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As dores de Evan Hansen estão (finalmente) no meio de nós

Este artigo tem mais de 2 anos

A adaptação do sucesso da Broadway era tão aguardada que gerou uma corrida ao casting. O musical com João Sá Coelho, Gabriela Barros e Miguel Raposo estreia-se no Teatro Maria Matos dia 11.

Inês Pires Tavares é Zoe, enquanto João Sá Coelho foi o escolhido para interpretar o muito desejado papel de Evan Hansen
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▲Inês Pires Tavares é Zoe, enquanto João Sá Coelho foi o escolhido para interpretar o muito desejado papel de Evan Hansen

FOTOS: JOANA LINDA

▲Inês Pires Tavares é Zoe, enquanto João Sá Coelho foi o escolhido para interpretar o muito desejado papel de Evan Hansen

FOTOS: JOANA LINDA

Mais de 600 pessoas quiseram ser Evan Hansen em Portugal, um número impressionante justificado pelo sucesso do musical original, de Steven Levenson, que nos últimos anos conquistou seis prémios Tonys, um Grammy para Melhor Álbum de Teatro Musical e três Laurence Olivier. “Recebemos muitas self tapes, mas assim que o João subiu ao palco e ouvi a voz dele, encontrei o meu Evan”, explica ao Observador Rui Melo, encenador de Querido Evan Hansen, espectáculo que se estreia no Maria Matos, em Lisboa, a 11 de setembro.

João é João Sá Coelho, o ator de 22 anos que cumpre agora o sonho de ser o protagonista daquele que era há muito o seu espetáculo favorito. “É o meu musical preferido desde que se estreou em 2015, na Broadway, portanto foi uma loucura assim que soube do casting em Portugal e uma loucura ainda maior quando consegui o papel.” Esta é a história de Evan Hansen, um adolescente invisível, que tem dificuldade em integrar-se e relacionar-se com as pessoas à volta. Quando uma carta que ninguém devia ter lido o coloca no centro de uma história que não é a dele e o transforma num fenómeno digital, Evan apanha esse comboio, que depressa se descontrola.

Depressão, solidão, ansiedade, luto, saúde mental: são temas que dominam a peça do início ao fim e que são vividos de formas diferentes por duas faixas etárias, os adolescentes divididos entre um mundo real e um mundo de redes sociais, e os adultos que os rodeiam. Além de João Sá Coelho, o elenco mais jovem conta com Brienne Keller (Alana), Dany Duarte (Connor), Inês Pires Tavares (Zoe) e João Maria Cardoso (Jared). Os papéis dos adultos estão a cargo de Gabriela Barros (Heidi), Miguel Raposo (Larry) e Sílvia Filipe (Cynthia).

João Sá Coelho (que tem no currículo A Pequena Sereia — O Musical, 2022; As Árvores Morrem de Pé, 2017; e O Principezinho, 2014)  está praticamente sempre em cena, numa interpretação impactante e exaustiva. “A pressão nas costas dele é terrível e é uma coisa que ele se impõe. É muito curioso porque isso, de alguma forma, também tem pontos comuns com a personagem”, revela Rui Melo que, além de encenar, também traduziu e adaptou o texto.

O que o protagonista foi buscar à experiência pessoal para alimentar a personagem não tem sido sempre fácil de gerir. “A dinâmica familiar, a dificuldade de integração na escola, tudo isso eu reconheço, mas às vezes dificulta ainda mais ir buscar essas memórias. Tem sido uma espécie de terapia, às vezes há coisas que achamos que estão resolvidas e afinal não estão. E está tudo bem, mas temos de fazer esse processo”, reconhece João Sá Coelho.

FOTOS: JOANA LINDA

Chega ao fim da 1h50 de espetáculo física e psicologicamente esgotado e, pelos menos até à estreia, confessa que é difícil não levar essa bagagem para casa. Porém, também destaca como tem sido importante para construir a personagem a intensidade dos ensaios, que começaram no final de julho. “O Rui tem sido muito generoso porque nos deixa explorar as personagens, deixa muita coisa ao nosso critério e, mais importante, deixa-nos sentir até ao fim. Depois vai limar, tirar, por, mas tem sido sempre um processo feito de mãos dadas connosco.”

Para Rui Melo, a aventura Querido Evan Hansen começou bem antes de 2024. Não encenava nada desde Avenida Q (que se estreou em Portugal em 2017, igualmente através da Força de Produção) e por um bom motivo. “Eu tinha de encontrar um texto que quisesse encenar tanto como o Avenida Q e foi este. Ando de olho nele desde essa altura.”

A banda sonora, que fica a tocar em loop no nosso cérebro durante muitas horas depois de deixarmos a sala de espetáculos, é da autoria de Benj Pasek e Justin Paul, responsáveis pelo filme de sucesso La La Land: Melodia de Amor. Foi ela que chamou primeiro a atenção de Rui Melo. “Ouvi as canções e adorei. Construí logo uma narrativa na minha cabeça sobre o que é que o espetáculo falaria. Quando chegou o texto, percebi que tinha muito mais camadas do que eu tinha imaginado. Isto é muito mais profundo.”

Porém, foi preciso fazer vários ajustes ao espetáculo de Steven Levenson. Os nomes originais das personagens foram mantidos por obrigação contratual, mas o encenador pode mudar detalhes que, para ele, eram essenciais. Não gostava da encenação original, que considerava “demasiado teatro musical”. “Queria contrariar essa coisa de luz, brilho, cor e movimento.” Na versão portuguesa não há cenários. Os apoios visuais manifestam-se através de cinco ecrãs que, quando as personagens estão embrenhadas no mundo digital de redes sociais, chats e videochamadas, se iluminam para dar esse contexto. “Interessa-me esse contraponto entre o que é o mundo digital, que é um excesso de informação permanente, o tal vidrinho que nós temos sempre na mão, e a simplicidade.”

A simplicidade está em tudo o resto. O palco permanece preto — com um ou outro adereço que vai aparecendo para delimitar a ação espacial —, iluminando e dando destaque às personagens, porque o que interessa aqui é o que elas estão a transmitir através dos diálogos e das músicas. Se houvesse algo além disso, seria ruído desnecessário. Ao fundo vislumbram-se, na penumbra, os músicos Artur Guimarães (teclados), Tom Neiva (bateria), André Galvão (baixo), Marcelo Cantarinhas (guitarra), João Valpaços (violoncelo) e Inês Nunes (viola de arco), um contributo importantíssimo para a narrativa se tornar tão emotiva e tocante. A direção musical é de Carlos Meireles.

Foi também através do álbum do espetáculo original que Gabriela Barros, que aqui interpreta a mãe de Evan, descobriu a história. “Eu e o Rui [Melo] somos muito amigos e ele já me falava das músicas há muito tempo. Quando ouvi, percebi que eram de facto maravilhosas e lindas.” Aceitar o papel de Heidi não apresentou, por isso, qualquer dúvida mas só quando começou a estudar o texto é que a atriz percebeu a profundidade dos temas.

“A ansiedade na adolescência é uma questão mais urgente do que nunca, é importante abrir espaço para pensarmos, discutirmos, conversarmos e estarmos atentos. Nas novas gerações a palavra ansiedade é recorrente. Eu não me lembro, em miúda, de sentir isso, portanto não podemos ignorar. Acho que estamos agora a ver os resultados dos últimos 15/20 anos, em que as redes sociais passaram a dominar a nossa vida.”

Querido Evan Hansen coloca o dedo em muitas feridas mas, contrariamente ao que possa parecer inicialmente, não relega os pais para papéis secundários. “Este espetáculo é muito transversal porque não só fala dos problemas da ansiedade, da depressão, esta coisa cada vez mais presente, que é os pensamentos suicidas por parte dos adolescentes, mas fala sobre muitos outros assuntos. Fala sobre a culpa da paternidade. E eu, enquanto pai, sofro disso. Estou constantemente à procura do tal mapa, do tal livro de instruções”, explica Rui Melo.

FOTOS: JOANA LINDA

Aqui há adultos em constante luta com a exigência das respetivas profissões, das contas para pagar, das expetativas da sociedade, da vida de casal que tem de sobreviver a todas as obrigações já mencionadas e da dinâmica com filhos adolescentes que é difícil de gerir. Ora se está desatento, ora se está demasiado preocupado — porém, em qualquer dos cenários, há muita coisa que passa ao lado dos pais.

“A quantidade de angústia que guardamos constantemente cá dentro é o que me interessa analisar. Aquele pai [Larry, interpretado por Miguel Raposo] — que não tem nada a ver comigo enquanto pai porque eu sou um pai ultra carinhoso — que é incapaz de demonstrar amor, sente um amor profundo pelo filho. E é esse equilíbrio que me interessa explorar do ponto de vista da mise en scène. Como é que isso se faz, como é que isso se explora, como é que se mostra ao público que ele não é um vilão?”

Cada pessoa no público vai rever-se em cena, seja nas memórias mais dolorosas da adolescência, seja na busca pelos passos certos da paternidade ou maternidade, seja na necessidade de estar mais presente e atento no dia a dia. O que é garantido é que ninguém sairá do Teatro Maria Matos igual. Aliás, correndo o risco de revelar um spoiler, os mais emotivos poderão até deixar escapar uma lágrima — ou soluçar, em casos extremos.

Querido Evan Hansen é humano, devastador e esperançoso na mesma medida, e muito fácil de transportar para a nossa realidade. “O que eu gosto no teatro é esta possibilidade que nos oferece de apontar um espelho para as pessoas. Não estou aqui a julgar ninguém. Só vou apontar um espelho para a plateia para vocês procurarem o vosso reflexo em qualquer uma das personagens. Ou em todas.”

“Querido Evan Hansen” estreia-se a 11 de setembro. Está em cena de quinta-feira a sábado, às 21h00, e ao domingo, às 17h00. Os bilhetes custam entre 20€ e 22€ e podem ser adquiridos na bilheteira do teatro ou online.

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