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É um bar e está aberto ao público, mas, na verdade, parece mais um clube privado. É um ponto de encontro de pessoas que se juntam ao final do dia para jogar gamão, dados e outros jogos de fortuna e azar. A Casa do Largo fica a poucos metros do Largo da Igreja de Cascais. É o local onde Pedro Caldeira está quase diariamente com a maior parte das pessoas que lhe vão entregar dinheiro com a promessa de negócios e lucros fabulosos. A casa, de estilo vitoriano, à imagem dos pubs britânicos, está hoje de portas fechadas, mas mantém as paredes exteriores cobertas pelas heras frondosas que sempre foram um traço distintivo.

Não era bem o Casino Estoril, mas quase. As pessoas iam para lá jogar a dinheiro. Eu vi lá uma roleta e era aí que ele angariava a clientela.

A voz que ouvimos é de Libânia Bileu, mulher alentejana que trabalhou vários anos como secretária do advogado que vai defender Pedro Caldeira em tribunal. No escritório, Libânia é também uma confidente. É com ela que desabafam várias personagens desta história, incluindo o corretor e o pai dele, Fernando Caldeira. É ela a pessoa de confiança que Pedro Caldeira encarrega, depois de fugir do país, de ir à Casa do Largo entregar as cartas que escreve para cada uma das pessoas a quem ficou a dever dinheiro. Cartas onde Caldeira pede desculpa, diz que foi atraiçoado pelos bancos e jura devolver o que deve, assim que puder.

Mandou aquelas cartas para os clientes, entre eles aquele que o ameaçou de morte.

Na madrugada do dia 23 de julho de 1992, pelas 04:00, o telefone toca em casa de Pedro Caldeira. É a mulher Cristina quem atende. Quando passa o telefone ao marido, do outro lado da linha surge uma voz que o ameaça de morte. Não só a ele, como à mulher e aos dois filhos. Pouco depois, um novo telefonema. A ameaça é reforçada. Caldeira nunca revela à Cristina o que está a acontecer. Diz-lhe apenas que é uma brincadeira de mau gosto. Por esta altura, o corretor já está em grandes dificuldades. Até ali tinha conseguido pagar os elevados juros que prometeu aos clientes ricos que angariou nos últimos meses. Mas a bolsa teimava em não recuperar e, para cumprir o prometido, teve de começar a meter dinheiro do seu próprio bolso. Quando deixou de conseguir pagar, a solução foi recorrer à sociedade corretora para arranjar os fundos. Até ao último momento, Caldeira achava que conseguiria resolver todos os problemas. Como sempre, arranjara um plano e achava que tinha três dias para o executar. Mas as ameaças de morte precipitaram tudo. Este é o "Encantador de Ricos", uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, São José Correia, com banda sonora original de The Legendary Tigerman. Episódio quatro: o dia em que o dinheiro acabou.

Esta é uma história real e é o conhecimento da história que guia a Honda em direção a um futuro melhor. Nesta viagem, os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Honda Automóveis. Vamos continuar este percurso juntos, porque a Honda tem muito para contar, mas também tem muita vontade de ouvir.

23 de julho, quinta-feira. Naquela manhã, Pedro Caldeira chega ao escritório visivelmente nervoso. Depois das ameaças de morte que recebeu durante a noite. Pede a Nandim de Carvalho, acionista e presidente da Assembleia Geral da corretora, para também se dirigir ao escritório com urgência. A situação é delicada e a corretora está em risco. A corretora deve 204 mil contos ao Fundo de Tesouraria Atlântica, conhecido como SIFTA, pela compra de obrigações. Esse valor devia ter sido pago no dia anterior, mas não há dinheiro. Nesta fase, Caldeira já estava a usar a corretora para tentar resolver os problemas pessoais. O maior de todos era com o BCP, que continuava a fazer exigências para lhe dar crédito. Uma delas era a entrega de obrigações para servirem de garantia. Como Pedro Caldeira não tinha dinheiro, pôs a corretora a fazer a compra por ele. Mas agora é a corretora que tem as contas a negativo Quando Nandim de Carvalho chega ao escritório, Caldeira pede-lhe para negociar uma extensão do prazo para o pagamento da dívida à CIFDA. E Nandim consegue mesmo mais três dias para a corretora pagar o que deve. Caldeira já tem tudo pensado para conseguir aqueles 204 mil contos. Primeiro, liga para Madrid para falar com o amigo banqueiro Mário Conde, mas não o consegue apanhar. Depois, fala ao telefone com o Joe Berardo. O empresário madeirense promete ajudá-lo, mas com duas condições: só poderá fazê-lo dali a alguns dias e têm de se encontrar pessoalmente no Funchal. O corretor tem três dias para resolver o problema. Sexta, sábado e domingo. Na cabeça dele, é tempo mais do que suficiente para viajar até Madrid e tentar encontrar-se com Mário Conde. E se isso não resultar, apanhar um avião para o Funchal e garantir a ajuda de Joe Berardo. Mas nas próximas 24 horas as coisas vão descontrolar-se. Cristina pensava que ia passar o fim de semana ao Algarve, onde os Caldeira tinham uma festa. Dali seguiriam para Marbella. O restaurante Meridiana tinha já mesas reservadas para o aniversário dela. Era lá que se iriam encontrar com amigos que até já tinham viagens de avião compradas e quartos de hotel marcados para a festa. Mas naquela tarde de quinta-feira, quando o marido chega a casa vindo da corretora, diz-lhe que os planos mudaram. Cristina está a fazer as malas para viajar no dia seguinte, mas afinal têm de sair naquela noite. E também já não vão para o Algarve. Vão para Madrid. Caldeira diz que tem de ir a Espanha para tentar resolver problemas de negócios, mas não revela nada à mulher sobre as ameaças de morte. Já depois dos telefonemas durante a madrugada, a secretária de Caldeira tinha recebido uma chamada na corretora. "Diga ao Pedro Caldeira que se o apanho, mato-o. Pego-lhe nos filhos pelo pescoço em frente à câmara de televisão." Partem de Cascais ao final do dia com os dois filhos. Fazem a viagem de carro com Caldeira ao volante. Decidem parar perto de Mérida, onde passam a noite num hotel de beira de estrada. Caldeira aproveita para ligar para Lisboa e fica a saber que já correm rumores de que tinha fugido e de que a corretora tinha sido alvo de desfalque. É depois desse telefonema que revela finalmente a Cristina que a família está a ser alvo de ameaças de morte. Chegam a Madrid no dia seguinte. O corretor tenta encontrar-se com o banqueiro Mário Conde para pedir o empréstimo de que tanto necessita, mas não consegue. Resta a segunda opção: deixar a família em Espanha e apanhar um avião para o Funchal para tentar garantir a ajuda de Joe Berardo. Mas quando Caldeira acorda no sábado, os acontecimentos voltam a precipitar-se. Recebe uma chamada do pai e as notícias que chegam de Portugal deixam-no em pânico. É só nesse momento que Caldeira fica a saber que a CIFDA mudou de ideias e recusou adiar o pagamento da dívida. O pai conta-lhe ainda que o jornal Expresso traz uma notícia arrasadora. Pedro Caldeira abre falência e desaparece. Caldeira não para para pensar. Sai do hotel com a família em direção ao aeroporto de Barajas e compra bilhetes no primeiro avião para Miami. A imprensa há de escrever, nos dias seguintes, que o corretor fugiu com milhões. Na verdade, leva 36 contos no bolso. Os rumores de que Pedro Caldeira teria problemas de dinheiro tinham começado a circular semanas antes, e a realidade é que estava com cada vez mais dificuldades para pagar os juros elevados que tinha prometido aos clientes particulares. A corretora era a única salvação. A 23 de junho, Caldeira levanta 60 mil contos da empresa. Deposita o dinheiro numa conta pessoal, mas faz questão de registar a nota de dívida na tesouraria da corretora. Um mês depois, na semana em que sai do país, faz um novo levantamento a 20 de julho. Agora 50 mil contos. Em troca, passa um cheque à corretora para ser debitado dias depois como garantia de pagamento. A 22 de julho, na véspera de viajar para Madrid, deposita no banco 60 mil contos em títulos que pertencem à Fundação Berardo. Caldeira entende que Joe Berardo deve 60 mil contos à corretora e que aquele dinheiro acabaria por ser dele em dividendos. Todos estes valores vão somar-se aos cálculos oficiais que mais tarde vão ser feitos sobre o alegado desfalque de Pedro Caldeira. Entre transferências de títulos e levantamentos, segundo o tribunal que haverá de o julgar, Caldeira descapitalizou a corretora em 374 mil contos. Hoje seriam quase € 4 milhões. Semanas antes da fuga, Caldeira já tinha perdido um dos seus aliados mais importantes, Francisco Capelo. Capelo tinha sido fundamental para pôr ordem na corretora e deu muito dinheiro a ganhar com a lavagem de cupões, através da Fundação Berardo. Agora estava farto. A meio de um casamento, aproximou-se de Leonardo Ferraz de Carvalho, o influente colunista de economia do jornal "O Independente", e disse-lhe: "Demiti-me daquilo, sabe? É impossível gerir naquelas condições". O episódio seria contado por Ferraz de Carvalho numa crônica a que deu o título de "O Ponzi da Gandarinha". Ao ouvir isto, o colunista presumiu que a saída de Capelo tinha a ver com a tensão do trabalho de corretagem, mas havia muito mais problemas e muito piores. Francisco Capelo disse mais tarde não concordar com a forma como a corretora era gerida. Chegou mesmo a acusar publicamente Caldeira de ser o supremo manipulador da imagem e de usar técnicas de sedução, transformação em vítima e criação de bodes expiatórios. E acrescenta: "Estou espantado com a capacidade que Pedro Caldeira tem para criar a imagem de vítima de telenovela. Não ficarei admirado de o ver chegar ao aeroporto da Portela vestido de branco e de corda ao pescoço, qual Egas Moniz, para que o povo português o perdoe". No final, espetava a faca: "Não é possível, nem sério, prometer remunerações ao mês". Havia outra versão para os desentendimentos. Num testemunho em tribunal, Mário Sousa Borges, que seria presidente da comissão liquidatária que tratou da falência da corretora, deu pistas para perceber o que se passou. Lembrou que Capelo tinha mau feitio e que, por isso, eram frequentes as discussões. Afirmou ter sido ele o causador da derrocada da corretora, porque João Berardo havia prometido emprestar a Caldeira 200 mil contos, mas, a conselho de Capelo, acabou por não o fazer. Francisco Capelo, além da corretora, também geria negócios do madeirense. Ao fim de 21 meses intensos, a lucrativa e tempestuosa relação entre Pedro Caldeira e Francisco Capelo tinha chegado ao fim. Na sexta-feira, 23 de julho, enquanto Caldeira está em Madrid à procura da ajuda do amigo Mário Conde, não sabe que, em Lisboa, a corretora já entrou em insolvência. Há pedidos de explicação, demissões e, sobretudo, começam a chegar contas para pagar. A corretora é suspensa, o que obriga a Bolsa de Lisboa a mexer-se rapidamente para evitar o pânico e a debandada dos investidores. Quando se torna claro que Caldeira fugiu, a licença de corretor, que lhe tinha sido atribuída cerca de 10 anos antes, é imediatamente revogada. Nuno Fernandes Tomás, que tinha começado a carreira na corretora, mas saiu a tempo, lembra que mais de 25 trabalhadores são nesta altura apanhados em contrapé.

Obviamente, tinha alguns amigos no Pedro Caldeira Corretora e depois, quando se dá aquele drama, liguei às pessoas que eu conhecia, aos meus amigos, num ato mais de solidariedade, e pensei que tive sorte na altura de ter saído antes de aquilo ter acontecido, porque as pessoas que lá estavam acabaram por sofrer.

Operadores de bolsa, assistentes, todos ficaram desempregados de um momento pro outro.

Houve gente que não recebeu o dinheiro, houve gente que tinha dívidas pra pagar, porque tinha créditos e de repente, de um momento pro outro, ficou sem trabalho. Aquilo, pra algumas pessoas, acabou por ser bastante complicado. Alguns tinham filhos, como é que iriam viver? Eles estavam em choque. Aquilo foi quase como uma bomba.

Na ausência de Caldeira, quem ficou a tomar decisões no escritório foi Nandim de Carvalho. Na versão que contou aos jornais nos dias seguintes, foi totalmente surpreendido. Sem saber o que fazer, liga a Linhares de Andrade, amigo de Caldeira e segundo maior acionista da corretora. Decidem enviar uma carta às autoridades, ao ministro das Finanças, ao governador do Banco de Portugal, à Bolsa de Lisboa e à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários. Pedem três coisas: que o governo nomeie um administrador para a sociedade, que sejam injetados 563 mil contos na corretora e que Pedro Caldeira seja suspenso. No meio da confusão, a secretária de Caldeira vai ter com Nandim de Carvalho e entrega-lhe um dossiê que tinha em posse dela. Escrita à mão, na letra da secretária, está uma lista de várias dezenas de nomes e junto deles, anotações com registros de alguns valores que tinham circulado entre Pedro Caldeira e os seus clientes particulares. Era uma espécie de mapa da mina. A partir daquelas páginas, era possível chegar à atividade paralela de Pedro Caldeira Naquele dossiê há alguns nomes desconhecidos, mas também há vários nomes muito conhecidos. Em breve, o país inteiro saberá quem eles são. Para muita gente que consta daquela lista de clientes particulares, colocar dinheiro na mão de Pedro Caldeira é mais do que um investimento, é um privilégio. Ter o Príncipe da Bolsa a gerir pessoalmente as poupanças é até uma coisa de que as pessoas podem gabar-se. Na lista também há velhos amigos. O Major Teles de Carvalho, por exemplo, tinha sido colega do curso do pai de Caldeira e investia há vários anos na bolsa. Foi ele a ponte para um novo e mediático cliente: o futebolista Carlos Xavier, de quem era sogro. Em junho de 1992, Caldeira telefona ao Major e pede-lhe para falar com ele com urgência. Conta que está a reunir um grupo de investidores para um negócio confidencial que pode dar uma rentabilidade de 13% por três meses. Está em causa a compra de ações de um banco, o BCP, e Caldeira diz já ter investidores americanos e espanhóis interessados em participar. O Major fica tentado e, dias depois, volta a encontrar-se com Caldeira, acompanhado pela filha, economista e funcionária do Banco Totta e Açores, e pelo genro, Carlos Xavier. Numa transferência lucrativa, o jogador português tinha saído há um ano do Sporting para jogar em Espanha, na Real Sociedad. Carlos Xavier entrega 8 mil contos a Caldeira. É muito dinheiro, mas poderia ser só o começo. O jogador deixa no ar a possibilidade de investir ainda mais três meses depois, quando recebesse 24 mil contos do clube espanhol. Em troca do dinheiro entregue a Caldeira, tanto Carlos Xavier como o sogro recebem cheques sem data, embora tenha ficado apalavrado que o investimento seria até setembro de 1992. A notícia da fuga do corretor surge num sábado. Como é fim de semana, não há nada que os dois possam fazer, mas logo que os bancos reabrem, na segunda-feira, não perdem tempo. Sem verem mais saídas, preenchem o espaço em branco nos cheques com a data daquele dia, 26 de julho de 1992. Vão tentar levantá-los, mas já não há dinheiro na conta. Os clientes de Caldeira não são só figuras muito conhecidas do público, como o Carlos Xavier ou o apresentador de televisão Carlos Cruz. É verdade que o passa palavra faz com que, muitas vezes, sejam os clientes a ir ter com ele. Mas, na maioria dos casos, o corretor propõe negócios a quem sabe que, seja uma celebridade ou anônimo, tem dinheiro para investir. Abelardo Teixeira, um dos donos do restaurante Gambrinus, é um deles. Tem muita admiração por Pedro Caldeira e não vai perdê-la quando tudo se desmoronar e o corretor lhe ficar a dever 85 mil contos. Outro é António Casaleiro, também dono de um restaurante, o Visconde da Luz, em Cascais. De acordo com o relato feito pelo Ministério Público, Caldeira telefona-lhe em julho de 1991. Quer saber se Casaleiro está interessado em investir na bolsa através do corretor e ter lucros mensais até 5%. O empresário da restauração pergunta: "Mas como é que consegue rentabilidades tão elevadas de forma segura?" "Até consigo 10. Por isso, dividimos 5% pra cada um", terá respondido Caldeira. No total, o dono do Visconde da Luz entregou ao corretor 49 mil contos, que lhe valeram quase nove mil contos de juros ao longo de um ano. Quando Caldeira desaparece, deixa 33 mil contos por pagar. Rodolfo Lavrador, o advogado que iria defender Pedro Caldeira em tribunal, garante que o corretor nunca teve más intenções.

O Pedro Caldeira nunca enganou os clientes. Os clientes, em determinada altura, começaram a ficar desiludidos com a bolsa que descia mais do que subia. O Pedro não queria que a corretora perdesse o movimento que tinha. Então disse: "Bom, você queria aplicar tanto, pois eu recebo esse dinheiro, compro o papel que acho que devo comprar. Estou a pensar nisto, naquilo. Se, porventura, eu ganhar mais, o lucro é pra mim. Se eu perder, o prejuízo é meu. O seu risco é o risco de eu falir pessoalmente". Naquela altura, ninguém acreditava que o Pedro Caldeira pudesse falir, ele pessoalmente.

Nem o próprio. Para Caldeira, havia sempre uma saída caso tudo o resto falhasse

Ele tinha uma sociedade de corretagem que estava ultrasaudável, porque tinha lucros, tinha movimento e, portanto, estava bem. Ele, Pedro, é que, a pouco e pouco, foi ficando mal, na medida em que, ao estar a jogar por conta dos clientes, quando perdia, era ele que perdia. Eu tenho, para mim, a ideia que no espírito dele estava a convicção: eu tenho uma sociedade que vale dois milhões de contos, eu não devo nada que se pareça com isso. Portanto, o que me vai acontecer é eu vender a sociedade ao Conde ou outro de Madeira, ou outro qualquer, e depois logo se vê se eu fico como corretor, se eu fico como sócio minoritário, como é que é, mas pago tudo.

Muitos destes circuitos de cheques passados de um lado para o outro e entregas de dinheiro vivo estão registados nos apontamentos que a secretária de Caldeira foi fazendo. Nesse maço de folhas, que ficou conhecido como o dossiê, também aparece um nome importante da economia portuguesa: Hipólito Pires, representante da espanhola Seat em Portugal e, a dada altura, um dos empresários mais ricos do país. Em 1993, segundo o ranking da revista Forbes, tinha uma fortuna de mais de quatro milhões de contos. A relação com Pedro Caldeira é próxima. Há vários anos que são vizinhos em Cascais e Hipólito chegou até a ajudar Caldeira com um empréstimo depois da suspensão de 1988. Quando Caldeira começou a receber dinheiro de clientes, numa atividade paralela, propõe a Hipólito novos investimentos, mais vantajosos, com o dinheiro das empresas que ele administrava. Caldeira nunca falhou no pagamento de juros, mas o último cheque que entrega ao empresário, de 37 mil contos, veio devolvido depois de o corretor fugir. Apesar de o tribunal ter dado como provado que era o próprio Hipólito Pires quem tratava das entregas de dinheiro, o empresário garante hoje que nunca teve qualquer envolvimento mais direto com Caldeira.

Não conheço o tema em pormenor, porque era o meu colega exatamente da área financeira que se encarregava e era responsável por gerir a carteira que nós usávamos com as disponibilidades de tesouraria.

Hipólito Pires diz que Caldeira oferecia às empresas alternativas de investimento que, ao contrário do que acontece hoje, não eram tão acessíveis nos anos 90.

Se você tiver disponibilidades, coloca num banco qualquer no estrangeiro, dentro da União Europeia, não tem problema nenhum, ou mesmo fora da União Europeia. É perfeitamente tudo transparente, legal. Na altura, não havia sequer isso e os bancos, a maioria deles ainda estava nacionalizado. Os depósitos não rendiam absolutamente nada.

A empresa de Hipólito Pires haveria de colocar uma ação em tribunal contra o corretor. O empresário considerava-o um amigo, mas essa amizade termina quando Caldeira foge. Em Marbella, Almeida Araújo era visto com frequência a passear uma chita. Era o animal doméstico da família, que já antes tinha tido um leão. O arquiteto e pintor sempre foi conhecido pelas suas excentricidades. Chegou a ser dirigente do Partido Liberal, que foi ilegalizado durante o processo revolucionário, e era muito próximo da mãe do ex-presidente do BES, Ricardo Salgado. José Harry de Almeida Araújo é, no início dos anos 90, um dos mais conhecidos membros do jet set de Cascais. Foi a mulher, Danielle, que o levou a investir em Pedro Caldeira. O casal tinha uma relação próxima com o corretor. Quando Caldeira passou por dificuldades, depois de ser suspenso, organizaram um jantar com amigos para o ajudar a pagar uma dívida. Danielle confiava-lhe há muito tempo uma parte da fortuna para investimentos na bolsa. Mas só em junho de 1992, um mês antes da derrocada, Almeida Araújo decide fazer o mesmo. No exterior da casa do Largo, onde se encontram muitas vezes, o arquiteto pergunta a Caldeira como deve aplicar o dinheiro que recebeu da venda de uma casa. Almeida Araújo quer investir 25 mil contos e combinam que pode haver um levantamento antecipado com um pré-aviso de oito dias se precisar do dinheiro. Na véspera da fuga, a 22 de julho, Almeida Araújo liga a Caldeira. Vai precisar de usar o dinheiro a 4 de agosto e, por isso, quer tê-lo de volta uns dias antes. O corretor garante-lhe que não há qualquer problema, mas desaparece no dia seguinte O arquiteto foi um dos clientes a quem a secretária do advogado de Caldeira haveria de entregar uma mensagem escrita pelo corretor quando ainda estava em fuga.

Todos os clientes que ele tinha naquela coisa paralela, fez uma cartinha para todos os clientes a pedir desculpas. A maioria deles ficaram muito quietinhos e caladinhos, porque muitos não queriam que se soubesse.

Mas Almeida Araújo não fica quietinho e caladinho. Pelo contrário. Como era um cliente recente, não houve tempo para receber quaisquer juros. E não fica nada satisfeito quando vê Libânia entrar na Casa do Largo e entregar as cartas. O jornalista Edgar Caetano falou com Libânia Bileu.

Estava lá quando ela foi. Ele foi dos últimos que entregou lá o dinheiro e não recuperou.

Não tinha ganho antes para agora recuperar.

Exatamente, não tinha ganho antes para agora ficar mais calmo.

O arquiteto haveria de alegar que entregou o dinheiro à corretora e não ao corretor, exigindo receber parte da massa insolvente. Mas o tribunal deu como provado que sabia bem o que estava a fazer, além dos riscos que corria. No final, Almeida Araújo nunca mais viu o dinheiro e nunca mais perdoou a Pedro Caldeira. A lista de clientes é longa e os valores são astronômicos. O próprio tribunal não conseguiu concluir, de forma exata, quanto dinheiro foi movimentado. Só nos últimos seis meses, antes de fugir, Pedro Caldeira recebeu 4,8 milhões de contos de cerca de 60 clientes. E isto sem contar com as entregas em dinheiro vivo, que não ficaram registadas. Aos lesados que se apresentaram no julgamento, os juízes concluíram que o corretor ficou a dever pelo menos 2,2 milhões de contos. Se fizermos a conversão para os valores de hoje, percebemos que é mesmo muito dinheiro. São mais de 22 milhões de euros. O encantador de ricos voou com a família para os Estados Unidos. É agora um fugitivo. Nos meses seguintes, Pedro Caldeira vive em várias zonas de Palm Beach e Miami, na Flórida. É nessa zona que a família Caldeira vai passar mais de oito meses, entre hotéis e casas arrendadas ou emprestadas por amigos. Uma semana depois de sair do país, o agora ex-corretor dá uma entrevista por telefone ao semanário "O Independente". Confirma a fuga e garante que só levou dinheiro suficiente para sobreviver seis meses. Enquanto está na América, mantém sempre um contacto próximo com a família em Lisboa. Com o pai, que está muito doente, com o advogado Rodolfo Lavrador e com a secretária do advogado, Libânia Bileu.

Enquanto ele esteve em Orlando, ele falava quase todos os dias para casa. Eu atendia e ouvia a chamada e já sabia que era uma chamada internacional. Era o Pedro a desabafar comigo, a falar comigo. Falava-me de lá. Olha, sobretudo, ele desabafava muito e chorava. Chorava que estava mesmo numa situação muito desconfortável.

Pedro Caldeira não está sozinho. Tem com ele a mulher e dois filhos pequenos, o que dificulta a fuga. Está a ser procurado pela Polícia Judiciária, pela Interpol e pelo FBI. E em breve terá atrás dele uma outra pessoa, um detetive privado, contratado por uma família muito rica, com uma missão que deveria manter-se secreta: encontrar Caldeira e recuperar dois milhões e meio de dólares. Mas essa é uma história para o próximo episódio. No próximo episódio.

Vou ao balcão. "Olhe, abra aqui a mala, faz favor. O senhor traz aqui uma arma". E eu abro a mala. Mostráva uma arma? O que é isso?

Agora, quando há um volume de negócios daqueles e depois no final não há nada para pagar, para mim é estranho. Ponto.

Puseram em escuta o meu telefone, o telefone da minha secretária, o telefone dos meus colegas da Rua do Crucifixo que estavam ao pé, os colegas de outros que estavam aqui mais ao pé do palácio com quem eu ia também. Puseram esses telefones todos em escuta.

"O Encantador de Ricos" é uma série em seis episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, São José Correia, e tem banda sonora original de The Legendary Tigerman. O guião e as entrevistas são de Edgar Caetano. A edição é de João Santos Duarte. A sonoplastia é de Artur Costa. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos sons retirados do YouTube. Podcast Plus do Observador. É mais do que um podcast. Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Honda Automóveis.