A organização ambientalista Greenpeace alertou esta sexta-feira, a propósito da cimeira do clima (COP26) em Glasgow, para a necessidade de países e empresas evitarem a propaganda ambiental, que denomina “Greenwash” (Lavagem Verde), que mascara ações danosas para o ambiente.

A 26.ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP26) foi descrita como “a última melhor oportunidade do mundo” para evitar que o aquecimento global atinja níveis perigosos, e espera-se que se assista a uma vaga de novos compromissos dos governos e empresas para reduzir as suas emissões de gases com efeito de estufa, mas a organização ambientalista afirma que a pressão nos bastidores antes da cimeira poderá dificultar os esforços para alcançar um acordo ambicioso, que garanta ao mundo uma hipótese de limitar o aquecimento global a 1,5 graus celsius (ºC) conforme foi acordado em Paris em 2015.

COP26. Fuga de informação mostra como governos tentam influenciar o relatório sobre as alterações climáticas

“Esta reunião de Glasgow é realmente um momento vital, em que os governos precisam ser corajosos, precisam mostrar que compreenderam a ciência, ouvir o seu povo e ir muito mais longe do que têm vindo a afirmar até agora”, disse a diretora-executiva internacional da Greenpeace, Jennifer Morgan citada por agências internacionais.

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Ao fazê-lo, os governos “dariam esperança e confiança de que estão dispostos a fazer coisas que os interesses corporativos não querem que eles façam”, acrescentou Jennifer Morgan.

A diretora-executiva da Greenpeace disse que grande parte dos grupos de pressão é organizada por empresas, algumas das quais também estarão presentes nas conversações da COP26, incluídas nas delegações governamentais.

“Vão tentar usar esta COP para mostrar que se preocupam, que estão realmente a fazer muito. Haverá um grande esforço de ‘lavagem verde’ em Glasgow que precisa ser exposto e reconhecido”, acrescentou a responsável da Greenpeace.

Jennifer Morgan referiu ainda ser provável que também os governos utilizem as conversações da ONU para anunciar novas medidas climáticas, mesmo quando fazem lóbi contra outras.

“Se olharmos para o que eles estão a fazer para tentar impedir o mundo de avançar, é espantoso. É imoral, é inaceitável”, sublinhou.

A Greenpeace e outras organizações ambientalistas têm criticado uma vaga de anúncios por parte de países e grupos industriais, desde companhias aéreas a empresas de navegação, sobre “emissões líquidas zero”. Em vez de reduzir de facto as emissões de gases com efeito de estufa a zero, aqueles que prometem “zero” como valor líquido de emissões, o que prometem é libertar para a atmosfera a quantidade de dióxido de carbono ou outros poluentes que consideram poder ser reabsorvida até uma determinada data.

A matemática em torno do chamado “net zero” não é clara e os ativistas acentuam que, se não for cientificamente rigoroso, o objetivo corre o risco de diminuir o esforço real de reduzir as emissões tão rapidamente quanto possível.

“(Algumas empresas) querem continuar o que estão a fazer, mas querem pagar apenas para plantar árvores noutro sítio qualquer. Esta não é a solução para a crise da natureza e da biodiversidade”, denunciou a diretora-executiva internacional da Greenpeace.

Jennifer Morgan mencionou documentos obtidos pela Greenpeace que mostram como países como a Austrália, Brasil e Arábia Saudita queriam que o Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) — organismo independente sob a égide da ONU que recolhe dados científicos sobre as alterações climáticas — eliminasse as referências à necessidade de encerrar centrais elétricas alimentadas a carvão, reduzir o consumo de carne e concentrar-se nos cortes efetivos de emissões.

Um porta-voz do secretariado do IPCC em Genebra minimizou o impacto que tais esforços de “lobbying” têm nos relatórios finais do painel.

“A revisão pelos governos e peritos é uma parte fundamental do processo do IPCC para a preparação de relatórios”, disse o porta-voz Jonathan Lynn, segundo o qual “os princípios do IPCC são concebidos para assegurar que esta revisão contribua para uma avaliação abrangente, equilibrada e objetiva, de uma forma aberta e transparente”.

A diretora-executiva da Greenpeace citou um relatório recente da Agência Internacional de Energia que concluiu que não pode haver mais novas minas de carvão ou poços de petróleo e gás para ser alcançado o objetivo do Acordo de Paris sobre limitação do aquecimento global.

No entanto, na semana passada, um estudo separado, apoiado pela ONU, concluiu que mesmo os atuais planos de produção de combustíveis fósseis para a próxima década resultariam em mais do dobro das emissões permitidas para que o mundo mantivesse uma hipótese de atingir os objetivos de Paris.

Morgan afirmou que as conversações em Glasgow estavam a ser postas no centro das atenções e que os esforços de algumas partes no sentido de bloquear acordos sobre questões sensíveis podem encorajar os países que desejam um acordo ambicioso.

“Eles têm de estar prontos para avançar, ir além das suas zonas de conforto e juntar-se, porque se pode ver o nível de oposição”, concluiu Jennifer Morgan.