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O ponto de partida para criar uma nova marca de dermocosmética foi, literalmente, sentir a necessidade na própria pele. Elisabete Ramalho conta que tem uma pele sensível e reativa e isso não lhe permitia colocar nenhum produto sobre a pele, sem que esta reagisse. Diz o ditado que a necessidade aguça o engenho e assim foi. Esta licenciada em Gestão e Administração Pública, com mais de uma década de experiência em gestão de programas no Ministério da Educação decidiu pôr a saúde em primeiro lugar e dar rédea solta à curiosidade de saber como eram formulados e o que continham os cosméticos. Fez um curso na Formula Botanica, uma instituição de ensino online, que lhe deu uma certificação em formação de cosmética e tornou-se membro da Society of Cosmetic Scientists (SCS), no Reino Unido. “No estudo começamos pela pele, os vários tipos de pele, depois as problemáticas que podem surgir e depois chegamos a uma parte de química e todo o tipo de ingredientes. É todo um mundo e demora muito tempo. Eu quando formulo só faço isso e, normalmente, estou em silêncio. Mas para mim é a parte mais interessante”.

Conta-nos que pelo caminho se apercebeu que não era a única pessoa a viver com o problema da pele sensível. “Isso levou-me a criar um produto de forma a não ser só para mim, mas também para ajudar outras pessoas que, tal como eu, também não têm facilidade em encontrar produtos que consigam utilizar”. Segue-se então nesta experiência a criação de uma marca e assim começou a ser projetada a Kivens. Oficialmente, a empresa nasceu em outubro de 2020, contudo este projeto começou a ser pensado há, pelo menos, cinco anos, conta Elisabete Ramalho, e acaba de receber um prémio nos Pure Beauty Awards, uma celebração e distinção na indústria da beleza que aconteceu no passado dia 28 de outubro.  As marcas submetem os seus mais recentes produtos e, depois de uma equipa testar e analisar, são selecionados os melhores do ano. O creme hidratante para rosto, pescoço e decote da Kivens ganhou o Silver Award para Best New Natural Face Product, um honroso segundo lugar na categoria. “Fomos finalistas, e eu já estava super contente, porque estes são os prémios da indústria no Reino Unido, e estávamos a competir com marcas com muitos anos de experiência”. Elisabete Ramalho acredita que esta distinção pode ajudar a dar credibilidade à marca, uma vez que os seus produtos são novos no mercado e precisam ganhar a confiança do público.

Hoje apresenta a Kivens como “uma marca jovem que disponibiliza no mercado produtos dermocosméticos, formulados especificamente para peles sensíveis, mas também tendo em conta os cuidados de beleza. Quando temos a pele sensível não queremos usar produtos que nos vão irritar ou, potencialmente, provocar uma reação da pele e esquecemos um bocadinho os outros cuidados dos quais também queremos ir atrás como o anti-aging ou melhorar a firmeza. E isso foi uma das preocupações da marca, criar produtos que não pensam só em cuidar da saúde da pele, mas que também pensam em proporcionar benefícios adicionais”. Elisabete Ramalho é a fundadora e CEO da Kivens e conta que desde o início que trabalha com Sandra Santos, atualmente a diretora técnica da marca. Trabalham as duas a tempo inteiro e depois há uma equipa que trata do marketing para a comunicação da empresa.

Com uma pele sensível e reativa, Elisabete Ramalho acabou por apostar na criação da sua marca própria de dermocosmética © Daniela Sousa Photography

Um projeto destes implica um certo investimento, uma vez que durante muito tempo são necessários testes e experiências que exigem ingredientes e que por vezes, simplesmente, não resultam. A fase de preparação pode demorar anos até o primeiro produto ser posto no mercado e começar a haver retorno. Por isso a Kivens só foi lançada quando já havia um produto para venda e, embora já tivesse as fórmulas dos produtos prontas em março de 2020, estes só chegaram ao mercado em  fevereiro de 2021. “Abri quando já tinha um produto pronto para ser vendido. Para trás há todo um trabalho de anos. Não se chega a este ponto em pouco tempo, há um processo muito moroso para trás.” Para abrir uma marca de dermocosmética em Portugal é preciso, segundo Elisabete Ramalho, “motivação, resiliência, todo o conhecimento da química, ter a consciência de quão dinâmica a indústria é e ter muito foco no que nos levou a fazer isto, porque voltamos sempre aí”. Ao contrário de outro tipo de empresas, neste caso impõem-se responsabilidades acrescidas pelo Infarmed, a entidade reguladora deste mercado. Por agora, a maioria dos clientes são nacionais, mas a fundadora da marca diz que começaram a atrair alguma atenção nos Estados Unidos e, portanto, já estão em conversações com um possível distribuidor.

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Atualmente, a marca tem uma espuma de limpeza facial e um creme hidratante para rosto, pescoço e decote que podem ser comprados no site oficial, numa farmácia em Lisboa e, brevemente, também no Porto. Dois produtos podem parecer uma gama curta em opções, mas há que ter em conta que ambos são criados de raiz numa espécie de receita feita à medida pela fundadora, o que exige as respetivas experiências e também testes. A verdade é que um produto pode levar anos a ser criado,  “normalmente, um creme hidratante mais específico, que queremos que tenha uma eficácia em vários domínios, com uma fórmula mais complexa, demora provavelmente dois ou três anos, facilmente. Uma coisa mais simples, será mais rápida. Talvez um óleo para a pele seja mais fácil de criar.” Neste momento a Kivens já está a trabalhar em dois novos produtos, um sérum e uma máscara.

Começou pé ante pé, depois de vários anos de preparação, mas neste momento a Kivens já está a trabalhar em dois novos produtos, um sérum e uma máscara © Daniela Sousa Photography

Um novo produto começa por ser trabalhado em papel e só depois se seguem as experiências no laboratório. Depois há muitos testes e, alguns deles, são momentos críticos, como o upscale e o challenge test. Quanto ao primeiro, “em laboratório faz-se tudo em small scale (pequena escala), mas depois vamos adaptar a fórmula a quantidades superiores, que vão passar por outro tipo de máquinas. Esse também é um trabalho que envolve algum cuidado para que o resultado final seja o mesmo que temos à nossa frente nas amostras”. Quanto ao segundo, é o teste microbiológico, ou seja, “a fórmula é testada em porções exageradas com bichinhos (vírus e bactérias) e medimos como se consegue defender ou não daquilo que a está a atacar. Porque durante o período em que o produto está no mercado ele tem de ser capaz de não se estragar”. Alguns destes testes obrigam a regressar ao início e repensar a fórmula que foi o ponto de partida de todo o processo.

Depois de criadas e testadas as fórmulas há que pensar na produção. O primeiro laboratório que a fundadora da Kivens abordou foi na Suíça, mas a experiência não correu bem e a primeira amostra não seguiu o protocolo indicado. O segundo laboratório foi em França, mas as amostras também não corresponderam às expectativas. “Depois comecei a olhar para o mercado nacional e em Portugal tivemos a sorte de encontrar um laboratório espetacular, que realmente seguiu o protocolo e o produto saiu tal e qual como tínhamos projetado”.

Para a fundadora o mais importante dos produtos é a escolha consciente dos ingredientes e o facto de serem de elevada qualidade. No seu caso, conta com moléculas desenvolvidas e feitas na Alemanha e alerta para a preocupação com o meio ambiente e com a pele, que a levou, desde o início, a escolher ingredientes que tinham origem natural e com efluente de biodegradabilidade também — acrescente-se que houve o cuidado de não introduzir na formulação elementos como o álcool, o perfume, os sulfatos, ou os corantes, potenciais irritantes da pele. “Quis criar uma imagem clean e sem muito ruído à volta, precisamente para mostrar que para nós o importante é o que está dentro da embalagem. Por esta ser uma fórmula protegida, tive também a dificuldade de encontrar a embalagem adequada. Acabámos por encontrar uma embalagem que usa a tecnologia em que o produto é feito em vácuo no laboratório e depois é acondicionado na embalagem final que também está em vácuo. Estas embalagens também são alemãs. Em Portugal não há”.

Elisabete Ramalho lembra que toda a parte final do processo se desenrolou durante o período de pandemia e respetivos confinamentos, o que trouxe novos desafios, “primeiro foi a produção que começou no fim de 2020, e depois os produtos saíram para o mercado em fevereiro, em ambas as vezes estávamos em confinamento. No final do ano, estava toda a Europa em confinamento, assim como a localidade na Alemanha onde fica a fábrica das embalagens, portanto eles não tinham os stocks.” Mas volvido um ano do início da marca, faz um balanço positivo.