Eram cerca de três da manhã (hora local) quando se ouviram barulhos que sugeriam uma explosão na ponte de Kerch, conhecida como ponte da Crimeia, que liga esse território, anexado pela Rússia em 2014, ao país. Era o início de um passa-culpas entre Rússia e Ucrânia que acabaria com informações que apontam para a Ucrânia como responsável pelo ataque, e com a morte de um casal que atravessava nesse momento a ponte de carro, com a filha.

Passaram horas até que fontes não identificadas dos serviços secretos ucranianos começassem a assumir perante alguns órgãos de comunicação internacionais, como a BBC e a AFP, que o ataque teria sido obra da Marinha ucraniana e dos serviços secretos de Kiev. Tudo feito com recurso a drones subaquáticos, que terão sido capazes de atingir parte da estrutura da ponte, no 145º pilar.

Entretanto, e enquanto oficialmente a Ucrânia só atribuía a notícia a uma “provocação” da Rússia, já Moscovo indicava que a responsabilidade seria de Kiev, classificando mesmo o ataque como “um ato terrorista” e abrindo uma investigação nesse âmbito ao incidente na ponte da Crimeia.

Vladimir Putin pediu que as medidas de segurança fossem reforçadas naquela infraestrutura estratégica. “Como este é o segundo ataque terrorista na ponte da Crimeia, aguardo propostas concretas para melhorar a segurança desta importante e estratégica infraestrutura de transporte”, disse durante uma reunião governamental que foi transmitida pela televisão estatal.

“Claro que haverá uma resposta da Rússia. O Ministério da Defesa está a preparar respostas apropriadas.” O Presidente da Rússia voltou a qualificar o episódio como “ataque terrorista do regime de Kiev”.

Do ataque ficaram dois mortos — um casal russo — e uma ferida, a filha adolescente, de 14 anos, com quem seguiam no carro e que foi hospitalizada, mas segundo os serviços de emergência locais não correrá perigo de vida. Segundo as informações que a imprensa russa foi avançando, a família estaria a caminho de umas férias de verão na Crimeia — destino popular entre os russos — e teria escolhido viajar àquela hora para evitar filas de trânsito. Vídeos nas redes sociais e na imprensa local mostram os danos causados na ponte.

Apesar de as autoridades russas terem anunciado poucas horas depois a reabertura da parte ferroviária da ponte e da circulação dos ferries, ao início da tarde o responsável indicado pela Rússia na região, Sergei Aksyonov, pedia às pessoas que ficaram presas na Crimeia para regressarem a casa, na Rússia, através do território ucraniano ocupado e não voltando a atravessar a ponte.

À medida que o dia avançava, foram várias as pistas dadas pelo lado de Kiev em jeito de reivindicação do ataque. O assessor de Volodymyr Zelensky, Mykhailo Podolyak, publicou um tweet em que parece estar a referir-se ao ataque à ponte da Crimeia.

No tweet, o conselheiro do Presidente defende que quaisquer “estruturas ilegais” usadas para entregar “instrumentos russos para homicídios em massa” (a ponte é essencial para levar mantimentos e munições aos soldados russos) “têm necessariamente uma curta duração…”.

O autarca de Kharkiv, Ihor Terekhov, concedeu entretanto uma entrevista ao The Guardian em que contrariou as acusações de “terrorismo” da Rússia, recordando que Moscovo bombardeia a população civil da cidade há mais de um ano. “Como é que podem falar de terrorismo depois de lançarem a guerra na Ucrânia? Estão a disparar e a matar a nossa população. Destruíram milhares de edifícios em Kharkiv, deixando 150 mil pessoas sem casa”, argumentou, lembrando ainda as escolas e creches destruídas. “Como se atrevem a falar em terrorismo?”.

O “milagre” de Putin explodiu. Como a Rússia viu arder um dos maiores símbolos da ocupação da Ucrânia

A ponte de 19 quilómetros de comprimento, maior em altura do que a Estátua da Liberdade, é tão importante para a ocupação russa da Ucrânia a nível simbólico como prático. Por isso mesmo, em outubro já tinha sido alvo de uma explosão de grandes dimensões, que nessa altura deixou parte da estrutura em chamas, o que também levou então Putin a acusar a Ucrânia de levar a cabo um “ato terrorista”.

A ponte foi inaugurada em maio de 2018 com pompa e circunstância pelo próprio Presidente russo, que abriu a circulação no tabuleiro para carros conduzindo, ele próprio, um camião. Putin chegou a referir-se à sua construção como “um milagre” ambicionado desde os tempos do czarismo, fazendo deste um dos principais símbolos da ocupação russa — mas na prática também serve para enviar mantimentos e munições aos soldados russos. Depois do ataque de outubro, o Presidente russo chegou a fazer questão de atravessar a ponte, conduzindo um Mercedes, mostrando que estava em boas condições.