Basta falar poucos minutos com os nossos avós que nasceram, cresceram, e se fizeram homens e mulheres nas aldeias do nosso país, para perceber que a vivência deles é totalmente diferente da experiência de quem sempre viveu numa cidade, em meio urbano. Eles, que acordavam muito cedo, quando os galos começavam a cantar à primeira luz do dia e o frio ainda gelava qualquer parte do corpo que não estivesse coberta de roupa; eles, que abandonavam a cama quando o orvalho ainda pingava dos galhos das árvores e bebiam café acabado de fazer numa lareira sem proteção e com troncos que ainda crepitavam da noite anterior (era na cozinha que se vivia mais por, regra geral, ser a parte mais quente da casa); eles, que preparavam o farnel do dia, o mais composto possível, e partiam para os campos pastar o gado ou para trabalhar a terra e cultivar alimentos, ora ficavam a tecer roupa e artesanato.

Num mundo globalizado e apressado, é importante valorizar-se mais o contacto com esta realidade de outros tempos, que parece ter um efeito encantador em todas as pessoas que a vivenciam e que especialmente não está familiarizada com estas tradições: a proposta deste roteiro não podia ser mais simples, como o tipo de vida que caracteriza estes locais. Permita-se voltar às origens nestas nove Aldeias de Montanha, no Centro de Portugal, onde o silêncio acalma, as tradições contam histórias, a natureza é autêntica e as pessoas são genuínas. Nestas nove aldeias localizadas na região Centro, difícil será não regressar.

Sabugueiro

Fotografia: Pedro Cerqueira

Localizada em Seia, no coração do Parque Natural da Serra da Estrela, a 1.100 metros de altitude e a meio caminho do ponto mais alto da serra e de Portugal Continental, encontramos a aldeia de montanha do Sabugueiro. A memória perde-se quando não é falada e por isso quando visitar esta aldeia – que durante séculos dependeu inteiramente do cultivo do centeio e da pastorícia -, peça para lhe falarem como vivem as gentes genuínas daqui e sobre o ritmo diário da aldeia. Embora mais turística hoje em dia, e a paragem ideal para quem se dirige ao topo da serra, o Sabugueiro ainda guarda segredos de outros tempos: como o famosíssimo queijo da serra que é um assalto aos nossos sentidos e papilas gustativas; o tradicional pão de Sabugueiro, confecionado nos fornos comunitários de Sabugueiro; a típica confeção de cabrito, cordeiro e frango em grandes potes de barro – pergunte também pelo presunto e pelo mel. Espere encontrar ruas sinuosas centenárias com pequenas casas de granito, e espere também descobrir as memórias e as tradições destas gentes no Museu Etnográfico, no forno comunitário e nos antigos moinhos de água, assim como tesouros naturais ali muito perto – falamos da Cascata de Fervença e do Covão do Urso. Uma coisa é certa: não ficará desapontado com esta aldeia serrana.

Manteigas – Sameiro

Fotografia: Pedro Cerqueira

O caminho que o levará até à aldeia montanhosa do Sameiro, concelho de Manteigas, situada na encosta norte da Serra da Estrela, deslumbrará os mais céticos pelas paisagens naturais intocáveis. Em tempos, os seus habitantes eram chamados de “Povo Cimeiro”, por uma vez, em tempos que não há memória temporal, um grupo de invasores ter tentado invadir esta aldeia e daqui não ter passado, porque os locais prepararam uma emboscada às portas da aldeia. A si, ninguém lhe vai fazer isso e só pode esperar o melhor. O silêncio e a tranquilidade recriam o cenário perfeito para explorar este local idílico, com pequenas casas – algumas de xisto -, socalcos que ganharam forma ao longo de vários séculos, vale acima; as águas do Zêzere e a Praia Fluvial da Relva da Reboleira que refresca em dias de verão (durante o inverno, a história é outra). É também nesta aldeia serrana que poderá desafiar-se e fazer parapente no Lugar da Cabeça da Azinha – aproveite para apreciar a paisagem a partir do miradouro. Aqui, tudo é uma aventura.

Ilustração: Teresa Dias Costa

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Covilhã – Erada

Fotografia: CM Covilhã

Erada, Erada, a aldeia serrana no concelho da Covilhã, pintada em tons de verde seco, amarelo e castanho – devido aos seus terrenos áridos e à forma como a luz que abraça a aldeia -, convida-nos a desligar totalmente da azáfama da vida da cidade. É um convite para redescobrir a possibilidade de vivermos uma vida mais serena. Também aqui as histórias de antigamente permitem-nos conhecer o que não está à vista: falando com os locais, pergunte acerca dos dias longos dos seus antepassados que saíam de casa cedo de manhã para trabalhar na pastorícia ou na venda de carvão e azeite, e regressavam a casa ao anoitecer, para o ritual de sempre: beber um cálice de aguardente de medronho. Ora, aqui a proposta também é gastronómica: prepare-se para degustar os melhores sabores locais da Beira Baixa. O menu é vasto mas aponte estas sugestões: cabrito recheado à broa de milho com carnes e chanfana às papas de carolo. Ainda não está convencido? Espreite também as Piscinas do Complexo da Lameira, a Paisagem Humanizada de Erada e a Capela de São Sebastião.

Fundão – Alcongosta

Fotografia: Pedro Cerqueira

É no coração da Serra da Gardunha que encontramos a aldeia tipicamente serrana de Alcongosta. Não dá para não reparar nos hectares de pomares de cereja que rodeiam esta aldeia do concelho do Fundão e não há muito que enganar quando começamos a explorar a tradição local: a paisagem mostra o óbvio, a cereja, um dos elementos locais mais típicos, é quem manda aqui. Estamos, afinal, no maior berço de cerejas em Portugal: as frágeis flores brancas de cerejeira e depois muito vermelhas, quando desabrocham, cobrem esta área tornando-a digna de ser postal. É ir e deliciar-se, que as portas da comunidade estão abertas e quem é de lá gosta de receber de coração aberto. E, claro, pode aproveitar para comprar os cestos tão conhecidos para a apanha das cerejas — é em Alcongosta que se fazem artesanalmente estes cestos. E se tiver algum estragado, também têm artesãos que os reparam. Enquanto se perder a caminhar pelo centro da aldeia, sugerimos que explore o Caminho Romano de Alcongosta, o miradouro da Casa do Guarda de Alcongosta e o Cabeço de Argemela.

Fornos de Algodres – Figueiró da Granja

Fotografia: Pedro Cerqueira

Aqui, viaja-se no tempo. Foi por um cavalo e uma mula que, reza a lenda, D. Afonso Henriques terá vendido em 1446 as terras que atualmente perfazem o território da aldeia de Figueiró da Granja. Esta aldeia de montanha coberta por pequenas pedras da calçada e com uma vista ampla e desafogada sobre as encostas da Serra da Estrela, localizada no concelho de Fornos de Algodres, encanta pelo charme da sua zona central. Para quem gosta de apreciar espólio religioso esta é uma visita obrigatória, além do Museu Paroquial de Arte Sacra, caminhe até à Capela do Mártir ou de S. Sebastião e por fim até ao monumento da Casa Grande. Descubra a 612 metros de altitude o ponto mais alto da aldeia e aprecie, das alturas, o riquíssimo património histórico e arquitetónico, e dois penedos graníticos – que é o mesmo que falar-se em relíquias histórias -, com cerca de 3000 anos antes de Cristo.

Gouveia – Mangualde da Serra

Fotografia: Pedro Cerqueira

Entre as alturas serra e as águas puras da nascente do Rio Mondego, Mangualde da Serra ergue-se na encosta norte da Serra da Estrela. Esta aldeia de montanha, localizada no concelho de Gouveia, é um oásis no Centro de Portugal: pertinho da barragem e da praia fluvial do Vale do Rossim, a proximidade marítima é um dos seus pontos fortes, tal como a paisagem privilegiada para a Cabeça do Velho (não estranhe o nome, saberá o que é quando olhar a vista ampla) a partir do miradouro instalada junto à Ermida da Nossa Senhora do Castelo. As romarias são frequentes e causam o entusiasmo desmedido de quem as vê, não fosse o Centro de Portugal, casa das mais bonitas festas religiosas do país. Deixe-se levar pelos recantos naturais – não tem de os procurar, nesta aldeia serrana tudo o encontra.

Guarda – Videmonte

Fotografia: Pedro Cerqueira

A verdade é que nunca saberemos se as histórias que os antigos nos contam e que são faladas, boca a boca, de geração em geração, são realmente verdade mas o que é facto é que na Aldeia de Montanha de Videmonte, no concelho da Guarda, o desfecho da lenda que a fundou é feliz. Ora, diz-se que um dia um fidalgo acolheu no seu Monte a população da terra mais próxima – Vide -, quando esta localidade foi atacada por uma praga de formigas – imagine-se: gigantes -, que, segundo se conta, chegou a matar algumas crianças. Percebe agora a razão pela qual Monte foi escrito com M maiúsculo? É que da fusão destas duas povoações surgiu, afinal, Videmonte. Terra do pão, que em tempos teve mais de 20 moinhos de água, oferece aos visitantes curiosos a oportunidade de visitar o forno comunitário. Mas nem só de pão e vinho se vive a vida, por isso, depois de petiscar aproveite para conhecer a Igreja Matriz de Videmonte, inspire o ar muito puro da serra enquanto se desloca até ao Planalto de Videmonte, e para finalizar o percurso aproveite as águas da Praia Fluvial da Quinta da Taberna. Querer deixar Videmonte – isso sim, é que será o desafio.

Celorico da Beira – Rapa

Fotografia: Pedro Ribeiro

São quatro letras, mas a beleza desta Aldeia de Montanha não se mede pelo tamanho do seu nome: trata-se de Rapa, no concelho de Celorico da Beira, que nasce da comunhão com a natureza (afinal, está envolvida pela Serra da Lomba) que poderá observar a partir do Baloiço da Rapa (avisamos que é bastante instagramável) e do Miradouro da Rapa. Uma aldeia de artistas, diz-se, pela herança deixada pela poetisa Maria José Furtado Mendonça, e pela associação à olaria que ocupa uma posição de destaque na tradição local. É mais aventura que procura? Existem trilhos de Enduro/BTT no BikePark Cadafaz Rapa. Aceita o desafio?

Oliveira do Hospital – Alvoco das Várzeas

Fotografia: CM Oliveira do Hospital

A abrir o caminho de entrada na Aldeia de Montanha de Alvoco das Várzeas, no concelho de Oliveira do Hospital, está uma ponte romana (talvez o símbolo mais conhecido desta povoação) que nos convida a explorar o centro histórico: acompanhe o som da água e siga-o até à margem do rio Alvôco. Pratique um exercício de atenção plena, observando o sistema de irrigação comunitária dos campos agrícolas, apreciando a Igreja Paroquial, a capela de S. Sebastião, os cruzeiros e Alminhas do Terreirinho. Não avançaremos mais, mas queremos dizer-lhe que é de arrepiar: afinal, também aqui, existem lendas de bruxas, princesas e lobisomens.

Natureza autêntica, pessoas genuínas: são aldeias de sabores, aldeias de cultura, aldeias de fugas, aldeias de natureza, esta rede Aldeias de Montanha, no Centro de Portugal, engloba 41 povoações serranas. O desafio está lançado: faça-se à estrada, difícil será não regressar.

Saiba mais sobre este projeto em 
https://observador.pt/seccao/centro-de-portugal/