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António Horta Osório está de saída do Lloyds Bank, o banco inglês que foi nacionalizado e que, sob a sua liderança, conseguiu dar a volta e devolver o dinheiro aos contribuintes, com lucro. Quando lá entrou, “o Lloyds estava à beira da morte“, recorda o banqueiro, em entrevista ao Financial Times a poucas semanas de se mudar para o Credit Suisse. Foram necessários oito longos anos para chegar, em 2017, ao momento em que o Tesouro britânico vendeu as últimas ações do Lloyds – e, na entrevista ao diário financeiro, Horta Osório recorda o esgotamento psicológico (causado por excesso de trabalho e por ter deixado de dormir) e, também, o caso extra-matrimonias que foi noticiado pelos tabloides britânicos.

Após 15 anos em Londres, vai saltar para Zurique para ser presidente do conselho de administração do Credit Suisse. É um cargo não executivo e de controlo que será ocupado, pela primeira vez, por uma pessoa não nascida na Suíça.

Desta vez, a missão parece ser mais fácil. Horta Osório entra num prestigiado grupo financeiro mundial que, ainda assim, tem sido notícia pelos piores motivos nas últimas semanas devido ao envolvimento no escândalo do Archegos Capital, um fundo de cobertura de risco norte-americano cujos negócios azedaram e obrigaram o Credit Suisse a reconhecer uma perda de 4,7 mil milhões de dólares nos resultados [3,9 mil milhões de euros, aproximadamente].

Horta Osório não quis partilhar a sua leitura sobre esse e outros problemas que afetaram a vida recente do Credit Suisse, salientando que “são uma marca extraordinária” na banca mundial e têm “tendências macro muito positivas”. Isso é um perfeito contraste com o que era o Lloyds Bank há 10 anos – “o Lloyds era um banco que estava prestes a morrer, à entrada na crise europeia“.

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Que o Lloyds podia “morrer” não é uma perceção de quem, agora, olha para trás e percebe quão perto se esteve do abismo. Horta Osório garante que já naquela altura tinha essa noção – e foi por isso que deixou de conseguir dormir normalmente, ao ponto de sofrer uma crise de saúde mental que o obrigou a ser internado numa clínica especializada nesse tipo de problemas.

“A razão por que deixei de dormir foi porque eu via que o banco podia morrer – e não podia partilhar isso com ninguém“, diz Horta Osório. “Levei aquilo mesmo a peito, que era minha responsabilidade salvar o banco”, acrescenta.

Não se pode partilhar essas coisas, porque se se diz isso, a confiança no banco evapora-se e ‘estás morto’. Portanto, foi algo muito pessoal, que senti com grande intensidade”

Hoje, Horta Osório e o próprio Lloyds Bank são apoiantes de uma organização de apoio às doenças mentais, a Mental Health UK, que ajuda trabalhadores que entrem em espirais de stress e ansiedade. “Fui educado para ajudar os outros, servir os outros – é uma obrigação”, diz Horta Osório, que mostra ter colocado para trás das costas o pior momento que viveu nestes 15 anos em Londres.

“Quem dentre vós não tiver pecado, atire a primeira pedra”

O britânico The Sun fez manchete, em setembro de 2016, com várias fotografias dos dias que Horta Osório passou em Singapura com uma mulher que tinha sido conselheira de Tony Blair, ex-primeiro-ministro britânico. O tabloide chamou-lhe a “amante secreta” do banqueiro que liderava uma instituição resgatada pelo contribuinte e que estava naquela altura a dispensar milhares de trabalhadores.

O facto de Horta Osório ser casado era, aliás, logo a primeira palavra do título (é casado há quase 30 anos e tem três filhos). E, embora não tivesse havido qualquer evidência de que Horta Osório tivesse pago as despesas da viagem com outra coisa que não o seu próprio dinheiro, a notícia não ajudou à imagem pública do banqueiro.

Passaram vários anos desde esse incidente que, na opinião de alguns seus amigos, inviabilizou que Horta Osório pudesse, hoje, ser Sir Horta-Osório, por exemplo. Ainda assim, o banqueiro garante ao Financial Times que a forma como a sua vida privada foi exposta na imprensa não abalou o sentimento que nutre pelo Reino Unido, país que o “adotou“, nas suas próprias palavras.

Toda a gente comete erros, na vida“, diz, ao jornalista do Financial Times, recuperando a criação cristã e perguntando-lhe:

Conhece a história do grupo de homens que iam apedrejar Maria Madalena até à morte? Jesus veio, pôs os braços à volta dela e disse: Quem dentre vós não tiver pecado, atire a primeira pedra. E todos viraram costas e foram-se embora”.

Horta Osório trouxe no bolso, para a entrevista, mais uma história – não bíblica mas, sim, uma citação de Nelson Mandela. “Como disse Nelson Mandela, a questão não é tentar não cair, é levantarmo-nos todas as vezes que caímos, aprendermos as nossas lições e fazer melhor e ser melhor“, diz o banqueiro.