Huang entrou naquela sala de judo para tentar aprender. Huang queria ser ensinado. Huang, no limite, e com a ajuda do tio, queria perceber se aquele desporto era ou não o indicado para si. 70 dias depois, Huang morreu.

O caso, noticiado nos meios de comunicação de Taiwan e com redobrado eco no mundo através de um texto da BBC internacional, aconteceu em abril, teve agora o pior desfecho possível e está a chocar o país, perante a descrição aterradora do que aconteceu a Huang naquele que seria apenas mais um treino de judo, neste caso filmada pelo tio, também presente no ginásio, para mostrar depois à mãe o que o filho era capaz de fazer.

A BBC tinha escrito sobre o caso no início de maio, quando Huang (que na altura tinha o nome fictício de Wei Wei) estava já internado, em coma e a lutar pela vida. Durante esse mesmo treino, a criança, que tinha estado vários dias a tentar convencer a família para ter aulas de judo, foi projetada 27 vezes ao solo. Uma, duas, três, dez, 20, 27. Pelo meio, como é audível na gravação, queixa-se e chega a gritar. “A minha perna”. “A minha cabeça”. “Não quero isto!”. O treinador, esse, repete o mesmo pedido para um aluno mais velho. “Mais uma, mais uma, mais uma”. E quando a criança já não tem forças para se levantar, conta a BBC, é o próprio treinador que se aproxima de Huang, que o levante e que o projeta mais uma vez. E outra. E outra. Até às tais 27 vezes. “Uma autêntica tortura”, como é descrito também no artigo publicado sobre o tema pelo El Español.

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Huang não resistiu e, já depois de ter vomitado sem que o “treino” parasse, acabou por ficar inconsciente e foi levado para o hospital, onde foi diagnosticado com várias hemorragias cerebrais. “Ainda me lembro da manhã em que o levei à escola. Virou-se para mim e disse ‘Mamã, adeus’. À noite estava assim”, contou a mãe. “O tio sente-se terrivelmente mal com o que se passou”, acrescentou, com a publicação a explicar que, entre perguntas que surgiram sobre o porquê de não ter interrompido aquilo que se estava a passar, encontrou como única resposta a forma como em Taiwan se olha para os professores, “com uma noção de respeito e reverência que às vezes faz com que se aceite a autoridade quaisquer que sejam as circunstâncias em causa envolvidas”.

O treinador, cujo único nome revelado foi Ho, está na casa dos 60 e foi acusado na altura apenas de agressão, tendo sido libertado sob fiança em junho com o pagamento de 3.000 euros. E com uma agravante: não tinha sequer licença para ser professor/treinador. De acordo com o Taiwan News, agora, com a morte de Huang, Ho incorre em acusações e molduras penais bem mais pesadas nunca inferiores a sete anos de prisão efetiva. No entanto, as diligências não foram tão lineares como podem aparentar numa fase inicial do processo.

Como contou em maio a BBC, o treinador foi detido por suspeitas de comportamento negligente que causou lesões graves na criança mas, no primeiro interrogatório, recusou ter feito algo de errado. Perante as explicações dadas no Taichung District Court, o procurador libertou Ho de novas inquirições e aceitou a justificação de que tinha sido algo decorrente de um “treino normal”. No entanto, tudo mudou a partir do momento em que a família deu uma conferência de imprensa e apresentou provas de como o treinador causou de forma negligente lesões cerebrais graves na criança numa aula que foi tudo menos um treino, até por utilizar técnicas que Huang nem sequer conhecia e para as quais não tinha defesa. Ho foi então detido e colocado em prisão preventiva.

70 dias depois, e perante a descida da pressão sanguínea e dos batimentos cardíacos de forma irreversível, a família deu autorização para os médicos desligarem as máquinas de suporte de vida. Huang, que era fã do jogo do Super Mario, que adorava desporto e que ficara em terceiro numa corrida da escola, morreu esta terça-feira.