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Portugal não tem propriamente o melhor histórico com Itália, a Seleção Sub-21 tem ainda um pior histórico com Itália. Aliás, olhando apenas para encontros de caráter oficial a contar para o Europeu, a única vitória nacional foi nos quartos de 1996 mas que eram jogados a duas mãos e de nada valeram para as contas finais. Mais: duas derrotas mais duras para Portugal nesta categoria surgiram contra os transalpinos, na final de 1994 e nas meias de 2004, quando tudo apontava para a primeira vitória de sempre na competição ainda adiada. No entanto, e com o tempo, as coisas foram mudando. Nos confrontos, nos jogos, na própria squadra azzurra.

Portugal vence Itália por 5-3 no prolongamento e vai defrontar a Espanha nas meias do Europeu

Esse ponto de viragem surgiu em 2007, quando Portugal perdeu nas grandes penalidades depois de jogar cerca de 45 minutos em vantagem numérica no jogo de apuramento para os Jogos Olímpicos. A Seleção então liderada por José Couceiro tinha grandes jogadores como João Moutinho, Nani, Miguel Veloso ou Varela e fazia do jogo de qualidade pelo chão a sua identidade mas encontrou pela frente uma Itália bem mais predisposta a enfrentar o jogo pelo jogo e com bola do que nos duelos até aí, aproveitando uma geração que tinha Nocerino, Montolivo, Aquilani, Rosina, Pazzini ou Rossi (além do central Chiellini). Se muitas vezes ainda encontramos a equipa A dos transalpinos a dar a posse ao adversário e a jogar nas transições, os Sub-21 foram começando a partir daí a ser formatados de outra forma. E ainda hoje assim continuam, aproveitando a qualidade na parte ofensiva.

“Acredito que seja um jogo equilibrado. Pela nossa forma de jogar, tentaremos ter mais tempo a posse de bola mas temos de estar preparados para jogar em ataque rápido e contra-ataque. Se fizermos o que fizemos em março, estaremos à altura. Teremos de ser bastante adultos e seguros. A Itália é uma equipa muito perigosa no contra-ataque. Não podemos perder bolas em zonas proibidas. Teremos de ter a atenção que tivemos com a Suíça, que tinha dito que era semelhante. Precisamos de ter capacidade para, tendo superioridade no meio-campo, ter jogadores em boa posição e com capacidade para executar passes de rutura que nos levem para a frente”, explicara na antevisão do jogo o selecionador Rui Jorge, recordando também o passado desta geração.

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Estou constantemente a dizer que o passado foi bonito, temos três jogadores que foram campeões de Sub-17 e Sub-19, outros que venceram competições internacionais, o que lhes dá capacidade para lidar com estes momentos. Conseguimos um equilíbrio interessante, os jogadores não estão demasiado confiantes, estão no ponto para mostrar que merecemos estar aqui”, destacara.

Parte dessa confiança entroncava na qualidade dos jogadores, parte naquilo que a equipa fez na fase de grupos com três vitórias contra Croácia, Inglaterra e Suíça, parte no grande leque de soluções que tinha à disposição mesmo com baixas de relevo como Nuno Mendes, Pedro Gonçalves (na equipa A), Thierry Correia (infetado com Covid-19) ou Francisco Trincão (em isolamento por ter estado com um contacto de alto risco). E foi isso que permitiu a Rui Jorge entrar com um onze adaptado à formação transalpina, reforçando o meio-campo com Gedson a juntar-se a Daniel Bragança, Vítor Ferreira e Fábio Vieira e Gonçalo Ramos a fazer dupla na frente com Dany Mota deixando no banco outras soluções ofensivas como Rafael Leão, Jota ou Tiago Tomás.

Com Tomás Tavares na esquerda e Diogo Dalot de regresso à lateral direita, Portugal começou mesmo a jogar em 4x4x2 em posse tendo Fábio Vieira à procura dos espaços entre linhas e Gedson mais descaído na esquerda mas a passar para 4x3x3 sem bola, com Fábio Vieira a juntar-se aos avançados na primeira linha de pressão. E se só mesmo através de passes errados a Itália conseguia entrar no último terço, Portugal não demorou a colocar o seu futebol em prática e a ameaçar o golo, com uma fantástica jogada entre Fábio Vieira e Vítor Ferreira a deixar o médio do Wolverhampton em posição de remate para defesa de Carnesecchi para canto (6′). O golo ficou perto aí, o golo apareceria na jogada seguinte: canto de Fábio Vieira na direita, primeiro desvio a deixar a bola no ar e grande pontapé de bicicleta de Dany Mota, a inaugurar com nota artística o marcador para Portugal (6′).

Portugal conseguia ficar em vantagem cedo, o que lhe permitiu outra tranquilidade na gestão do jogo, e contou com uma Itália que em alguns momentos percebia onde podia entrar na defensiva nacional mas falhando na altura do último passe, com Bellanova a ser exemplo paradigmático disso mesmo ao ganhar várias vezes o corredor direito mas a cruzar ou rematar mal. Os minutos passavam, Pobega teve a única ameaça à baliza de Diogo Costa com um remate que passou perto do poste (24′) e seria mais uma vez de canto que o marcador iria funcionar: Fábio Vieira voltou a marcar a bola parada na direita, Daniel Bragança surgiu ao segundo poste sozinho a assistir de cabeça e Dany Mota, com mais um grande trabalho, “fuzilou” para o 2-0 (31′).

Se é certo que a Seleção fazia a diferença com bola, na capacidade que tinha em queimar linhas quando Vítor Ferreira, Daniel Bragança e Fábio Vieira conseguiam combinar, era nos lances de estratégia que surgiam os golos. E seria também assim, em cima do intervalo, que viria a sofrer: no seguimento de um par de minutos onde a Itália conseguiu ser mais pressionante e capaz de pressionar algo para condicionar a saída em posse da equipa de Rui Jorge, também os transalpinos conseguiram bater um canto à direita para desvio ao primeiro poste e desvio isolado de Pobega, sem adversários por perto e sem hipóteses para Diogo Costa (45′).

A segunda parte começou sem alterações, sem oportunidades e sem muito futebol, com as duas equipas a terem tendência para “mastigar” o jogo pelo meio até um primeiro lance em que a Itália conseguiu dar largura às suas ações ofensivas e criou uma chance flagrante, com Frattesi a aproveitar um cruzamento tenso de Sala para surgir de rompante na área e cabecear para uma extraordinária defesa de Diogo Costa (54′). Os transalpinos ficavam pela primeira vez muito perto do empate, os transalpinos não demorariam a ficar de novo com dois golos de atraso: Fábio Vieira viu bem com um passe longo Diogo Queirós, que tinha ficado na área, o central ganhou de cabeça e Gonçalo Ramos surgiu de forma letal na área para fazer de primeira o 3-1 (58′).

Mesmo sem justificar pelo que fizera até aí, Portugal voltava a ter uma vantagem mais confortável para gerir mas uma série de erros na movimentação defensiva entre o meio-campo e o setor recuado permitiu que a Itália marcasse logo no lance seguinte, com Raspadori a ganhar pelo corredor central, Frattesi a surgir nem no espaço entre central e lateral na direita do ataque e Scamacca a surgir apenas para encostar na área (60′). Tudo em aberto com meia hora por jogar, já sem o mesmo discernimento das duas equipas e com a Seleção a criar perigo outra vez pelo ar na sequência de um cruzamento longo com Diogo Queirós a ver um defesa italiano a tirar perto da linha de golo quando Carnesecchi estava fora da baliza (68′). Era do banco que o encontro podia mudar.

Florentino Luís conseguiu dar outra segurança defensiva ao meio-campo, Jota trouxe outra criatividade ao ataque nacional, Carnesecchi travou ainda um bom remate do avançado que esteve cedido pelo Benfica ao Valladolid na presente temporada (84′) mas o forcing final da Itália acabaria por dar frutos, num lance pela esquerda em que Francisco Conceição falhou uma primeira tentativa de interceção, a bola chegou a Sottil para o 1×1 com Dalot e Cutrone apareceu ao primeiro poste para desviar de primeira para o empate apenas a um minuto do final do tempo regulamentar, numa fase em que o jogo poderia ter outro tipo de controlo. A equipa transalpina conseguiu recuperar duas vezes de desvantagens de dois golos e levou o jogo para prolongamento.

Aí, o que poderia tornar-se fácil acabou por virar uma complicação: depois do segundo amarelo a Lovato por falta num lance pelo ar com Dany Mota, o que deixava os transalpinos reduzidos a dez logo no início do tempo extra, Portugal teve dificuldades em criar oportunidades, viu até Cutrone inventar um possível lance de golo que obrigou Diogo Costa a defesa apertada e só mesmo no primeiro minuto da segunda parte do prolongamento houve mais Portugal, com Florentino Luís a desmarcar bem Rafael Leão que não conseguiu rematar da melhor forma. Estava dado o mote para um final de jogo eletrizante, com Jota a combinar bem com Romário Baró para o 4-3 num bom remate em arco na área (109′) e Cutrone a desviar muito perto do poste logo na joga seguinte (111′), em mais um aviso que mostrou as fragilidades nacionais mas que não ameaçou o triunfo final, que ficou sentenciado em definitivo com uma grande jogada individual de Francisco Conceição (119′).

Portugal conseguiu apurar-se pela quarta vez na história para as meias do Campeonato da Europa Sub-21 e vai agora defrontar a Espanha, que venceu também no prolongamento a Croácia (2-1). E se é certo que Dany Mota até de bicicleta marcou e foi um verdadeiro Ferrari na frente, o motor da Seleção nas transições gripou algumas vezes. Demasiadas vezes. E esse será o trabalho do “mecânico” Rui Jorge nos próximos dias, um selecionador que mais uma provou como é possível agarrar numa equipa, tentar jogar bom futebol e ganhar nas fase finais.