As perdas colossais dos tanques russos em solo ucraniano são (em parte) culpa de uma lição que a Rússia não quis reter logo após a Guerra do Golfo. Desde o início da guerra na Ucrânia, são várias as fotografias e vídeos que mostram estas viaturas militares destruídas e abandonadas em ruas praticamente desertas do país de Zelensky de que a resistência soube tirar proveito.
Conseguir números precisos do que acontece no terreno é complicado e os valores que existem são meras estimativas. A 25 de abril, o secretário de Defesa britânico, Ben Wallace, indicou que a Rússia já terá perdido até 580 tanques.
Por seu turno, a 28 de abril, o site de monitorização de inteligência de código aberto Oryx revelou que pelo menos 300 tanques russos foram destruídos, com mais 279 danificados, abandonados ou capturados — esta página só conta casos que tenham evidências visuais.
O tom subiu de nível quando Mark Cancian, consultor sénior do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais em Washington (EUA), afirmou ao The Times que as forças de Moscovo podem já ter perdido dois anos de produção de tanques. Perdas significativas quando, do lado das trincheiras russas, tudo terá começado com 2.7000 tanques, segundo o ABC, que cita dados do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS, na sigla original).
Mas, afinal, como se justificam estes números? Uma das principais razões é uma falha de design na armadura, conhecido por “efeito salto-do-palhaço” (tradução livre de jack-in-the-box, brinquedo em que a figura de um palhaço salta de surpresa após se abrir a tampa da caixa onde está “escondido”).
É a forma como as munições dos tanques são armazenadas, informa a CNN, que estão na raiz do problema: estes veículos russos transportam vários projéteis dentro das torres de artilharia — o stock vai até 40 munições. Isto torna-os altamente vulneráveis, pois qualquer golpe indireto pode provocar um efeito dominó que faz explodir toda a reserva — e o tanque fica inoperacional.
A onda de choque resultante pode ser suficiente para explodir a torre do tanque tão alto quanto um prédio de dois andares. “Qualquer ataque bem-sucedido atinge rapidamente as munições, causando uma explosão enorme, e a torre voa literalmente“, vincou Sam Bendett, conselheiro do Programa de Estudos Russos no Centro de Análises Navais (CNA) e membro sénior adjunto do Centro para uma Nova Segurança Americana, ao canal de televisão norte-americano.
▲ Tanques russos com a torre estoirada. Fazem parte das perdas materiais de Moscovo em território russo
SOPA Images/LightRocket via Gett
E já que um veículo não se move sozinho, a tripulação do tanque, geralmente constituída por dois homens na torre e um terceiro ao volante, acaba por ser um alvo fácil, salientou Nicholas Drummond, analista da indústria de defesa especializado em guerra terrestre e ex-oficial do exército britânico. “Se não saíres no primeiro segundo, estás queimado”, reforçou.
Para o especialista em armamento, um bom exemplo é o veículo de combate de infantaria BMD-4 — normalmente comandado por até três tripulantes e capaz de transportar outros cinco militares — um “caixão móvel”, que é “simplesmente obliterado” quando atingido por um míssil.
Estas problemáticas não são novas e as forças armadas ocidentais souberam aprimorar a sua artilharia com a história, a Rússia não. Durante as guerras do Golfo contra o Iraque, em 1991 e 2003, um grande número de tanques T-72 de fabrico russo do exército iraquiano viram as torres a explodir do topo dos tanques em ataques com mísseis.
Quando a série T-90 — sucessora do T-72 — entrou ao serviço em 1992, a sua blindagem foi atualizada, contudo o sistema de carregamento automático de munições não sofreu grandes alterações comparativamente ao antecessor. O T-80, outro tanque russo em ação na invasão da Ucrânia, possui um sistema de carregamento semelhante.
Os militares ocidentais, aí, aprenderam “que é preciso compartimentar as munições”, explicou Drummond, exemplificando com os veículos de combate de infantaria Stryker do exército norte-americano, desenvolvidos após a primeira guerra no Iraque.
▲ O veículo de combate de infantaria Stryker do exército norte-americano
Getty Images
Eles têm uma torre em cima do tanque, e essa torre não entra no compartimento da tripulação. Fica simplesmente em cima e todas as munições estão dentro dessa torre”, disse, detalhando que: “Então, se a torre for atingida e explodir, a tripulação ainda estará segura em baixo. É um desenho muito inteligente”.
Se há vantagens no design adotado pelos russos? Poupar espaço e dar aos tanques um perfil mais baixo, tornando-os mais difíceis de serem atingidos em batalha, apontou Bendett.
Perdas materiais à parte, tal como já mencionado, há pessoas dentro dos tanques, logo automaticamente há vítimas (algumas mortais). Quando Ben Wallace falou à Câmara dos Comuns, mencionou igualmente as baixas de 15 mil militares russos. Quantos deles seriam tripulantes de tanques é uma incógnita, porém uma coisa é certa: o treino de uma tripulação de tanques pode levar no mínimo vários meses, mesmo 12 meses pode ser considerado rápido, declarou Aleksi Roinila, ex-tripulante de tanques das Forças de Defesa finlandesas, à CNN.