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Contra a Croácia, Portugal deu o exemplo pela capacidade de superar uma estreia. Entrou de forma segura, foi mantendo sempre o equilíbrio mesmo quando não materializava as oportunidades, soube esperar pelo momento certo para se colocar em vantagem por Fábio Vieira, fez depois uma grande gestão do resultado sem sofrer e até sem consentir qualquer oportunidade de golo ao adversário com maior capacidade de posse e circulação.

O início do último capítulo da trilogia começou com Fábio: Portugal vence Croácia no arranque do Europeu Sub-21

Contra a Inglaterra, Portugal deu o exemplo pela forma como soube sempre perceber os momentos de jogo. Apresentou uma outra fórmula tática para encaixar nas características do adversário, entendeu o encontro com bola, explorou os espaços entre linhas que ia conseguindo criar por mérito próprio, “matou” o jogo com dois golos em dez minutos, mais uma vez secou por completo um ataque britânico que era o seu ponto forte.

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Contra a Suíça, Portugal deu o exemplo pelo requinte de “defender” um resultado com bola. A precisar de apenas um ponto para carimbar a passagem à fase seguinte em primeiro lugar, marcou logo no terceiro minuto, teve depois longos minutos de um autêntico hino ao futebol em posse e circulação, criou inúmeras situações de golo em transição ou ataque organizado e fechou a fase de grupos com uma exibição de encher o olho.

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Contra a Itália, Portugal deu o exemplo pela força mental que foi apresentando em todos os momentos. Depois de duas vantagens de dois golos anuladas por alguns erros não muito comuns em termos defensivos, nas bolas paradas e logo após o 3-1, a equipa resistiu ao golpe do empate em cima dos 90′ que levou todas as decisões para prolongamento, não teve pressa em materializar a vantagem numérica e fechou a vitória no final.

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Contra a Espanha, Portugal deu o exemplo de como também sabe sofrer. Após uma primeira parte quase sem balizas, a troca de Bryan Gil por Miranda e a subida no terreno de Cucurella mudou por completo a Espanha, que foi muito melhor, criou várias oportunidades, não aproveitou, viu o encontro ficar mais dividido com as substituições promovidas por Rui Jorge e acabou por cair com um autogolo que premiou o sofrimento nacional.

A era dos Diogos ganhou um craque que só é Vitinha de alcunha (a crónica do Espanha-Portugal)

Seis anos depois, a Seleção Sub-21 voltava à final do Europeu da categoria, tendo desta vez a Alemanha como adversário depois das derrotas com Itália (1994) e Suécia (2015). E voltava com algo que ficou bem patente ao longo dos cinco encontros realizados entre fase de grupos e a eliminar: mais do que uma equipa com valores de gerações diferentes, mais do que uma equipa que tem prazer em jogar futebol, era uma equipa habituada aos grandes palcos, aos grandes momentos, às grandes decisões. A era dos Diogos (Costa, Dalot, Queirós e Leite), que se tornou a primeira a ganhar também a Youth League por uma equipa portuguesa (FC Porto) tendo também aí um Vitinha cada vez maior e melhor, ganhou nos Sub-17, ganhou nos Sub-19 e queria ganhar nos Sub-21.

“É mais um jogo e é isto que vou dizer aos jogadores. Se há frase que não gosto é ‘As finais são para se ganhar’, as pessoas que a dizem são as mesmas que dizem que os jogos são todos iguais e cada jogo é para vencer… É um lugar comum, não faz sentido, não sou muito apologista disso. Todos os jogos são para serem encarados da mesma forma. O discurso é assim desde o começo. Se me sinto mais confortável do que com a Espanha? Não, sinto-me igualmente expectante. Apesar de sabermos que é um estilo de jogo diferente, vamos tentar que o nosso jogo leve a melhor. Eles são muito mais físicos do que nós, se formos pelos duelos corpo a corpo, se os deixarmos chegar próximos, vamos ter muitas dificuldades, eles são muito superiores a nós em termos físicos. Se não conseguirmos que o jogo vá para outro nível, poderemos ter muitas dificuldades; se conseguirmos impor o nosso jogo e que não cheguem próximos de nós, aí poderemos ter alguma vantagem”, comentara Rui Jorge.

Em Ljubljana, onde a Seleção principal de futsal conseguiu pela primeira vez ser campeã europeia depois de uma vitória após prolongamento com a Espanha em 2018, Portugal tentava o único título continental em falta no futebol depois de seis Europeus Sub-17, quatro Europeus Sub-19 e um Europeu de seleções A, naquela que seria também a décima final de grandes provas internacionais só na última década para a Federação. No final, prolongou-se o enguiço, Portugal perdeu pela terceira vez e a Geração de Ouro que ganhara antes os Europeus Sub-17 e Sub-19 não conseguiu fechar com um último título um trajeto sem comparação no plano internacional.

Não mudando a identidade da equipa mas adaptando o onze inicial às características da Alemanha, Rui Jorge lançou Florentino Luís e Tiago Tomás no onze e foi esta dupla que começou por dar nas vistas: logo a abrir, o médio teve uma boa bola em terrenos mais adiantados, abriu em Diogo Dalot mas o remate saiu às malhas laterais (2′); um pouco depois, Dany Mota ganhou após duas insistências na esquerda, cruzou atrasado, o jovem avançado conseguiu rodar bem mas o tiro de pé esquerdo saiu um pouco ao lado (8′). Tiago Tomás teria ainda um bom cabeceamento em jeito para defesa de Dahmen (12′) e Portugal era a única a rematar mas a Alemanha seria a primeira a criar verdadeiro perigo e em duas ocasiões, com Wirtz a acertar na trave num remate que desviou ainda em Diogo Queirós após perda de Florentino Luís (15′) e Diogo Costa a desviar para canto um toque em jeito de Nmecha na área depois de uma grande arrancada de Baku da direita para o meio (20′).

Portugal teve uma entrada melhor mas sentiu depois mais dificuldades do que aquelas que criou. E o problema era repetido vezes sem conta, num meio-campo onde os quatro jogadores terminaram a primeira parte sem uma única ação defensiva: a Alemanha ganhava vantagem quando fazia descair Wirtz na direita com a subida de Baku, deixando Abdu Conté em situações de 2×1 ou 1×1, e quando conseguia rodar rápido o centro de jogo aproveitando a falta de basculação da segunda linha defensiva nacional. Foi assim que Maier obrigou Diogo Costa a uma grande defesa (30′), foi assim que vários cruzamentos foram chegando à área nacional com cortes de Diogo Leite e Diogo Queirós. No entanto, a oportunidade mais flagrante surgiria em cima do intervalo e para a Seleção, já depois de um remate por cima de Fábio Vieira: Vitinha foi bem lançado por Diogo Dalot, fintou bem um adversário mas demorou em demasia com nova finta e já não conseguiu rematar à baliza (45+1′).

Rui Jorge mexeu ao intervalo. Lançou Rafael Leão, tirou Dany Mota. Mais do que isso, corrigiu posicionamentos da equipa sobretudo sem bola, fechando mais o corredor central com os avançados para evitar passes diretos que saltavam linhas e obrigando a Alemanha a jogar em largura para poder progredir em posse. No entanto, essa movimentação obrigava depois algumas compensações mediante o centro do jogo e foi aí que Portugal sofreu o primeiro golo logo a abrir: Baku teve mais uma vez todo o corredor lateral direito para avançar, Abdu Conté não quis sair à queima, Nmecha fez a diagonal na área e conseguiu desta vez ser mais forte para o 1-0 (49′).

A Seleção estava pela primeira vez em desvantagem na fase final do Europeu Sub-21, com um golo do avançado que esteve cedido pelo Manchester City ao Anderlecht gerando grande interesse de vários clubes europeus e que já tinha assegurado assim a luta pelo título de melhor marcador da competição. E conseguiu reagir, com Fábio Vieira a arriscar um golo de bandeira do meio-campo que foi desviado por Dahmen para canto (59′) e com o regresso ao 4x3x3 com Francisco Conceição e Jota nos lugares de Vitinha e Tiago Tomás. Portugal jogava mais à frente, teve duas boas situações com remates intercetados na área, tentava criar perigo também de bola parada mas seria o recém entrado Adeyemi, numa transição, a ver Diogo Costa manter o 1-0 (72′), antes de nova defesa do guarda-redes português em mais uma saída rápida que começou numa perda de bola a meio-campo.

Com uma defesa sempre segura e dois médios que continuavam a ser verdadeiras máquinas (Dorsch e Maier), Portugal sentia cada mais dificuldades em empurrar os germânicos para o meio-campo contrário, fosse com jogo pelos corredores laterais, onde entretanto tinha ganho vantagem numérica, fosse pelo corredor central. E o triunfo dos germânicos acabou por chegar com total naturalidade, perante a incapacidade do conjunto nacional em criar oportunidades de golo que permitissem levar pelo menos o encontro para prolongamento.