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Aos 14 anos, Husnah Kukundakwe cumpriu um sonho: ser atleta paralímpica. E não apenas uma qualquer desportista, visto ser a primeira nadadora do Uganda a competir em Jogos Paralímpicos desde Sydney 2000.  E não houve apenas uma deficiência nos membros superiores para ultrapassar, como também discriminação, dificuldades dos pais ou até em encontrar um local para treinar.

Uma rapariga que começou a nadar apenas “para se divertir e brincar na água”, foi quando viu um primo a nadar “de forma rápida” num evento escolar que pensou: “Porque é que não posso fazer isto? Experimentei voleibol, netball, mas natação era o único desporto em que conseguia ficar então comecei a competir”.

Mas a competição nunca foi fácil para Husnah, nem o treino e preparação para a mesma porque treinar com atletas não paralímpicos é “um grande desafio e é difícil”, sendo exatamente o que lhe acontece no Uganda, onde se vê com dificuldades em “conseguir chegar à sua velocidade”.

“Eles fazem-me nadar mais depressa. Normalmente nado com pessoas com o dobro da minha idade e com mais experiência. Fico contente por ganhar experiência, que ganho também nas competições internacionais”, acrescentou, citada pelo site dos Jogos Paralímpicos, dizendo ainda que estar no estrangeiro “requer muito financiamento”, o que é uma “luta” para a sua mãe, que procurar conseguir esses mesmos apoios.

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“Recentemente fomos ajudados por pessoas de bem e o Governo fez um esforço com os uniformes e em estarmos aqui. Mas normalmente são os meus pais e para eles é complicado encontrar o dinheiro. Até para os treinos e piscinas, porque ter acesso a uma boa piscina de 25 metros no Uganda é muito caro, porque só existe em bons hotéis. Estive neste pequeno campo de treino na preparação para os Paralímpicos cerca de dois meses e o Governo pagou as custas do hotel e isso foi ótimo”, disse ainda a atleta que passa 13 horas por dia a treinar.

Além do esforço monetário, a discriminação também fez parte do caminho da jovem atleta, que se lembra de isso acontecer “numa competição, quando tinha seis anos”. “Senti-me posta de parte, que era suposto sentir-me incluída. Quando chegou à segunda corrida o professor substituiu-me por outra rapariga porque achava que não conseguia lidar com o stress. Disse-me apenas para sair e deixá-la nadar. Isso fez-me sentir triste e parei de nadar algum tempo. Tentei outros desportos. Adoro futebol, mas percebi que o futebol não era para mim, porque sempre quis nadar e quando me comecei a sentir mais confiante comecei a sentir-me melhor, porque na natação não há muitas roupas. No futebol tentava esconder a minha mão, até perceber que não fazia sentido. Preciso mostrar às pessoas que, quer me aceitem ou não, não me importo”, frisou.

Portanto, aos 14 anos, o melhor momento de Husnah na carreira é simples de definir: “Participar nestes Jogos Paralímpicos, porque começaram a chamar-me atleta paralímpica e eu não estava satisfeito com isso, mas quando competi, senti-me bem. Acho que agora mereço o ‘título’, porque a minha carreira está a começar e não posso esperar para ver até onde é que a viagem me vai levar”, disse confiante.

Afirmando que o melhor momento de Tóquio 2020 foi “competir”, apesar de estar “muito nervosa” e perto dos seus “ídolos”, Kukundakwe tem como objetivo “inspirar outros atletas no Uganda” a seguirem os seus passos. E por falar em passos, ela já tem os seus definidos, visto que mal pode esperar por Paris e até “estudou francês na escola”. “Terei 17 anos e só quero voltar aos Jogos Paralímpicos e chegar à final”, frisou.