Os moradores dos bairros dos Moinhos, Pinheiro da Fonseca e Fontainhas, no Porto, choram por tudo o que perderam nas inundações deste fim de semana e temem que as casas não resistam a novas enxurradas.
Jorge Teixeira, 36 anos, três filhos, de 6, 12 e 17 anos, conta que perdeu tudo nas inundações que as chuvas intensas provocaram este fim de semana de 7 e 8 de janeiro na cidade do Porto.
“Eu perdi tudo, menina. Os meus filhos nem conseguiram ir hoje para a escola, porque perderam os livros nas inundações”, desabafa Jorge Teixeira, com os olhos vermelhos pelo tanto que chorou por estes dias e segurando numa pilha de edredons secos que lhe deram para recomeçar a fazer camas secas para a família.
Jorge, a mulher Vânia Alexandra e os três filhos moram numa casa no Bairro dos Moinhos, na freguesia de Bonfim, nas Fontainhas, uma das zonas mais antigas e típicas do Porto situada na encosta do Rio Douro, junto à Ponte Infante Dom Henrique.
O casal e os filhos viram a casa inundada até 60 centímetros de altura com a chuva intensa que caiu num curto espaço de tempo. Um dos filhos teve de sair pela janela da casa de banho do andar de cima para fugir das águas ferozes que forçaram a entrada na habitação.
Os móveis da sala estavam no exterior a secar ao sol, que veio iluminar esta manhã o céu da cidade. Os tapetes ensopados pingavam presos por arames.
A alguns metros acima do Bairro dos Moinhos, uma conduta de águas pluviais oriundas dos lados do Campo 24 de Agosto rebentou com a força da água e fez saltar calhaus com “toneladas”, descreveu à Lusa Manuel Augusto, familiar de Jorge Teixeira, que andava a ajudar nas limpezas.
“Todos os anos há aqui inundações, mas nunca como este ano”, garantia Manuel Augusto.
Ana Oliveira, que mora no Bairro dos Moinhos há 40 anos, também disse que nunca viu nada igual. A água entrou-lhe em casa pelo teto e pela janela.
“Estava até com medo que os vizinhos tivessem morrido, porque chamava-os e eles não diziam nada”, recorda.
Foram cerca de 20 casas afetadas, porque as enxurradas caíram em cascata, explicou à Lusa o presidente da Junta de Freguesia de Bonfim, João Aguiar, que andava hoje a visitar os moradores afetados pelo mau tempo junto ao Bairro dos Moinhos.
“Estamos a fazer o levantamento dos danos e a ver quais são as necessidades, para trabalhar em rede com a Câmara do Porto, Proteção Civil e Segurança Social”, declarou, reconhecendo que “há danos materiais avultados”.
No número 12 do Bairro Pinheiro da Fonseca, junto ao Passeio das Fontainhas, mora Anabela Dias. Veio imigrada da Alemanha há três anos e já está arrependida de ter vindo, disse.
A água entrou-lhe pela casa adentro, ensopando-lhe o soalho de madeira. Uma parte do teto da cozinha, em contraplacado, caiu com a força da chuva e as infiltrações.
“Está tudo encharcado e húmido”, descreve, desconsolada por ainda não ter tido nenhuma ajuda ou visita das autoridades locais.
À vizinha de baixo, no Passeio das Fontainhas número 318, na casa 10, a habitação quase que ia ficando inabitável
Soraia Morais, 26 anos, mãe de um bebé de cinco meses e de um menino de nove anos, disse à Lusa que, se voltar a cair outra vez a mesma chuva de sábado último, a “casa vai pelo ar”.
“Tenho medo de estar aqui com os meus filhos”, confessa, em estado de ansiedade. Com o temporal de sábado a casa abanou toda, as paredes escorriam água e uma parte do teto cedeu com a precipitação, descreveu, preocupada.
Soraia Morais conta que já pediu ajuda à Câmara do Porto. No âmbito da fiscalização camarária, pode ler-se no documento, a que a Lusa teve acesso, que a casa precisa de obras de conservação necessárias à correção das “más condições de segurança”.
“Constatou-se a existência de infiltrações de águas pluviais através da cobertura do prédio, estando a afetar paredes e teto do interior da habitação, sendo que as infiltrações estão a causar focos de insalubridade pelo efeito de degradação de materiais de revestimento e de outros elementos construtivos, prejudicando o uso para que se destina”.
A chuva intensa que caiu no sábado no Porto foi classifica pelo vice-presidente da Câmara do Porto como uma “tormenta”, pela quantidade de precipitação registada em curto espaço de tempo, provocando várias dezenas de ocorrências, designadamente vias públicas da baixa do Porto cortadas ao trânsito e estações de metro inundadas e interditadas.