estes 72 tenistas só o puderam fazer vários dias depois, por menos horas e com menos acompanhamento.

Confrontado com os vídeos, as mensagens e as críticas, Craig Tiley pediu internamente a todos os tenistas que mantivessem os reparos privados e que os dirigissem diretamente à organização do Grand Slam: ou seja, que não fizessem comentários sobre o isolamento e as regras a que estavam sujeitos nas redes sociais ou em qualquer entrevista. Um pedido que terá surgido depois de uma das declarações mais corrosivas, por parte do espanhol Roberto Bautista Agut, a um canal de televisão israelita. Em entrevista, o jogador explicou que estar em quarentena num quarto de hotel era “como estar numa prisão mais com Wi-Fi”. E continuou: “Estas pessoas não fazem ideia do que é o ténis e de que é preciso estar nos courts para treinar. É um desastre total. A Tennis Australia não tem qualquer palavra, está tudo dependente do governo e das autoridades de saúde. É duro e penso que precisamos de uma grande força e trabalho mental. Temos de ser pacientes”. Bautista Agut, porém, recorreu mais tarde ao Instagram para se desculpar, garantindo que tudo se tratou de uma conversa privada que nunca deveria ter sido publicada pelos meios de comunicação social.

Neste contexto, apareceu a voz do costume.

A carta de Djokovic e “Os seis em Adelaide”

Novak Djokovic, que não estava incluído nos três grupos de tenistas que tiveram de cumprir uma quarentena mais rígida, assumiu novamente o papel de líder maior da classe. Ciente de que nenhum lado estava a ganhar — os jogadores estavam descontentes, a organização estava a ser criticada, a opinião pública australiana estava cada vez mais contra a realização do Open –, o sérvio decidiu enviar uma carta de recomendações a Craig Tiley. Para além de sugerir que as partidas das duas primeiras rondas do Grand Slam fossem disputadas à melhor de três sets e não à melhor de cinco sets, o atual número 1 do ranking ATP deixou seis pedidos ao presidente da Tennis Australia.

Djokovic foi visto várias vezes a treinar na varanda do quarto de hotel

AFP via Getty Images

Na carta, Djokovic pediu que fosse instalado material de fitness e de treino em todos os quartos; comida decente, de acordo com o nível do torneio e com a alimentação de um atleta de elite; redução dos dias de isolamento para os tenistas isolados, com a realização de mais testes que confirmem que estão todos negativos; permissão para visitar os treinadores ou preparadores físicos, desde que ambos tenham testado negativo; que jogador e treinador sejam colocados no mesmo piso do hotel; e mover o máximo de jogadores possível para casas privadas com courts para treinar. Tudo muito legítimo, à partida. O problema? Os gigantescos telhados de vidro de Djokovic.

“Uma prisão com Wi-Fi”. A quarentena dos tenistas do Open da Austrália, entre as exigências de Djokovic e a compreensão de Azarenka

O tenista sérvio tinha principalmente dois fatores contra si: 1) o facto de ainda ninguém se ter esquecido do polémico Adria Tour, o torneio que decorreu em junho na Sérvia e na Croácia e que acabou com nove casos de Covid-19, incluindo o próprio Djokovic e sem contar com os adeptos nas bancadas; 2) a condição de total privilégio em que foi colocado ao longo destas três semanas. A verdade é que, enquanto a maioria dos atletas foi colocada em Melbourne, Djokovic estava em Adelaide em conjunto com um grupo reduzido de tenistas que incluía os principais nomes da atualidade na modalidade.

Além do sérvio, só Rafa Nadal, Dominic Thiem, Naomi Osaka, Serena Williams e Simona Halep estiveram em Adelaide. Ora, este grupo de apenas seis tenistas não só pôde viajar com mais acompanhantes do que os restantes como foi também autorizado a levar mais pessoas para o court — enquanto que, em Melbourne, só duas pessoas podiam estar simultaneamente num treino. Existia um centro de treinos reservado, os horários eram mais flexíveis e nenhum polícia andava pelos corredores de hotel. De Adelaide, não surgiram publicações nas redes sociais sobre falta de condições para treinar, sobre a qualidade da comida, sobre os quartos. A indicação, mais do que óbvia, foi para que Djokovic, Nadal, Thiem, Osaka, Williams e Halep não partilhassem os privilégios de que estavam a usufruir. Um plano que teria corrido às mil maravilhas se Naomi Osaka, a dada altura, não tivesse partilhado uma fotografia num court em conjunto com outras quatro pessoas, sem máscaras nem distanciamento social.

Para além de sugerir que as partidas das duas primeiras rondas do Grand Slam fossem disputadas à melhor de três sets e não à melhor de cinco sets, o atual número 1 do ranking ATP deixou seis pedidos ao presidente da Tennis Australia.

A resposta do governo australiano aos pedidos de Djokovic foi simples: não. “Para mim, é um grande ‘não’ para ele. Não vai haver nenhum tipo de alterações nas condições da quarentena. São 14 dias dentro do quarto, ponto final. “Temos tolerância zero para com qualquer infração, reforçámos a presença policial e não vamos permitir atitudes desafiadoras. Os que cometerem atos que burlem o protocolo, mesmo que seja abrir a porta do hotel para conversar com outros quartos, receberão multas severas. Se forem reincidentes, teremos polícia na porta para vigiar. Não toleraremos manobras perigosas”, disse Emma Cassar, a responsável pela resposta à pandemia no Estado de Victoria. A posição de Cassar foi reforçada pelo próprio primeiro-ministro australiano, Scott Morrison, que afirmou ser “hora de seguir as normas estipuladas”. “Dediquem-se a jogar ténis. São bem pagos por isso”, atirou.

O azar de João Sousa e a eterna pergunta: “Quem é que paga?”

E, no meio de tudo isto, o melhor tenista português saiu prejudicado. João Sousa deveria ter aterrado na Austrália a 15 de janeiro para cumprir uma quarentena de duas semanas antes de disputar um torneio ATP 250, em Melbourne Park, na antecâmara do Grand Slam — um dos seis que decorreu na semana passada, em conjunto com três WTA 500, outro ATP 250 e a ATP Cup, disputada por 12 países representados pelos melhores tenistas do mundo. Sousa, porém, ficou em Barcelona.

“Efetivamente, não embarquei para a Austrália, devido a alguns problemas do foro privado. Neste momento, não posso adiantar muito mais. No entanto, continua em aberto a minha ida para a Austrália e nos próximos dias vou dar mais notícias”, explicou, na altura, ao jornal O Jogo. Cerca de uma semana depois, acabou por confirmar que não iria viajar para a Austrália e que não iria competir nem no ATP 250 nem no primeiro Grand Slam da época — por ter testado positivo para a Covid-19. “É com muita tristeza que vos dou a conhecer que não poderei viajar para a Austrália este ano. Testei positivo para a Covid-19 na véspera da minha viagem e desde então tenho estado em confinamento e em contacto com a organização do Australian Open na procura de uma solução que acabou por não acontecer”, escreveu no Instagram, onde garantiu que já estava a “testar negativo e sem sintomas” mas que continuava impedido de entrar na Austrália devido às “medidas estritas” do país.

Centenas de pessoas, incluindo a tenista Maria Sakkari (ao centro), foram testadas durante a manhã da passada quinta-feira depois de um caso positivo num dos hotéis em que os jogadores estão alojados

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“Depois de uma boa pré-temporada e de trabalho duro, estou naturalmente muito triste pelo facto de não poder competir na Austrália, onde tenho ótimas memórias e sabendo que a Federação Australiana e o [ATP] Tour fizeram um esforço enorme para nos dar a oportunidade de competir nesse fantástico torneio”, terminou João Sousa, que entretanto já voltou à competição e foi eliminado na primeira ronda do torneio de Antália, na Turquia, a contar para o Challenger Tour.

Assim, e no meio de tudo isto, a última polémica da preparação do Open da Austrália ficou relacionada com um fator que nunca poderia passar ao lado de tudo isto: o dinheiro. Ou, mais especificamente, quem é que está a pagar as estadias de todos estes tenistas, treinadores e funcionários. Entre voos fretados, quartos de hotel e alimentação, é estimado que o valor das três semanas anteriores ao início do Grand Slam ascenda já aos 30 milhões de dólares. E Craig Tiley lançou a dúvida para o espaço mediático quando disse, recentemente, que o governo do Estado de Victoria estava “a apoiar e a dar assistência”. Ora, a opinião pública australiana, que já estava contra a realização do torneio devido aos casos de Covid-19 e às críticas recorrentes dos atletas às autoridades do país, depressa reagiu ao facto de o dinheiro dos contribuintes estar a ser utilizado para custear o evento.

"É com muita tristeza que vos dou a conhecer que não poderei viajar para a Austrália este ano. Testei positivo para a Covid-19 na véspera da minha viagem e desde então tenho estado em confinamento e em contacto com a organização do Australian Open na procura de uma solução que acabou por não acontecer".
João Sousa

O governo, porém, apressou-se a desmentir Craig Tiley. “Quero ser muito clara. A quarentena nos hotéis para o Open da Austrália é custeada inteiramente pela Tennis Australia. Confirmei isso três vezes hoje”, disse Lisa Neville, ministra da Polícia e dos Serviços de Emergência de Victoria. Confrontado com a posição oficial do governo, Craig Tiley recuou, em conjunto com a Federação, e emitiu um comunicado a explicar as declarações anteriores. “A Tennis Australia está a financiar o programa de quarentena do Open da Austrália. O apoio do governo de Victoria está relacionado com as conversas em andamento sobre custear uma extensão do acordo para sediar o Open da Austrália em Melbourne e vários outros ativos para ajudar a promover a cidade e o Estado, doméstica e internacionalmente”, podia ler-se na nota oficial.

Open de ténis da Austrália pode ter até 30.000 espetadores diários

É no meio deste turbilhão que arranca, esta segunda-feira, o Open da Austrália — com cerca de 30 mil espectadores diários nas bancadas, 50% da lotação total do recinto. Djokovic é o grande candidato à vitória mas terá a forte concorrência do expectável Nadal e do jovem Dominic Thiem. Do lado feminino, a atual número 1 mundial Ashleigh Barty terá como principais rivais a detentora do título, Sofia Kenin, assim como as inevitáveis Naomi Osaka, Serena Williams e Simona Halep.

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