Uma hora e 37 minutos que Jasmine Paolini nunca irá esquecer. Esta quinta-feira, a tenista italiana venceu Mirra Andreeva em dois sets e garantiu um lugar na final de Roland Garros, alcançando desde já o melhor resultado da carreira num Grand Slam e assegurando a hipótese de lutar pela vitória contra a bicampeã Iga Swiatek, que eliminou Coco Gauff.

Aos 28 anos, Jasmine Paolini nunca tinha sequer ultrapassado a quarta ronda de um Grand Slam. Este ano, porém, trazendo na bagagem uma já impressionante vitória no Masters 1000 do Dubai, mostrou-se desde logo apontada a fazer história: começou por afastar Daria Saville na primeira ronda, seguiram-se Hailey Baptiste, Bianca Andreescu e Elina Avanesyan, surpreendeu Elena Rybakina nos quartos de final e não deu hipótese a Mirra Andreeva, superando a russa em dois sets.

“Foi um jogo difícil. Ela está a jogar de uma forma incrível para quem só tem 17 anos, é muito completa, e eu estava nervosa antes do jogo. Perdi contra ela há um mês e só pensava que tinha de fazer melhor. Estava nervosa no primeiro set, mas fui relaxando bola atrás de bola. Estou muito feliz por ter conseguido vencer. Comecei a aprender um bocadinho mais tarde do que a maioria dos tenistas, mas sonhar é a coisa mais importante no desporto e na vida. Não sei o que dizer, estou muito emocionada”, disse a italiana ainda em plena terra batida de Roland Garros.

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Jasmine Paolini não estava a mentir. Nascida em janeiro de 1996 na Toscana, a pitoresca região do centro de Itália, só foi introduzida às raquetes com cinco anos — mais tarde do que a maioria dos tenistas, que começa a bater bolas ainda antes. E, na verdade, ainda teve de escolher entre o ténis e a natação. “Lembro-me de que o meu pai e a minha mãe me disseram que tinha de escolher um desporto. A minha aldeia só tinha campos de ténis e uma piscina e, como o meu tio jogava ténis, foi isso que escolhi. E éramos uma grande família, tinha muitos amigos no clube”, contou numa entrevista recente.

Pouco depois, também o irmão mais novo, William, começou a praticar a modalidade. Jasmine Paolini é filha do casamento entre um italiano, Ugo, e uma polaca com ascendência dinamarquesa, Jacqueline — e, curiosamente, será precisamente uma polaca que vai defrontar na final de Roland Garros. Uma coincidência já abordada pelas duas, na altura em que Iga Swiatek ganhou o Masters de Doha e a italiana teve a tal vitória no Dubai, com a número 1 mundial a dar os parabéns à colega de profissão através das redes sociais.

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“A minha mãe falava em polaco em casa quando eu era miúda. Ainda consigo falar, mas esqueço-me de algumas palavras. A Magdalena Fręch [tenista polaca] fala comigo em polaco e eu digo-lhe sempre para falar mais devagar, às vezes quero dizer-lhe alguma coisa em polaco e sai-me em inglês. O meu cérebro baralha-se”, revelou Jasmine Paolini já durante a atual edição de Roland Garros e depois de uma jornalista da Polónia lhe ter dado os parabéns na própria língua.

Depois de preferir o ténis à natação e já com 15 anos, mudou-se para Tirrenia, perto de Pisa, para entrar noutro clube e começar a construir a carreira profissional. Estreou-se no circuito WTA em 2017, no Open da Suécia, e o primeiro Grand Slam em que participou foi precisamente Roland Garros, em 2019. Entrou no top 100 do ranking no mesmo ano, tornando-se a primeira italiana a alcançá-lo desde Camila Giorgi em 2012, e em 2022 conseguiu não só a primeira vitória contra uma adversária de top 10, derrotando Aryna Sabalenka em Indian Wells, como também a subida ao top 50.

Já em 2024, chegou pela primeira vez à quarta ronda de um Grand Slam no Open da Austrália, conquistou o primeiro título da carreira com a tal vitória no Masters 1000 do Dubai e ainda voltou a festejar, em dupla com Sara Errani, o triunfo em pares no Open de Itália. Um percurso que lhe garantiu o salto para o 12.º lugar no ranking WTA e que já lhe permitiu fazer história em conjunto com Jannik Sinner, que enfrenta Carlos Alcaraz na meia-final masculina já esta sexta-feira — são os primeiros italianos de sempre a terem chegado em simultâneo às meias-finais feminina e masculina de um Grand Slam.

Com apenas 1,63 metros, Jasmine Paolini não tem permitido que a baixa estatura a impeça de sonhar. Já durante Roland Garros, depois de a italiana ter garantido a qualificação para os quartos de final, Mats Wilander disse-lhe que tinha “um coração tão grande que nem sabia como lhe cabia no corpo”. “Tem de ser grande, porque eu já sou muito pequena”, respondeu a tenista, que este sábado tem uma tarefa quase impossível contra Iga Swiatek, mas que já mostrou que o mais importante é sonhar.