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6 de outubro de 1981. Passam oito anos desde que começou a sangrenta guerra do Yom Kippur, entre Israel, o Egito e a Síria. No Cairo, a data é assinalada com uma parada militar. O presidente do Egito, Anwar Sadat, está na tribuna a passar em revista as tropas que vão marchando. Há três anos, Sadat e o primeiro-ministro israelita Menachem Begin assinaram um acordo de paz que lhes valeu o Prémio Nobel e que tornou Sadat um alvo para os extremistas islâmicos. O presidente egípcio já foi ameaçado muitas vezes, mas nunca abdicou de aparecer em público nestas ocasiões. O que não sabe é que naquela parada está um grupo de extremistas com um plano para o matar. Devidamente fardados, seguem na coluna de carros militares sem levantar quaisquer suspeitas. Até que, no momento em que passam em frente à tribuna presidencial, saltam do caminhão, atiram granadas e disparam várias rajadas de metralhadora contra todos os que lá estão. Anwar Sadat é atingido por quatro tiros. As câmaras de televisão captam tudo, nunca param de filmar. Duas horas mais tarde, o presidente do Egito há de ser declarado morto e o assassinato foi transmitido em direto para o mundo inteiro. O padre Juan Fernández Crohn está em casa, nos arredores de Paris, e é um dos milhões de pessoas que veem tudo pela televisão.

Vi na televisão, foi um atentado em direto. Chegaram ao desfile, parou o caminhão, desceram os militantes e metralharam toda a tribuna e todos o vimos.

Agora, mais de 40 anos depois, conta como tudo aquilo o impressionou e lhe deu ideias.

Aquilo, efetivamente, pode dizer-se que me escandalizou. Se era tão fácil fazer um atentado e se era por motivos ideológicos, eu tinha tantos motivos ideológicos como eles poderiam ter.

Crohn está disposto a fazer pela Igreja o que aqueles homens fizeram pelo Islão. Não reconhece a legitimidade do Papa João Paulo II. Acha que ele é um antipapa, uma encarnação do Anticristo, um agente comunista e uma ameaça às antigas tradições católicas. Tem a prova diante dos olhos. Fazer um atentado é fácil e o que não faltam a Crohn são razões ideológicas para também planear um. A escolha óbvia era um tiro. Faria aquilo que Ali Agca não tinha conseguido fazer meses antes, quando disparou contra João Paulo II, na Praça de São Pedro. Mas um tiro podia causar demasiado pânico na multidão e Crohn quer que o seu gesto seja simbólico. Decide-se, por isso, por um punhal para evocar São Longinus. Segundo a tradição católica, Longinus foi o soldado romano que perfurou o corpo de Jesus Cristo com uma lança quando estava pendurado na cruz. Queria certificar-se de que o condenado já estava morto, mas quando o fez, do corpo de Jesus saiu não apenas sangue, mas também água. Nesse instante, o soldado reconheceu Jesus como filho de Deus, converteu-se e acabou por morrer como mártir. E é exatamente para lembrar esse episódio bíblico que Crohn quer matar o Papa com uma lança. Precisa de arranjar uma arma. Primeiro, vai a um armeiro perto da estação de São Lázaro, em Paris, e compra uma navalha de ponta em mola. Ainda ensaia uns movimentos com ela, mas não fica convencido. Faz uma segunda tentativa. Traz uma faca de desporto dos armazéns Lafayette, mas também não gosta dela. Encontra a arma perfeita numa feira de antiguidades. É uma baioneta antiga do princípio do século. Dirá mais tarde que a intenção era espetá-la no coração do Papa, mas Crohn não sabe como fazê-lo e precisa de praticar. Em segredo, fechado no quarto, treina várias vezes em frente ao espelho para descobrir a melhor forma de esfaquear João Paulo II. "Matar o Papa" é uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos "Podcast Plus" do Observador. É narrada por mim, Pedro Lajinha, com banda sonora original de Rodrigo Leão e participação especial de Adriano Luz na voz de Juan Fernández Crohn. Episódio dois: Três facas.

Nesta viagem emocionante, vamos ouvir uma história inesquecível. A cada episódio, o suspense envolve-nos, assim como a experiência única de movimento da Kia. Junte-se a nós nesta viagem. Kia, "Movement that inspires".

Espanha vive há uma década sob o regime de Francisco Franco. Depois dos anos conturbados de Primo de Rivera, da Segunda República e da Guerra Civil, Franco implementa uma pesada ditadura de inspiração fascista, conservadora, nacionalista e anticomunista.

É necessário que todos os espanhóis percebam que os poucos ou muitos bens de que hoje gozam são fundamentados na unidade, na paz, na disciplina e na ordem interna dos espanhóis.

A 2000 km de Madri, na Polônia comunista, do lado de lá da Cortina de Ferro, o jovem padre Karol Wojtyla dá os primeiros passos no sacerdócio. O futuro papa foi ordenado padre há apenas três anos. Tem 29 anos quando Juan Fernández Crohn nasce na capital espanhola, em junho de 1949. O pai de Crohn, Miguel, é engenheiro aeronáutico na Força Aérea. O apelido estrangeiro vem do lado da mãe, Júlia. O bisavô materno era norueguês, mas emigrou para a Espanha na juventude e converteu-se ao catolicismo. A família é incondicionalmente franquista. Juan tem quatro irmãos, dois rapazes e duas raparigas. Todos estudam em colégios católicos. Em casa, há um ódio ao comunismo, sobretudo por causa dos relatos dos familiares que viveram a guerra civil e que se lembram das lutas contra os vermelhos, como chamavam aos republicanos. No colégio católico, num bairro privilegiado de Madri, Crohn é uma criança devota. Quando vê um padre, para de brincar e corre para lhe beijar a mão. É o delegado de turma e tem a função de apontar os nomes dos colegas que cometem infrações. Mas o que vai mesmo marcar-lhe a vida são os anos 60. É nessa década que vai desiludir-se com a Igreja, com as pessoas que o rodeiam e com a política. E a cada desilusão, fica cada vez mais isolado.

O Papa deu início à missa pontifícia do Espírito Santo.

Foi no dia de Natal de 1961 que o Papa João XXIII convocou o Concílio Vaticano II. Para João XXIII, a Igreja assistia a uma grave crise da sociedade. Todos os dias havia grandes evoluções tecnológicas, mas a Igreja estava parada. Era preciso agir. Por isso mesmo, o Papa chamou a Roma todos os bispos do mundo para renovarem a instituição. Não era uma tarefa simples. O concílio durou três anos e contou com a participação de alguns dos mais célebres teólogos do século XX. Karl Rahner e Joseph Ratzinger estiveram presentes na qualidade de peritos para aconselhar os bispos. Karol Wojtyla, que entretanto já não era um simples padre, mas o bispo auxiliar de Cracóvia, também participou. Do concílio, saíram inúmeras alterações que revolucionaram a Igreja.

O concílio produziu 16 documentos destinados a modernizar o papel da Igreja nos assuntos mundiais.

A missa passou a poder ser celebrada em diferentes línguas e não apenas em latim.

Em toda a ocasião e por todas as partes, levamos no corpo a morte de Jesus.

Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.

Foi aberta a porta ao diálogo inter-religioso e ao ecumenismo. Enquanto o papel dos leigos foi reforçado, o poder do Papa e a autoridade do clero foram relativizados. Na prática, o Concílio Vaticano II fez nascer a Igreja Católica tal como hoje a conhecemos. Mas também abriu uma guerra entre os mais progressistas, que aplaudiam e aceitavam as reformas, e os mais conservadores, que rejeitavam esta revolução. Tudo isto acontece quando o jovem Juan Fernández Crohn está a acabar o liceu. Não podia ter sido em pior altura, porque em breve, quando entrar na universidade, Crohn vai enfrentar outra revolução e vai desiludir-se mais uma vez, agora com as pessoas que o rodeiam. Em maio de 1968, Paris está em convulsão. Dezenas de milhares de estudantes tomam conta das ruas. O protesto começou de forma inócua, quando uma universidade restringiu os acessos aos dormitórios para evitar que rapazes e raparigas dormissem juntos, mas rapidamente escalou para um protesto nacional, que foi muito além disso. O protesto dos jovens franceses acompanha a revolução sexual europeia. Querem uma nova cultura de juventude, que rompa com as tradições que consideram antiquadas. Criticam a guerra no Vietname, exigem igualdade de direitos sociais e têm heróis como Che Guevara, um dos líderes da Revolução Cubana. Em Espanha, Juan Fernández Crohn também é um estudante universitário em maio de 1968. Está em Madri a fazer dois cursos ao mesmo tempo.

Fui um estudante brilhante, fiz duas licenciaturas que acabaram por não me servir para muito. As duas faculdades ficavam muito perto uma da outra. Saí licenciado em Ciências Econômicas e saí licenciado em Direito.

Durante os estudos, Krone assiste aos protestos em França que o ajudam a consolidar uma posição anticomunista. A partir de certa altura, na cabeça de Krone, estas duas revoluções juntam-se e passam a ser apenas uma. Os reformistas da igreja são, afinal, agentes do comunismo.

Encarei o Concílio Vaticano II como todo mundo, como uma fonte de esperança, de sonho, de ilusão. Ia modernizar a igreja. Mas depois entrei na universidade e ali tornou-se claro: o Concílio Vaticano II era justificar a extrema-esquerda. Foi assim que o vi. A partir daí, reagi e fui adotando uma atitude reacionária.

Cerca de 30 anos antes, o Papa Pio XI tinha publicado uma condenação formal do comunismo ateu. O Santo Ofício publicou um decreto a determinar a excomunhão dos católicos que defendessem a doutrina marxista. No entanto, nos documentos que resultaram do Concílio Vaticano II, não há qualquer condenação explícita do comunismo. Mais: quando foi apresentada uma proposta de condenação formal do comunismo, o texto foi rejeitado e o bispo Karol Wojtyla foi um dos muitos que votaram contra.

Chegou o concílio e houve uma minoria de padres conciliares, dos quais fazia parte monsenhor Lefebvre, que era uma minoria tradicional, mas era uma minoria restrita, que quis renovar a condenação. O principal responsável pelo fracasso da renovação da condenação do comunismo foi o Papa Wojtyla, que era, na época, padre conciliar.

O mais certo é que a Igreja tenha decidido fazer essa concessão em troca de uma possibilidade de diálogo com os regimes do leste ou da participação dos bispos soviéticos no concílio. Mas Juan Fernández Krone não se deixa convencer. Para ele, tudo isto representa uma divisão radical da Igreja. De um lado, estão os fiéis à tradição católica, do outro, os comunistas ateus. Na universidade, Krone vê grande parte dos colegas renderem-se às reformas do Concílio Vaticano II. De repente, sente que está cercado por comunistas.

A metamorfose dos meus companheiros de universidade, católicos, que tinham sido gente normal, tinham sido educados na Espanha de então e da noite para o dia: extrema-esquerda, todos. Extrema-esquerda radical, um comunismo à espanhola, comunismo da guerra civil, em nome da Igreja, em nome do Concílio Vaticano II.

Krone está cada vez mais isolado.

Fui afastado. Eu era muito sociável, tinha muitos amigos. A partir do segundo ano, não me dava com ninguém. Tinha uma etiqueta de extrema-direita falangista.

É justamente nessa altura que Juan Fernández Krone dá os primeiros passos de radicalização e decide juntar-se a um movimento falangista, a FEES, Frente de Estudantes Sindicalistas.

A FEES era um grupo de falangistas e dissidentes que acusavam Franco de ter traído a doutrina de José António. Era uma postura simples e pueril, mas era assim.

José António. Já foi há quase 90 anos que o filho do ditador Miguel Primo de Rivera foi executado pelos republicanos espanhóis no pátio da prisão de Alicante. Mas Krone continua a tratá-lo apenas pelo nome próprio, quase como se fosse família. É em 1933, três anos depois de o pai abandonar o governo de Espanha, que José António Primo de Rivera funda a Falange Espanhola, o movimento nacionalista e de inspiração fascista, que vai estar na base do pensamento de Francisco Franco. Mas quando o generalíssimo chegar ao poder, alguns dos falangistas mais radicais vão virar-se contra Franco. Acusam-no de ter traído as ideias originais de José António Primo de Rivera. Krone, que tem um pôster de José António colado na parede do quarto, é um deles. Inscreve-se na FEES, participa em protestos estudantis violentos e acusa Franco de ter aburguesado o regime. É a terceira desilusão. A sociedade conservadora em que cresceu está a desmoronar-se, mas recusa-se a cair com ela. Tem de encontrar uma saída. Precisa de descobrir mais pessoas que pensem como ele. Está licenciado em Direito e em Ciências Econômicas. Foi um bom aluno. Conseguiria facilmente emprego em qualquer uma dessas áreas. Mas em vez disso, compra um bilhete de avião para o Rio de Janeiro e trata de arranjar uma entrevista com o doutor Plínio.

Mas não é o mero crer, é amar o que se crê. Portanto, entra aqui a caridade.

No início da década de 70, há muitos movimentos católicos ultraconservadores que estão contra as reformas da Igreja. Um dos mais destacados é a Tradição, Família e Propriedade, fundada em 1960 no Brasil pelo professor universitário e antigo deputado Plínio Correia de Oliveira, com o objetivo de restaurar a civilização cristã.

É exatamente comunicar esse amor, esse enlevo pela reza católica, pela coisa católica, pela Santa Igreja Católica, pela doutrina católica, pelo estado de espírito.

Nesta altura, Krone ainda não pensa em ser padre. Sabe que quer dedicar a vida à defesa da Igreja, mas nunca pensou na vocação religiosa. Esse foi o chamamento do irmão mais velho, que está por esses dias no México com uma ordem de missionários. Apesar de serem da mesma família, estão em lados opostos. Miguel Krone aceitou desde a primeira hora as reformas da Igreja e nunca pôs em causa a obediência a Roma. Depois, ainda há outra grande questão. Para Juan Fernández Krone, a vocação resume-se ao celibato. Quem se sente atraído pelo sexo feminino não tem vocação. E ele sente-se atraído por mulheres. O que atrai Krone para uma vida religiosa é um sentimento de culpa difícil de explicar. Sente-se obrigado a fazer algo. É uma obsessão que não lhe sai da cabeça. Tem de se negar a si próprio e fazer alguma coisa para ajudar a salvar a Igreja. Na organização do doutor Plínio, não seria sacerdote, mas teria de ser celibatário na mesma. E até estava disposto a aceitar esse estilo de vida. Mas depois da entrevista com o fundador, Krone é rejeitado. De volta à Espanha, decide tornar-se monge cartucho.

Quando me senti recusado, pensei no sacerdócio. Estive na Cartuxa de Ala Dei, em Saragoça, mas é um pouco como ser enterrado em vida. Estive lá durante o verão e a vida de cartucho é um enterro em vida. O cartucho vive fechado na sua cela e não sai. Só sai para as orações monásticas à noite, mas vive fechado na sua cela.

Apesar de ter chegado mesmo a pensar aceitar o enterro em vida, também desiste desta opção quando o prior lhe anuncia que em breve também ali se vai passar a rezar a missa segundo os novos ritos. E é só por isso que em 1974, com 25 anos, Krone bate à terceira porta, a da Fraternidade Sacerdotal de São Pio X, fundada pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre, na Suíça. E aí é finalmente aceito. São quatro anos noutro mundo, um mundo que parou no tempo. Reza, lê e estuda em latim, sempre na companhia de outros ultraconservadores. As celebrações são feitas segundo rituais antigos, num ambiente de misticismo e devoção fervorosa. No final destes quatro anos, é ordenado padre por Lefebvre, que entretanto já está suspenso pelo Vaticano. A família de católicos obedientes a Roma está presente. Sente-se algum desconforto. Mas é quando Krone deixar de reconhecer João Paulo II como o papa legítimo que as coisas se vão tornar realmente graves. Em 1978, recém-ordenado padre Krone é enviado para Buenos Aires com um colega francês, também ele padre da Fraternidade de São Pio X. Por esta altura, um padre bem diferente de Krone está a terminar o seu mandato como superior da Companhia de Jesus, também na Argentina.

Todos somos irmãos, porque levamos o selo de Deus em nosso coração.

Ao contrário de Krone, este sacerdote deixou-se inspirar pelo Concílio Vaticano II e está a promover uma revitalização dos jesuítas no país. Chama-se Jorge Bergoglio e dentro de algumas décadas há de tornar-se papa. O Papa Francisco. Por ordem de Lefebvre, o anticomunista Krone está em Buenos Aires para fundar um seminário. Mas também passa por outros países da América Latina. Durante dois anos, conhece ditaduras militares e cruza-se com o tema que o persegue: a relação tensa entre o catolicismo e o comunismo. Depois, em março de 1980, volta à Europa e mais uma vez, por decisão de Lefebvre, instala-se em França, num priorado. Uma casa que é uma espécie de pequeno convento onde vivem dois ou três padres da Fraternidade de São Pio X. Vivem em comunidade e prestam serviço nas capelas tradicionalistas que ficam ali perto. Crone celebra com frequência em três capelas, duas nos subúrbios de Paris e outra em Rouen, a duas horas da capital. É uma realidade totalmente à parte da Igreja Católica oficial, sem qualquer relação com a Arquidiocese de Paris. As capelas e as casas dos priorados são mantidas graças à generosidade de benfeitores, famílias católicas ultraconservadoras, tradicionalistas e com muito dinheiro, que seguem a corrente de Lefebvre. É daquela pequena casa, nos arredores de Paris, que em maio de 1982 vai partir para apanhar o comboio que o há de levar a Fátima para matar o Papa. Mas antes disso, ainda há de fazer uma viagem até à Polônia comunista.

"Good evening. Pope John Paul II continued his triumphal tour of his homeland today, speaking diplomatically but pointedly about the relationship between the Church and communism".

Se o Papa João Paulo II não fosse polaco, provavelmente nunca teria sido autorizado a visitar a Polônia em 1979. O papa anterior, Paulo VI, já tinha tentado, mas o governo comunista recusou. Apesar de terem dado luz verde à viagem, as autoridades estão sempre em alerta e impõem uma série de regras sobre a presença de João Paulo II no país. Receiam que o Papa possa dar ideias aos polacos e despertar-lhes sentimentos de independência. A televisão nacional é autorizada a transmitir a viagem papal, mas recebe instruções rígidas no sentido de não filmar as enormes multidões que participam nos eventos com João Paulo II. A viagem tem um tom político, mas os jornalistas precisam de saber ler nas entrelinhas daquilo que o Papa diz e faz. Em todo o bloco soviético, cada palavra de João Paulo II é escutada com atenção. O Papa fala na língua materna e foge várias vezes ao discurso que traz escrito. João Paulo II vai repetindo uma mensagem que já se tinha tornado uma espécie de assinatura, mas que na Polônia comunista ressoa de modo ainda mais especial: "Não tenham medo". Diz aos jovens que eles são o futuro do mundo, da nação e da Igreja, e que é deles que depende o amanhã, que pode ser melhor do que o hoje, até na Polônia. No final de uma enorme missa em Varsóvia, usa uma expressão que até hoje é referida como fundamental para uma série de mudanças no país. Perante milhares de polacos, João Paulo II faz um apelo à renovação da face daquela terra. A mensagem vai ter um impacto concreto um ano depois, em agosto de 1980, momento em que muitos hão de ver o princípio do fim do comunismo. Naquele verão, o aumento dos preços dos alimentos na Polônia é o gatilho para uma onda de protestos com epicentro nos estaleiros navais de Gdansk. Milhares de trabalhadores entram em greve e um homem destaca-se na liderança do movimento: Lech Walesa, um eletricista de 36 anos. Os trabalhadores querem derrotar o comunismo usando as armas dos próprios comunistas. Exigem o direito à greve e a formar sindicatos livres, que é como quem diz, independentes do Partido Comunista. Enquanto essas reivindicações não forem cumpridas, recusam sair dos estaleiros navais. Surpreendentemente, o governo aceita negociar e acaba por ceder às exigências. É o primeiro passo para a fundação do Solidariedade, ali mesmo, nos estaleiros de Gdansk. Lech Walesa há de reconhecer mais tarde a forte influência de João Paulo II nas ideias que levaram à fundação do primeiro sindicato independente no país. Aliás, nos portões do estaleiro, foi logo pendurada uma fotografia do Papa. O padre Peter Stilwell lembra-se bem do impacto de João Paulo II na fundação do Solidariedade.

Quando ele chega à Polônia e consegue mobilizar praticamente todo o país, ele percorre a Polônia toda com multidões enormes que nunca se tinham visto nos países comunistas, se não controlados pelo partido ou pelo regime, isto de repente começou a despertar a ideia de que o povo podia tomar nas suas mãos os seus próprios destinos.

A partir de Moscovo, a União Soviética vê o surgimento do Solidariedade com grande preocupação e pressiona a liderança polaca a reprimir o movimento, que continua a organizar greves e protestos. Quando o Solidariedade nasce em agosto de 1980, o padre Crone está em Paris há cinco meses. Como militante especialmente interessado na luta anticomunista, acompanha com atenção o que se passa na Polônia

"Normal working is resumed along the Baltic coast of Poland. The shipyard workers, some of them reluctantly, have returned after their month-long strike."

Celebra com os polacos aquela vitória contra um regime comunista. E no verão de 1981, viaja mesmo até à Polónia. O padre espanhol quer conhecer a realidade do país profundamente católico e, sobretudo, quer conhecer Lech Walesa. É recebido por um destacado membro do Solidariedade, que o acolhe na cidade onde vive e o acompanha em vários pontos da viagem de três semanas. Chega mesmo a trocar algumas palavras com o próprio Walesa, num breve encontro durante um congresso regional do Solidariedade. Mas não fica convencido de que João Paulo II esteja, de facto, do lado deles. Pelo contrário, vai acabar por acusá-lo de trair os polacos. A 13 de dezembro de 1981, o presidente da Polónia, um general comunista, surge com ar solene e de uniforme verde na televisão.

"Ogłaszam, że w dniu dzisiejszym ukonstytuowała się Wojskowa Rada Ocalenia Narodowego."

Anuncia que à meia-noite, a lei marcial vai entrar em vigor no país. Pressionado por Moscovo, o chefe de Estado quer esmagar o Solidariedade, que está a ganhar força graças ao apoio de João Paulo II e a ameaçar o regime comunista. O Solidariedade é extinto. Por todo o país, os polacos contestam a lei marcial. Acender uma vela à janela torna-se o símbolo do protesto em todo o mundo. Na Casa Branca, o presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, há de fazer o mesmo. Na semana em que a lei marcial entra em vigor, naquele mês de dezembro de 1981, o padre Krón está em Roma. Decidi ir à Praça de São Pedro na audiência semanal. Quer ouvir o que João Paulo II tem a dizer sobre a repressão dos comunistas à sublevação que ajudou a instigar.

"Eu estava em Roma e na audiência do Papa, silêncio total, não falou do tema. Como se não tivesse nada a ver com aquilo".

Para o padre Krón, este silêncio é a confirmação de que estava certo. João Paulo II é um traidor. Mas na realidade, nada disso é verdade. Na audiência daquela semana, o Papa fala efetivamente sobre a situação na Polónia. Pede um regresso ao caminho do diálogo e chega até a acender uma vela à janela, no Vaticano. Na mesma viagem a Itália, o padre Krón também visita Assis. Na pequena capela onde se acredita que morreu São Francisco de Assis, faz aquilo que diz ser um voto com a morte na alma para matar o Papa. Nessa altura, já não tem dúvidas. Só tem uma missão na vida e essa missão é assassinar João Paulo II. Falta apenas decidir quando e onde. A resposta está num misterioso documento que só pode ser lido por uma pessoa: o próprio Papa. Mas essa é uma história para o próximo episódio. No próximo episódio. Se Krón quiser matar o Papa, vai ter de passar por ele. E isso não é fácil. Ramalhete é um agente treinado especificamente para proteger as altas individualidades.

Não lhe posso explicar muito em pormenor, mas posso lhe dizer muita instrução de tiro. Tiro de toda a maneira, mão esquerda, mão direita, deitado de costas, tiro com agentes à nossa frente ou ao lado do alvo. Não se pode errar.

"Matar o Papa" é uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Pedro Laginha, com banda sonora original da Rodrigo Leão e participação especial de Adriano Luz na voz de Juan Fernández Krón. O guião e as entrevistas são de João Francisco Gomes. A sonoplastia é de Bernardo Almeida. O design gráfico é de Miguel Ferraz Cabral. A edição é de Tânia Pereirinha e João Santos Duarte. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos sons retirados do YouTube. Podcast Plus do Observador. É mais do que um podcast.

Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Kia.