Pep Guardiola não é propriamente um treinador que tenha medo de dizer o que pensa. Elogia jogadores quando tem de elogiar, critica jogadores quando tem de criticar e até quando tem mensagens para os adeptos não tem qualquer problema em deixá-las bem claras. E esta quarta-feira, depois de o Manchester City derrotar o RB Leipzig na primeira jornada da fase de grupos da Liga dos Campeões, foi exatamente isso que aconteceu.

“Gostava de que viessem mais pessoas no jogo de sábado. Vamos precisar dos adeptos no sábado, por favor, porque vamos estar cansados. Convido todos os nossos adeptos a aparecerem no próximo sábado, às três da tarde, para verem o jogo”, disse o treinador espanhol depois do confronto com os alemães, referindo-se ao encontro com o Southampton a contar para a Premier League. A história, porém, tem uma cronologia anterior.

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Inaugurado em 2003 para substituir o antigo Maine Road, o Etihad Stadium tem pouco menos de 54 mil lugares e foi construído para receber o maior número possível de adeptos todos os fins de semana. Ora, o problema do Manchester City, e principalmente o problema do City Football Group, a empresa que é dona do clube inglês, é que o Etihad nunca está cheio. É muito raro ver os citizens atuarem com lotação esgotada, mesmo antes da pandemia de Covid-19, e a verdade é que o flagelo é tão gritante que até originou uma piada entre os rivais: em vez de Etihad, chamam “Emptyhad” ao estádio, um trocadilho com a palavra empty, “vazio” em português.

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A escassez de adeptos no estádio do Manchester City agrava-se principalmente em jogos da Liga dos Campeões, como foi o caso desde encontro com o RB Leipzig. Os adeptos dos citizens não têm uma afinidade particular com a competição e até é comum ouvir assobios quando o mítico hino da Champions toca antes do apito inicial. Em 2018, pouco mais de 40 mil pessoas assistiram ao jogo entre o City e o Lyon; dois anos antes, pouco mais de 30 mil havia assistido à receção ao Borussia Mönchengladbach; esta quarta-feira, só 38 mil pessoas viram ao vivo o confronto com os alemães, onde joga André Silva. Ou seja, num jogo da Liga dos Campeões onde um dos grandes candidatos à vitória final e finalista na época passada marcou presença, cerca de 16 mil lugares estiveram vazios.

Olhando assim para os factos, a verdade é que parece Pep Guardiola tem razão ao pedir a presença dos adeptos contra o Southampton. Mas essa não é a opinião da larga maioria dos apoiantes — incluindo Kevin Parker, o secretário-geral da associação de adeptos do Manchester City. “Fiquei surpreendido. Não percebo o que é que isto tem a ver com ele. Ele não entende as dificuldades que algumas pessoas podem ter para ir ver um jogo no Etihad numa quarta-feira às 20h. Têm de pensar nos filhos, podem não ter dinheiro, ainda existem questões relacionadas com a Covid… Não percebo porque é que ele faz comentários sobre o assunto”, explicou, em declarações ao The Guardian.

“Ele é claramente o melhor treinador do mundo mas, e da forma mais educada possível, acho que talvez tenha de se limitar a isso. Acaba por tirar o entusiasmo daquilo que foi uma boa noite. As pessoas estão a falar mais sobre os comentários dele do que sobre um jogo fantástico. Questionar o apoio dos adeptos, que acaba por ser aquilo que ele está a fazer, é uma desilusão e é inoportuno. E também ajuda os adeptos dos outros clubes que aproveitam todas as oportunidades para falar do City e daquilo que dizem ser fracas assistências. As pessoas referem-se ao Etihad como o ‘Emptyhad’. É uma brincadeira por parte dos rivais mas não tem justificação, as nossas assistências são normalmente excelentes”, acrescentou Kevin Parker.

Por fim, o representante dos adeptos do Manchester City ainda se mostrou confuso com o facto de Guardiola achar que o estádio não estará cheio no próximo sábado. “Claro que ele quer casa cheia mas eu nem entendo como é que ele pode questionar se o estádio vai ou não estar cheio contra o Southampton no sábado. É um cenário diferente. Já jogámos duas vezes em casa ao sábado esta temporada e o estádio esteve cheio nas duas ocasiões. Acho que ninguém, em lado nenhum dentro do clube, deveria estar a questionar a lealdade dos adeptos. É frustrante”, terminou.