Em O Rapaz e a Garça, que deveria ser o último filme de Hayao Miyazaki, mas afinal parece que já não é (pelo menos, de acordo com as declarações do vice-presidente do Studio Ghibli no Festival de Toronto, em setembro — e recorde-se que já por várias vezes o cineasta anunciou a sua reforma e regressou ao cinema), há uma torre abandonada e mágica que leva a um mundo paralelo fantástico, pelicanos belicosos, rãs trepadoras, periquitos matulões e carnívoros que manejam enormes utensílios de cozinha e vivem em monarquia, uma rapariga-marinheira e uma menina que domina o fogo, criaturas minúsculas, fofinhas e etéreas chamadas “warawara”, um pedregulho gigante parado no meio do céu e um misterioso ancião que tutela este estonteante mundo e a sua desvairada população (a banda sonora, excelente, é, como sempre de Joe Hisahishi).

Ou seja, encontramos aqui a imaginação desabrida, o sentido único do maravilhoso, a efervescência emocional e o deslumbramento visual característicos de Hayao Miyazaki. O que não encontramos no filme é a coerência interna, o sentido de história, a capacidade de exposição e a clareza narrativa também próprias do mestre japonês. Ainda mais cheio de notações autobiográficas do que a sua longa-metragem animada anterior (e supostamente, de despedida), e superior a esta, As Asas do Vento, e dedicado ao seu neto, O Rapaz e a Garça é um filme repleto de metáforas, símbolos, mensagens codificadas e personagens que se dobram sobre si próprias. E também desordenado, incoerente e aleatório, onde as componentes cifrada, poética e cinematográfica têm prioridade sobre a organização e a legibilidade do argumento. É como se Miyazaki o tivesse ido inventando à medida que o desenhava.

[Veja o “trailer” de “O Rapaz e a Garça”:]

Este artigo é exclusivo para os nossos assinantes: assine agora e beneficie de leitura ilimitada e outras vantagens. Caso já seja assinante inicie aqui a sua sessão. Se pensa que esta mensagem está em erro, contacte o nosso apoio a cliente.