Depois de dois dias internado, o  rapaz de sete anos que deu entrada nos Hospitais de Coimbra com uma intoxicação alimentar acabou por morrer esta segunda-feira, confirmou à agência Lusa fonte hospitalar. Os sintomas de intoxicação atingiram os restantes três membros da família. Entretanto, o Ministério Público delegou a investigação deste caso na Polícia Judiciária, confirmou ao Observador a PJ de Coimbra.

Qual o estado clínico dos pais e do outro irmão da criança?

A mãe, de 48 anos, está em estado crítico, com “prognóstico clínico muito reservado” nos Cuidados Intensivos do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra. Já o pai, de 44 anos, e um irmão mais velho, de 12 anos, tiveram alta, mas estão sob constante vigilância.

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Sabe-se que, ainda na quinta-feira, os quatros elementos da família manifestaram sintomas como vómitos e fraqueza. Na sexta-feira, mantiveram-se em casa mas, no sábado, dirigiram-se ao Hospital Pediátrico de Coimbra para que o filho mais novo, e o que apresentava um quadro sintomático mais grave, fosse examinado. A criança foi depois internada e o filho mais velho ficou sob observação. Os pais foram transferidos para o Hospital de Coimbra, onde a mãe ficou internada, e para onde foi depois encaminhado também a menino de sete anos, que acabaria por morrer.

O que causou a intoxicação?

Esta é a uma pergunta ainda sem resposta. A Administração Regional de Saúde do Centro, onde se integra a Unidade de Saúde Pública, confirmou a intoxicação dos quatro elementos da família residente em Coimbra (na zona de Celas, na zona norte da cidade) e anunciou uma investigação para apurar as causas da intoxicação.

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No âmbito da investigação epidemiológica, a ARS do Centro adianta que “foram feitas visitas ao domicílio pela Unidade de Saúde Pública, com recolha de amostras alimentares (refeição suspeita e outros produtos consumidos em contexto familiar) e biológicas“, que foram encaminhados para os laboratórios de referência para pesquisa de agentes químicos e biológicos.

Em análise estão, nomeadamente, amostras das almôndegas que a família comeu na noite de quinta-feira, e que terão sido feitas com carne picada comprada pela mãe num supermercado local, adianta a CNN, com base em informações recolhidos junto de um avô das crianças. Foram também recolhidas amostras de água da rede pública e de alguns detergentes.

Intoxicação teve repercussões cardíacas. É normal?

O mesmo familiar explicou àquela estação de televisão que tanto os pais como a criança de sete anos, que acabou por morrer, revelaram alterações cardíacas, identificadas nos eletrocardiogramas e noutros exames feitos no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra. Segundo o relato de Amândio Martins, o avô das crianças, o filho, Rodolfo Martins, é desportista e tais alterações não tinham sido identificadas antes.

Ao Observador, o cardiologista Rui Baptista explica que “é muito raro o coração ser envolvido com base em toxinas alimentares agudas”, ressalvando, no entanto, que o coração pode ser sensível a determinadas toxinas”.

Ora, a carne picada, que a família ingeriu na noite de quinta-feira, é propícia à acumulação de toxinas, principalmente quando não é conservada à temperatura adequada (2 graus celsius positivos no caso da carne refrigerada e 18 graus negativas no caso da carne congelada). No seu site, a ASAE avisa que a “multiplicação dos microrganismos ou a formação de toxinas podem ser inibidas, caso os géneros alimentícios sejam conservados a temperaturas adequadas”.

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“Quando a carne picada não é fresca, podem acumular-se bactérias, que dão origem a toxinas que podem afetar vários órgãos do corpo humano“, realça Rui Baptista, médico do Hospital de Santa Maria da Feira, salientando, no entanto, desconhecer o que está em causa no caso em concreto.

Entre as bactérias que podem causar intoxicações alimentares relacionada com o consumo de carne, lembra o especialista, estão a Clostridium botulinum (que causa botulismo, uma doença que se manifesta através de sintomas como dor abdominal, náuseas e vómitos e que pode levar à morte) e a Clostridium perfringens.

Intoxicação já chegou à comunidade?

Pelo o que se sabe, não foram identificados mais casos. Ao Observador, o presidente da Associação de Médicos de Saúde Pública admite que, neste caso, “a investigação poderá ter-se atrasado porque não houve possibilidade de aceder a uma fonte fidedigna de informação“, uma vez que todos os elementos da família estiveram a receber cuidados hospitalares.

“A partir do momento em que duas das pessoas tiveram alta, terá sido mais fácil entrar em contacto com a família de modo a perceber melhor o que terá acontecido”, diz Gustavo Tato Borges, salientando que “a investigação deve ser o mais curta possível, porque pode ser necessário implementar medidas”.

O papel da equipa de Saúde Pública é, entre outros aspetos, perceber que sintomas as pessoas tiveram, “quando começaram a aparecer, se surgiram todos ao mesmo tempo, de forma a identificar a substância (seja ela alimentar ou não) com que esta família esteve em contacto”. Isto de forma a perceber se foi uma “exposição única, que afetou apenas esta família, ou se há um problema maior de saúde pública para resolver, um pouco à semelhança do que aconteceu com a broa de milho na região Centro”, realça.

Neste caso, e uma vez que existe a suspeita de que a causa da intoxicação seja alimentar, “a cadeia de produção e de origem do produto que poderá estar contaminada tem de ser investigada”, diz o especialista.