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Sandra Felgueiras, que nos últimos anos coordenou e apresentou o programa Sexta às 9, está de saída do canal público de televisão. Segundo uma nota divulgada pela RTP, a jornalista deixa as funções no final desta semana. A estação pública diz ainda que “está a trabalhar num renovado formato” do programa.

Contactada, Sandra Felgueiras recusou-se a prestar declarações. Contudo, ao que o Observador apurou, o programa Sexta às 9 ia continuar a ser emitido até meio de dezembro, tendo a direção da RTP comunicado esta semana que não iam ser emitidos mais episódios.

Inicialmente, não estava previsto emitir-se o programa desta semana. Mas como um dos temas abordados será a Liberdade de Imprensa, a direção de informação, liderada por António José Teixeira, recuou e autorizou a transmissão deste último episódio.

Na mesma nota, o canal diz que “o jornalismo de investigação livre e independente faz parte da história da RTP há décadas e assim continuará”. Além disso, adianta: “O escrutínio dos poderes e do que possa atentar contra a lei e o interesse público continua a ser uma prioridade da Informação da RTP”.

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A Direção de Informação do órgão de comunicação social, afirma também que “agradece o trabalho e dedicação que a jornalista Sandra Felgueiras revelou ao longo do seu trajeto de mais de duas décadas na RTP”. Sandra Felgueiras estava à frente do Sexta às 9, um programa no qual foram revelados vários casos de corrupção, desde 2012.

Equipa do Sexta às 9 critica “desinvestimento” no programa e sai em defesa de Sandra Felgueiras

Um dia após a RTP ter divulgado a nota, a equipa de jornalistas que compõe o programa Sexta às 9 decidiu dar conta da sua “profunda indignação” com que foi confrontada após a direção da informação do canal público ter anunciado que o último programa iria para o ar na próxima sexta-feira.

“É com profunda humilhação que vemos tudo isto acontecer, depois de meses de silêncio em relação à falta de recursos do programa”, denunciam os cinco jornalistas, que indicam que estão “em curso várias investigações relevantes”. É “absolutamente incompreensível que a Direção de Informação anuncie que está a trabalhar num ‘renovado formato’ do Sexta às 9 – sem nunca nos ter ouvido – e quando sabe que o programa é o único espaço de investigação, assim designado e com periodicidade semanal, da RTP”, sinalizam em nota interna a que o Observador teve acesso.

De acordo com a equipa que era coordenada por Sandra Felgueiras, a falta de comunicação com os membros da produção do Sexta às 9, a “somar ao anúncio público feito à nossa revelia, de que este seria o último programa com a Sandra Felgueiras”, “traduz-se numa humilhação pública”, explicando que deveria de ter havido uma reunião com o diretor adjunto de informação, Carlos Daniel, algo que “nunca chegou a acontecer”.

“Parece-nos evidente o abandono e o profundo alheamento ao trabalho desta equipa por parte da Direção de Informação. Não é de hoje, nem de ontem, a evidente falta de recursos a que nós – e o nosso trabalho – temos estado sujeitos”, destaca a equipa, que revela que desde 2019 até agora a “situação só piorou e tornou-se ainda mais insustentável com a saída do único sénior que acompanhava a Sandra Felgueiras há 7 anos, Luís Miguel Loureiro”.

Para os jornalistas, é evidente o “desinvestimento”, para mais num “programa com elevado reconhecimento público”. Os profissionais da RTP também questionam em que estado ficam às investigações em curso de “matérias tão sensíveis”, como “a atribuição de licenças para exploração mineira, fraudes no setor alimentar e na retirada de afegãos para Portugal, ou em casos de possível corrupção no setor energético”.

“Se o programa “Sexta às 9” ainda existe e continuou a existir nos últimos anos, foi apenas graças ao trabalho da sua equipa e coordenadora, Sandra Felgueiras”, afirmam os jornalistas.

Na semana passada, a Nova Gente disse que a jornalista de 43 anos tinha um acordo com a Cofina e que ia passar a integrar os quadros da CMTV e, ao mesmo tempo, acumular o cargo de diretora da Sábado, uma revista do mesmo grupo. No fim de semana, o jornal Nascer do Sol avançou a mesma notícia.

Notícia atualizada às 21h07 de dia 24 de novembro de 2021