A onda de calor e seca que estão a afetar várias zonas do mundo não pouparam Monterrey. A cidade industrial do México, na fronteira com os Estados Unidos da América, começou a limitar os acessos à água por apenas seis horas, fruto de medidas das autoridades, para contornar a pior seca dos últimos 30 anos. Com temperaturas que chegam aos 40ºgraus, corre o risco de ficar definitivamente sem água a qualquer momento.

O Estado de Nuevo León, onde se insere Monterrey, entrou em estado de emergência devido à “seca extrema” em fevereiro e a região apresenta quantidades de chuva abaixo do que seria esperado desde 2015, revela Juan Ignacio Barragán, o diretor-geral de Serviços de Água e Drenagem de Monterrey, à agência de notícias Reuters.

Deste modo, o governo só permitirá o uso de água entre as 4h e as 10h diariamente sendo que políticas anteriores restringiam a água durante um dia por semana, com base na localização. De acordo com dados oficiais publicados no jornal local, o Diário de Monterrey, as barragens El Cuchillo, Cerro Prieto e La Boca registam atualmente um armazenamento historicamente muito baixo em 45%, 2% e 8%, respetivamente. Juan Ignácio Barragan já avisou que a água armazenada destes reservatórios era suficiente apenas para mais alguns dias de abastecimento.

A esperança não vem do Lago Mead. As várias fotografias que a NASA divulgou no dia 22 de julho, no Twitter, deste reservatório dos EUA, “um dos mais importantes do país, que fornece água a milhões de pessoas de sete estados, terras tribais e norte do México”, não são animadoras.

O segundo grupo de imagens da NASA representa mesmo as diferenças dos níveis de água no reservatório de Cerro Prieto, perto de Guadalupe (estado de Nuevo Léeon, no norte), entre os anos de 2015 e 2022.

“Monterrey, a capital do Estado de Nuevo León e a segunda maior área metropolitana do México que abrange 5,3 milhões de pessoas, depende do reservatório Cerro Prieto para parte do seu abastecimento de água” além de que o “esgotamento do reservatório prejudicou a indústria, a agricultura e o turismo. Na segunda semana de julho de 2022, quando as temperaturas subiram para 40°C em Nuevo León, os níveis de água caíram tanto em Cerro Prieto que a água não pôde mais ser extraída do lago”, indica a agência espacial.

A crise climática da cidade começa a deixar bem claro sinais de alerta para as outras regiões do país. O investigador do Instituto de Tecnologia de Monterrey, José Antonio Ordóñez, estima que a Cidade do México tem apenas reservas de água para mais dois anos. As condições extremas não são apenas devido à seca, como à falta de planeamento, negligência em obras, especulações imobiliárias e desigualdades na distribuição de água, explica ao jornal espanhol El Confidencial.

“Não posso tomar banho depois das 10 da manhã e, se não tomar banho, já não posso voltar a tomar o resto do dia todo”, explica ao jornal, Daniel, estudante de Produção Audiovisual, que trabalha também remotamente para uma empresa americana.

O jovem de 25 anos, que partilha um pequeno apartamento com o namorado, no centro de Monterrey, que chega aos 40º graus, descreve a sua rotina em casos de emergência. Limpa a cozinha de madrugada, armazena baldes de água para ter alguma para o resto do dia e lava a roupa quando a água está ininterrupta, às vezes, “quando tem sorte”. Apesar disso, tem noção que faz parte do grupo de habitantes com as situações “mais cómodas”.

Em outras partes do Estado há sempre quem esteja pior. As pessoas ficam vários dias sem água e bloquearam as ruas para exigir às autoridades ajudas e um equilíbrio na distribuição deste bem essencial, a todos os habitantes . Até latas e embalagens do lixo são roubadas para conseguirem reservar água.

Por outro lado, no município mais rico da América Latina, em San Pedro Garza García, vários ativistas têm realizados inúmeras denúncias de desigualdade na distribuição da água. Nesta “realidade” os campos de golfe continua a ser irrigados com água potável e grandes cervejarias e engarrafadoras do Estado têm na mesma grandes concessões de recursos.

No jornal El Sol do México, os habitantes contam os seus receios e os planos que colocaram em prática para conseguirem poupar a água que precisam para o seu dia-a-dia. Um morador do bairro da La Herradura, em Monterrey, Astrid Jiménez, confessa que fechou todas as casas de banho da casa e agora toda a família usa apenas uma delas. Começaram a ferver a água em chaleiras pequenas porque adoeciam sempre que tomavam banho com a água fria.

Quando a água é demasiado preciosa para lavar a loiça

“Nós também bebemos água, nós também tomamos banho, não importa a zona ou a localização onde se vive, todos precisam de água para sobreviver”, reforça Astrid, que já se encontra há mais de 20 dias sem acesso a água.

Lavar a loiça tornou-se uma das atividades mais difíceis por sentirem que a água merece um uso muito mais importante. “Agora temos que lavar porque já há pratos sujos suficientes, assim combinámos, às vezes lavamos e às vezes usamos pratos descartáveis”, explicou Astrid, que admite ter que gastar um dinheiro extra para comprar utensílios descartáveis ​​biodegradáveis.

As condições mexicanas começam-se a agravar mais. Segundo a Comissão Nacional de Água do México, Conagua, no final de março a meados de maio, o México sofreu quatro ondas de calor extremo com temperaturas “recorde” em vários regiões. Em comparação, em Soyopa, também no norte do Estado de Sonora, foi registada uma temperatura de 46,2°C, quase três graus a cima do valor máximo anterior de 43,5°C, em 22 de abril de 2012.

Se as piores circunstâncias da declaração apresentada de seca forem cumpridas e sem mudanças radicais na prevenção e planeamentos de emergência, o cenário tende a piorar, receiam os mexicanos ouvidos pelo El Confidencial. Está previsto, que até 2030, as temperaturas aumentem até mais 2,5 graus  e o registo de chuva suba menos de 27%.