A candidatura de Bernardo Blanco ao Conselho Nacional da Iniciativa Liberal vai contar com a presença de Miguel Morgado e Adolfo Mesquita Nunes em dois eventos focados nas áreas de segurança e inteligência artificial. As leituras políticas ficam de parte, ao contrário do empenho do deputado na candidatura a um órgão interno do partido.
Tal como o Observador escreveu aqui, Bernardo Blanco não vai renovar o mandato na direção da IL e fica com a ficha limpa para cumprir um sonho antigo: a presidência dos liberais. Se não o fizesse, tendo em conta os estatutos do partido, não poderia voltar a candidatar-se à Comissão Executiva depois de oito anos de presenças consecutivas, pelo menos antes de um interregno deste género.
Com a bússola apontada para outros lados — assumindo que pretende abraçar outros projetos profissionais e pessoais —, Blanco não tira os olhos da IL, aposta no Conselho Nacional, mas não faz por menos e aproveita todo o networking dos últimos anos para mostrar que pode fazer diferente, nomeadamente depois de sublinhar que o partido precisa de “ultrapassar o passado rumo ao futuro”.
A candidatura, como Blanco já havia dito, tem como foco “investir mais tempo a fazer política para fora do que para dentro, com o objetivo de ter o Conselho Nacional a debater mais política e menos burocracia interna”. E, pelos vistos, começa já na campanha, onde haverá pelo menos dois eventos com convidados fora da IL, ainda que próximos de uma visão mais liberal. O social-democrata Miguel Morgado vai marcar presença num evento sobre Liberdade e Segurança, enquanto o ex-deputado do CDS-PP Adolfo Mesquita Nunes é o convidado de um outro evento sobre Inteligência Artificial.
Os eventos — “Conversa sobre AI com Adolfo Mesquita Nunes” e “Conversa sobre liberdade e segurança com Miguel Morgado” — serão ambos em Lisboa, nos dias 16 e 23 de janeiro, respetivamente.
Miguel Morgado assegurou ao Observador que “não há significado político nenhum” ao marcar presença no evento. Por sua vez, o Observador sabe que Adolfo Mesquita Nunes, que deixou a militância do CDS-PP há vários anos e que chegou a ser apontado como candidato a candidato presidencial da IL, não faz qualquer leitura política desta participação no evento de Blanco, até porque tem por hábito aceitar convites de outros partidos, nomeadamente de juventudes partidárias. Os dois já se cruzaram antes em terreno comum: o antigo democrata-cristão é um dos fundadores daquele que é considerado um think tank de liberais, o Instituto +Liberdade, e Miguel Morgado até foi um dos intervenientes no painel do evento de lançamento da organização, em 2021.
Bernardo Blanco justifica, em declarações ao Observador, que “a IL é um partido aberto e ouve visões de fora do partido”, reiterando que o objetivo da que encabeça é “discutir política para fora e menos burocracia interna”. “Queremos debater mais soluções para os portugueses e isso também se faz ouvindo outros atores externos”, sublinha, frisando que “o partido tem de crescer, mas também é importante que as ideias se expandam pela sociedade”.
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Miguel Morgado e Adolfo Mesquita Nunes são, diz, “duas pessoas conhecedoras do liberalismo, por motivos diferentes”, que Blanco admira e com quem tem uma “ótima relação”. Realça também o facto de se reverem na “necessidade de reformar o Estado em Portugal”. Além de chamar pessoas de fora do partido, o deputado liberal abre os eventos a toda a gente, membros e simpatizantes.
Na Convenção Nacional da IL, a lista encabeçada por Bernardo Blanco vai levar a votos duas moções setoriais sobre os temas que os dois convidados vão falar nestes eventos, sendo que a lista de Blanco já tinha apresentado três prioridades: “Lutar de forma vocal pela diminuição do Estado e combater a ocupação política do aparelho do Estado”, estar presente em temas como “segurança, justiça e imigração, dando uma resposta moderada a estas legítimas preocupações dos cidadãos que não devem ser deixadas aos extremos” e “colocar a mobilidade social e o crescimento económico baseado na desburocratização e na inovação no centro da agenda, em Portugal e na Europa”.
No que toca à moção sobre a inteligência artificial, a Lista F propõe que haja uma “profunda da máquina do Estado através de IA, tornando a administração pública num organismo ágil e eficiente, capaz de servir cidadãos num mundo em rápida transformação”, mas também que a transformação dos serviços fundamentais através do mesmo sistema, com o intuito de maximizar a “liberdade individual e eficiência institucional”.
Quanto ao tema da segurança, a lista de Blanco sublinha que o tema “necessita de racionalidade liberal, não apatia centrista ou berraria populista“, alertando que “o sentimento de insegurança quebra a confiança das pessoas e destrói o sentimento de comunidade, arrefece a atividade económica e impulsiona populismos que parasitam as divisões sociais”. Nas propostas a médio-prazo, Blanco sugere que a IL tenha uma posição definida sobre temáticas como “rácio de polícias, divisão entre funções administrativas e trabalho de rua, concurso e distribuição de polícias, policiamento de proximidade, formação policial para situações de stress, meios (instalações, viaturas, armas, tasers), uso de bodycams, inteligência artificial na polícia, iluminação pública, entre outros, apresentando benchmarking de outros países”.
Bernardo Blanco nunca escondeu a ambição de, um dia, chegar à presidência da Iniciativa Liberal. Fez parte da direção desde os tempos de Carlos Guimarães Pinto, foi escolhido por João Cotrim Figueiredo para o gabinete parlamentar quando a IL ainda só tinha um deputado único — e nunca deixou a direção do agora eurodeputado — e foi promovido por Rui Rocha a vice-presidente. Agora, cada vez mais, vai demonstrando que tem uma visão de futuro e que essa ambição é, mais do que um sonho, um plano traçado com vigor.
A jogada que levou a cabo com a saída da Comissão Executiva deixa-lhe o caminho livre, mesmo que não seja já daqui a dois anos, e a aposta em manter boas relações com figuras de outros partidos — até com convites como os que fez a Miguel Morgado e Mesquita Nunes — apenas prova que esta saída não é um afastamento. É, sim, um trabalho a longo prazo.