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Estava em causa a possibilidade de ser campeão invicto, a possibilidade de bater o recorde de pontos do clube, a possibilidade de conseguir a melhor média de golos sofridos dos leões num só Campeonato. Ainda assim, e com baixas forçadas por antecipação como Porro ou Feddal, Rúben Amorim correu riscos na Luz frente ao Benfica. Correu riscos, não correu bem, perdeu mas correria na mesma os mesmos riscos, como admitiu no final. Para o técnico, mais importante do que os recordes é a preparação da próxima temporada e foi isso também que esteve na base das escolhas para a última jornada, com um prémio anunciado por antecipação a Vitorino Antunes, lateral que andou sempre na sombra de Nuno Mendes e que seria titular na condições de capitão.

Apesar de ter apenas um total de 12 jogos oficiais na presente época até à receção ao Marítimo, sete dos quais a contar para o Campeonato entre 262 minutos, o esquerdino que chegou a ser internacional A quando tinha ainda idade de Sub-21 (aliás, fez a estreia na Seleção principal em 2007 quando se preparava para fazer o Europeu de Sub-21 nos Países Baixos) e que fez grande parte da carreira no estrangeiro foi um dos elementos mais falados na festa dos leões diante do Boavista a par de João Pereira, como figuras fundamentais no balneário para fazerem o trabalho invisível que ajuda a construir um grupo e propicia aquilo que depois se refletia em campo. Mais uma vez ficou provado que um plantel campeão não se faz apenas de Nunos Mendes e que precisa também de Antunes. E que a valorização do papel desses Antunes para os Nuno Mendes é mais relevante do que se pensa.

Foi por isso que, aos 59′, Alvalade teve uma ovação possível de pé (dentro do possível, porque havia elementos no banco de suplentes e nos camarotes – e esses não falharam) na saída de João Pereira, que terminou aos 37 anos uma carreira muito bem conseguida com um título que já não estava à espera. O lateral não precisou de impor respeito, nos treinos, nos jogos, no balneário. Ganhou-o de forma natural, como um líder. Mas nem todos os líderes precisam ter um perfil como o antigo internacional português ou como Coates, um símbolo da grande conquista leonina esta temporada. E Pedro Gonçalves é (ou voltou a ser) um bom exemplo disso mesmo.

O miúdo de Vidago que ganhou na terra a alcunha de Pote chegou a Alvalade depois de uma boa temporada no Famalicão e nem sequer se percebia onde poderia jogar. A médio centro, como 8? Como falso ala à esquerda? Atrás do avançado num 3x5x2? Como avançado móvel? 34 jornadas depois, a resposta chegou: onde quer que jogasse, fazia a diferença – e experimentou quase todos os lugares. No final, com aquele que foi o primeiro hat-trick da carreira, sagrou-se o melhor marcador do Campeonato. E essa que foi a última nota de toda a prova acabou por ser aquela que melhor define o que foi prova: só uma verdadeira equipa conseguiria colocar um jogador com as características de Pedro Gonçalves a fazer 23 golos. E conseguiu, na última jornada.

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Em tempos existia uma equipa técnica em Alvalade que, em conversas entre pessoas do futebol, explicava que ia vendo se teria mais ou menos dificuldades no encontro consoante a forma como eram passadas as últimas horas no estágio e como eram feitos os exercícios de aquecimento. Não era algo matemático mas passava sempre uma ideia mais ou menos correta. Os tempos mudaram e muito mas se ainda fosse assim, era fácil perceber como iria ser o encontro diante do Marítimo. E se dúvidas existissem, ficaram logo diluídas em dois minutos.

Fruto de uma pressão alta e de uma entrada agressiva e com muita intensidade em campo, o Sporting demorou menos de um minuto a ganhar o primeiro canto (marcado por Pedro Gonçalves, que estava assim longa da zona de finalização) e pouco mais para ter a primeira oportunidade flagrante, com um remate fortíssimo de Antunes à trave de fora da área. Ficava dado o aviso inicial mas este seria um encontro diferente daquele que deu o título com o Boavista e que teve três bolas nos ferros porque o golo inaugural surgiu ainda dentro dos primeiros dez minutos, com Jovane Cabral a ganhar vantagem pelo espaço entre lateral e central, a cruzar atrasado a partir da esquerda e Pedro Gonçalves, oportuno, a encostar para o 1-0 (7′). Se já existia vontade de ajudar o antigo jogador do Famalicão a superar Seferovic, a partir daí mais houve. Mas isso não prejudicou a equipa.

Um dos grandes desafios de uma formação quando tenta “oferecer” golos a um companheiro é que facilita toda a leitura feita pela defesa adversária, que de forma quase inconsciente fica mais habilitada para perceber quais são os movimentos contrários. Não foi isso que aconteceu com o Sporting. E também não foi isso que aconteceu com Pedro Gonçalves, que pouco depois arrancou uma grande combinação ofensiva com Jovane Cabral antes de isolar Paulinho para um remate de pé direito que saiu pouco ao lado (12′). Os leões jogavam de forma solta, sem pressão e com uma vontade especial em terminar da melhor forma a temporada depois da derrota na Luz. Com isso, e perante um conjunto insular a meter água por tudo o que era lado, o 3-0 chegou de forma natural.

Ou melhor, natural pelo que se passava, tudo menos natural como aconteceu. Porque se é verdade que o segundo golo da formação verde e branco premiou o domínio em campo, com uma pressão alta de Paulinho que obrigou o Marítimo a jogar mal na saída, teve Daniel Bragança a recuperar numa zona mais adiantada antes do remate rasteiro que bateu no poste e uma recarga sem problemas de Pedro Gonçalves (20′), o que se passou de seguida foi no mínimo invulgar. Caricato. Insólito. Todas as ideias que possam entrar neste campo de palavras: a bola foi ao meio, os jogadores maritimistas rodaram a bola, Kato atrasou a bola, Charles não conseguiu dominar, passou por baixo do pé e acabou por encaminhar-se para a baliza (21′). Na última jornada, o golo mais caricato da época, que fecharia as contas até ao intervalo entre mais chances falhadas de Paulinho e Pedro Gonçalves.

Ao intervalo, e à semelhança do que tinha acontecido com o Benfica, Rúben Amorim lançou João Palhinha no lugar de Daniel Bragança com a certeza de que perderia criatividade e critério na posse mais ganharia outro tipo de equipa sem bola na zona do meio-campo e viu a equipa entrar de novo com a corda toda e olhos na baliza, tendo uma espécie de concurso de tiro à baliza com João Pereira (49′), Pedro Gonçalves (51′) e Matheus Nunes (53′) a deixaram a sua candidatura mas tudo muito por cima. Faltava chegar o momento da noite. E chegou porque, esta noite, Jovane Cabral, mesmo sem marcar, fez das exibições mais completas esta época: a criar, a procurar os espaços, a defender, a equilibrar, a fazer a diferença no passe como aquele que isolou Pedro Gonçalves nas costas da defesa do Marítimo para o remate que lhe valeu o título de melhor marcador (62′).

Antes, todos os presentes tinham aplaudido de pé a saída de João Pereira, que acabou a carreira aos 37 anos com um título que já não contava. Depois, muitos dos presentes aplaudiram de pé as entradas de André Paulo e Tomás Silva, elementos que têm jogado sobretudo pela equipa B mas que tiveram a oportunidade de fazer a estreia pela equipa campeã. Todos os objetivos estavam alcançados e até houve margem para Pedro Gonçalves voltar a ir à área insular falhar o golo mais fácil de todos após passe de Paulinho (70′). E parecia que o encontro estava fechado até que Charles saiu da baliza para intercetar um passe em profundidade, não conseguiu tirar a bola para o meio-campo contrário e Gonzalo Plata fez um grande chapéu para marcar o quinto (75′).