A capa do jornal As esta sexta-feira, numa só imagem com muitas fotografias encavalitadas em cima uma das outras, era como que um espelho do que se poderia esperar da Volta a Espanha em bicicleta. Vejamos: ao centro, com maior destaque, Primoz Roglic, corredor da Jumbo que venceu as últimas três edições mas que este ano foi infeliz no Tour (ganho pelo companheiro Jonas Vingegaard); ao lado, ainda na coluna de cima, Jai Hindley, vencedor do Giro, Enric Mas, Remco Evenepoel e Richard Carapaz. Em baixo, um pouco mais pequenos mas também em destaque, elementos de diferentes equipas para todos os gostos: Mikel Landa, Juan Ayuso, Simon Yates, Valverde, Chris Froome, Carlos Rodríguez, Miguel Ángel López.

João Almeida longe da melhor forma e sem expectativas mas quer “dar tudo” na Vuelta

De João Almeida, nada – embora a UAE Team Emirates estivesse representada por Ayuso. Mas todo este desfile de grandes corredores, uns mais em final de carreira, outros ainda nos anos iniciais e outros que se destacam pelo momento que atravessam, mostrava bem a imprevisibilidade esperada para esta Vuelta na parte final de mais um grande ano para o ciclismo mas que a seguir ao Giro deixou de ser assim tão bom para o português, que contraiu Covid-19 na última semana em Itália e ficou com a preparação afetada.

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“Estou cá pela geral. Não me tenho sentido com super pernas mas vou tentar tudo, vou dar o máximo. Não tenho expectativas ou um grande objetivo, como fazer pódio, mas vou dar tudo o que tenho. É a mentalidade que trago. Não tenho sintomas mas estive parado uns bons tempos, por isso a forma não recupera assim tão rápido. Não acho que seja a Covid-19, estou recuperado fisicamente e mentalmente”, comentara o corredor no lançamento da prova, colocando-se de parte das grandes decisões também como forma de baixar expetativas apesar da grande exibição que teve na última etapa da Volta a Burgos.

Um final com chave de ouro: João Almeida vence última etapa de montanha e termina Volta a Burgos no segundo lugar

No plano meramente teórico, e apesar de ser uma edição de 2022 com muita montanha por exemplo logo na primeira semana em Espanha depois dos três dias iniciais feitos nos Países Baixos, a Vuelta pareceu ser sempre a grande volta que melhor se adequava às características de João Almeida. No entanto, e depois da quinta posição na Volta aos EAU, do oitavo lugar na Paris-Nice e do terceiro posto na Volta à Catalunha, o regresso depois da paragem pela Covid-19 ainda demorou, ganhando a prova de estrada dos Campeonatos Nacionais e sendo segundo na Volta a Burgos realizada nos primeiros dias de agosto. Por isso, o português recusava grandes expetativas para este ano mas sabia que este primeiro contrarrelógio por equipas realizado em Utrecht com 23,2 quilómetros não dava margem para grandes perdas de tempo.

Sendo uma competição a três semanas que praticamente não contava com sprinters, tendo em contas as características do percurso, muitos segundos de atraso seriam um perigoso handicap logo a abrir, num dia que já depois da saída da Burgos (primeira equipa na estrada) teve alguma chuva que dificultou a parte do percurso com mais curvas em determinado momento e que colocou a Bike Exchange como referência a nível de tempo com 25.11 depois de ter superado a Groupama por sete segundos, sendo que na estrada estavam ainda a Ineos, a Jumbo (que seria a última a partir por ter o vencedor das últimas três edições, o esloveno Primoz Roglic), a Bora ou a Alpecin. Tudo em aberto mas com a estrada mais seca.

A UAE Emirates terminou na segunda posição parcial a apenas dois segundos da Bike Exchange, chegando com sete dos oito corredores à meta tendo McNulty a passar na frente e João Almeida no grupo. Todavia, as grandes decisões estavam ainda para chegar, com a Ineos a ficar com a liderança da prova com 24.53, com 20 segundos a menos da equipa do português, seguida da Quick-Step que ficou a um segundo da formação britânica. Faltava chegar aquela que seria a grande vencedora do dia, a Jumbo, que ganhou de forma convincente com o tempo de 24.40. Ou seja, Roglic partia já com um bom avanço sobre a concorrência.