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O jogo entre Portugal e Itália, nos quartos do Campeonato da Europa Sub-21, foi um daqueles pequenos hinos ao futebol com um pouco de tudo: muitos golos, ainda mais emoção, incerteza no marcador, um vermelho que nem por isso desequilibrou em definitivo o encontro, resultado em aberto até ao último minuto do prolongamento. No final, a Seleção Nacional venceu por 5-3 e garantia pela quarta vez o apuramento para as meias do Europeu da categoria, a única competição que a Federação não conta ainda nos seus quadros continentais depois dos triunfos da equipa A, dos Sub-19 e dos Sub-17 (ou dos Sub-20, neste caso no plano mundial). Mas nem mesmo os três golos sofridos geraram preocupação nas contas do técnico Rui Jorge, que mostrava confiança na capacidade coletiva da equipa tendo algumas individualidades em maior destaque como Dany Mota ou Vítor Ferreira.

Portugal vence Espanha com um autogolo e está na final do Europeu Sub-21 pela terceira vez na história

“Analisámos o que aconteceu e é evidente que existem pequenos erros mas não é uma coisa que me preocupe em demasia. De uns jogos para os outros, não temos tempo de treinar mas apenas para recuperar. Analisámos vídeos, explicámos algumas coisas estratégicas e depois confiamos na inteligência e na concentração dos atletas para que se possa ter um bom desempenho”, comentou o selecionador na antecâmara do dérbi ibérico frente à Espanha, que afastou também no prolongamento a Croácia, já depois de ter referido no dia da partida dos quartos que, “apesar de poder parecer um pouco estranho”, tinha ficado satisfeito com a equipa na defesa.

Mota foi um Ferrari e até de bicicleta marcou mas o motor ainda chegou a gripar (a crónica do Portugal-Itália)

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“Estou muito expectante. Claro que será uma equipa a dificultar-nos muito a distribuição de bola, mas vamos lutar muito. Olhando para o passado das seleções, vemos os números e reparamos que são sistematicamente dominantes na posse. Alguém terá de levar a melhor nesse sentido, não sendo aquilo que mais nos preocupa. Quando tivermos a bola, nem que seja numa percentagem menor, teremos que ser fortes. Eles sofreram agora de penálti e o último também tinha sido assim. Por outro lado, temos marcado em todos os jogos desde 2016. A nossa forma de jogar e a qualidade dos nossos jogadores leva-nos a isso. Vai ser interessante perceber como as equipas se vão encontrar e bater num jogo com certeza bom de ver”, destacou o técnico, que recordou depois uma frase dita em 2017, antes do duelo entre ambos na fase de grupos com vantagem para a Espanha (3-1).

Na fase final de 2017, um jornalista disse que não sabia o que iria acontecer mas sabia que ia gostar de ver. Acho que se repete um bocadinho isso este ano. Não sei o que vai acontecer mas tenho a certeza de que será um jogo fantástico entre jogadores que irão ser dos melhores ao nível europeu.”

Ao contrário do que se poderia pensar, e depois de uma primeira parte equilibrada, a Espanha foi muito melhor no arranque do segundo tempo. Teve uma bola no poste, teve várias oportunidades, teve o domínio total. Nem mesmo assim Portugal perdeu o foco: sem posse, sem controlo e sem saída, a Seleção Nacional aguentou como conseguiu até entrar na fase do jogo em que conseguia ferir e não ser apenas ferido, beneficiando depois de um autogolo para somar a 12.ª vitória seguida contra uma equipa espanhola que não perdia há 18 jogos. E, mais uma vez, Vítor Ferreira, ou Vitinha, voltou a ser o destaque: o médio ofensivo do Wolverhampton não fez parte das fases finais em que a era dos Diogos (Costa, Dalot, Leite e Queirós) ganhou os Europeus de Sub-17 e Sub-19 mas tornou-se a figura desta equipa de Sub-21 e mostrou de novo que tem muito futebol nos pés e na cabeça.

O encontro começou quase como um prolongamento das palavras de respeito que os treinadores tiveram antes do encontro, com a Espanha a procurar os desequilíbrios pelos corredores laterais com Brahim Díaz e Bryan Gil tendo desta vez Puado de início em zonas de finalização e Portugal a tentar saídas rápidas quando possível entre um maior controlo com bola quando esse primeiro passe rápido não entrava nos médios ofensivos ou logo nos avançados. Ainda assim, as hipóteses foram escassas ou mesmo nulas, com Brahim Díaz a desviar de cabeça na área por cima após cruzamento de Bryan Gil (12′) e Vítor Ferreira a obrigar Fernández a defender para canto num lance em que ganhou uma segunda bola, tirou uma adversário e tentou de meia distância (15′).

Até ao intervalo, que chegaria com mais algumas ameaças mas sem grandes lances de real perigo, o jogo ficaria dividido em duas fases, com Portugal a ter um maior período de capacidade nas transições a lançar Rafael Leão, sobretudo num lance em que deixou Mingueza para trás mas cruzou ligeiramente para a frente quando Dany Mota podia encostar na pequena área, e a Espanha a acabar melhor, com mais posse junto ao último terço, a ganhar mais segundas bolas logo na primeira fase de construção nacional e a ter um remate perigoso de Brahim Díaz ao lado entre outras jogadas em que foi pecando apenas no último passe perante a passividade dos médios portugueses mais recuados, sem a intensidade necessária e a falhar alguns passes em zona proibida.

No segundo tempo, a história mudou por completo e a Espanha teve um sem número de oportunidades para poder marcar apenas dentro dos 15 minutos iniciais entre um remate de Cucurella ao poste, um cabeceamento de Cuenca para defesa de Diogo Costa, um tiro rasteiro de Brahim Díaz que passou perto do poste e mais uma defesa de Diogo Costa a uma tentativa de Miranda. Mesmo sem Bryan Gil, que saiu ao intervalo, os espanhóis asfixiavam Portugal com e sem bola no seu meio-campo, algo que Florentino Luís tentou inverter quando entrou para o lugar de Gedson Fernandes mas acabou por nem sempre conseguir como se viu num lance em que Manu García apareceu sozinho pelo corredor central para mais um remate que saiu muito perto da baliza nacional.

Depois, e em poucos minutos, uma conjugação de fatores começaram a mudar a história a favor de Portugal. Um lance em que Brahim Díaz ficou a pedir uma grande penalidade por falta de Diogo Queirós, a saída de Brahim Díaz e Manu García por opção técnica de Luis de la Fuente, a tripla substituição de Rui Jorge com Romário Baró, Jota e Tiago Tomás para os lugares de Daniel Bragança, Dany Mota e Rafael Leão. O encontro que durante 20 minutos foi completamente desequilibrado passou a ter características distintas e foi essa viragem que permitiu que Vítor Ferreira voltasse a estar em plano de destaque, com um fantástico passe a lançar Fábio Vieira que cruzou para Tiago Tomás mas viu Cuenca desviar a bola para a própria baliza, fazendo o golo decisivo (80′).