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A Ordem dos Farmacêuticos enviou uma carta à ministra da Saúde para pressionar o “Governo ainda em funções” para a contratação de mais profissionais e no reconhecimento da especialidade concluída por estes profissionais. Na missiva, assinada pela bastonária, e a que o Observador teve acesso, os Farmacêuticos dizem-se “prejudicados e indignados” e recusam aceitar “ser tratados como lixo”. Em declarações à Rádio Observador, Ana Paula Martins deixa o alerta: “Começámos a ver médicos a assinarem termos de responsabilidade, começámos a ver os enfermeiros a fazê-lo e, a muito breve trecho, se isto não se resolve, acho que também os farmacêuticos acabarão por tomar esta via” porque, sublinha, “a responsabilidade é muito grande”.

A carta foi enviada a Marta Temido esta segunda-feira. No documento, a Ordem dos Farmacêuticos diz que, “num momento em que devemos tudo fazer para manter os profissionais de saúde no SNS, sacrificamos anos de trabalho, esforço, custos individuais, em nome de uma burocracia sem fim. Temos sido pacientes. Há 20 anos que andamos a fazer este caminho. Gerações de farmacêuticos foram sacrificadas”, escreve a representante daqueles profissionais de saúde, lembrando “a esperança de uma residência que teima em não se concretizar”.

[Ouça aqui as declarações de Ana Paula Martins, a Bastonária da Ordem dos Farmacêuticos]

Ordem dos Farmacêuticos: “Não aceitamos mais ser tratados como lixo”

Cerca de 200 profissionais. É esse o número a que a Ordem aponta como estando em falta no Serviço Nacional de Saúde. Um número que, à partida, não parece revelar-se significativo — quando comparado com os de outras classes de profissionais no setor da saúde, mas que pode vir a comprometer a segurança na preparação e distribuição de fármacos em meio hospitalar. “O sistema está montado de modo pa garantir segurança” desses processos, diz Ana Paula Martins. “Mas”, avisa em declarações à Rádio Observador, “isto tem um limite”.

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“Caves velhas onde se gerem milhões em medicamentos”

Além da necessidade de recursos humanos, há questões administrativas para que a Ordem chama a atenção. Quatro anos depois de a carreira dos farmacêuticos ter sido decretada, continuam por reconhecer as especialidades já concluídas nos últimos por estes profissionais. Na carta, Ana Paula Martins frisa que os profissionais ainda aguardam “alterações legislativas” para resolver aquilo que consideram ser uma “embrulhada” que “atira para fora do SNS mais de uma centena e meia de farmacêuticos”.

“O nosso tempo esvai-se. Estamos a ficar apenas com o direito à indignação. Precisamos com urgência de que o Governo ainda em funções faça o que tem que ser feito e que, aliás, foi prometido de forma veemente a 17 de junho, há quase seis meses, na sede da Ordem dos Farmacêuticos”, apela a bastonária, recordando ainda que os “indicadores financeiros e assistenciais falam por si”.

Depois, as condições de trabalho. Ana Paula Martins alude, na carta que enviou a Marta Temido, para as “caves dos hospitais” em que os farmacêuticos estão, em muitos casos, instalados. “Não vamos continuar a ser os inquilinos das caves dos hospitais, porque o que fazemos é fundamental para garantir a sustentabilidade do SNS”, escreve a representante dos farmacêuticos. À Rádio Observador, a bastonária concretiza esta imagem, quando se refere a “caves velhas, com humidade, com todo o tipo de problemas, em condições muito más e onde se gerem milhões, milhões e milhões de euros em medicamentos”.

Por estas razões, a missiva conclui: “Estamos a ser prejudicados, estamos indignados e não mais aceitaremos ser tratados como lixo.”

Ordem dos Farmacêuticos: “Não aceitamos mais ser tratados como lixo”