É o primeiro livro de Anne Carson (1950, Canadá), poetisa, ensaísta, classicista, e foi considerado um dos cem melhores livros de não-ficção de sempre pela Modern Library. Publicado pela primeira vez em 1986, chega-nos pelas Edições 70 com tradução de Tatiana Faia. O estilo de Carson é original, guiando o leitor por versos que sustentem teorias, mais do que partindo deles para sustentá-las, nunca seguindo um fio linear que possa obedecer a um índice. Em vez de advogar um sentido, a prosa vai-se fazendo cada vez mais ampla e, no caso, alicerçada em elementos cirúrgicos da poesia.

Eros, amargo e doce é um passeio sobre o amor na literatura e na filosofia da Grécia Antiga. O ensaio parte da utilização da palavra “agridoce”, por Safo, para descrever o amor, usando outros elementos da poesia lírica para mostrar o amor romântico como fonte de conflito, desconforto, desfasamento. Ao longo de dezenas de páginas, vai sendo dada uma visão um tanto pessimista do amor como garante de incompletude e ansiedade. E, para mais, tal parece ser transversal a toda a produção textual da Grécia Antiga.


Título: “Eros, amargo e doce”
Autora: Anne Carson
Editora: Edições 70

Tradução: Tatiana Faia
Páginas: 220

Enquanto explora a sua noção de Eros, Carson analisa fragmentos de poesia clássica, oferecendo ainda ao leitor uma visão panorâmica da produção poética da Grécia Antiga. Ou seja, parte do tema, mas deixa o leitor em contacto direto com o cânone. Enquanto disserta sobre o amor como coisa agridoce, a autora nunca deixa de tentar entender os motivos que levam à queda num estado que é pura ansiedade. O erotismo, assim, aparece como pressa, como vontade de alcançar, como impulso para a frente – como motor de busca da coisa desejada. Com isto, perspectiva-se o desejo como romantização da posse – e a própria posse é a morte do primeiro. A metáfora sobrepõe-se à vida, e o impulso é marcado pela excitação de passar a ter. O arco do desejo é, assim, interpretado como a triangulação entre o amante, o amado e os motivos que há entre ambos, o que faz com que, sem a impossibilidade, o desejo não exista com a mesma dimensão. O desejo, que é uma espécie de vontade de caçar, só existe por haver uma ausência, uma falha a colmatar, o que o transforma em projecção. Assim, o que se interpõe entre amante e amado é o paradoxo do triângulo:

(…) onde eros é carência, a sua activação invoca três componentes estruturais – amante, amado e aquilo que entre eles se interpõe. São três pontos de transformação no circuito possível de uma relação, electrificados pelo desejo de tal forma que se tocam sem se tocar. Unidos, são mantidos afastados. O terceiro componente tem um papel paradoxal, porque ao mesmo tempo liga e separa, denotando que dois não são um, irradiando a ausência suja presença é requerida por eros.” (p. 32)

Conseguir o que se sonha conseguir acaba por matar o sonho, tal como na fome. Assim, a condição sine qua non para a existência do desejo é a inexistência do que se procura, sendo a própria procura esse desejo:

O amante quer o que não tem. É, por definição, impossível para ele obter o que deseja se, assim que é obtido, deixa de estar em falta. Isto é mais do que um jogo de palavras. Há um dilema quanto a eros que foi julgado crucial por pensadores desde Safo até aos dias de hoje. Platão vira-o e revira-o. Quatro dos seus diálogos exploram o significado de dizer que só se deseja aquilo de que se tem carência, não à mão, não presente, nem na posse, ne no ser de uma pessoa: eros implica endeia.” (p. 23)

Apoiando-se no seu profundo conhecimento bibliográfico, juntando filosofia a poesia, Carson constrói um ensaio que, na prática, é sobre esse triângulo que vive do desejo de ser uma linha recta, mas que precisa do terceiro eixo para criar uma ligação. Além disso, como a prosa é escorreita, como as citações aparecem de forma orgânica e como são explicadas/contextualizadas/debatidas, não é preciso, a priori, um conhecimento escolástico sobre as fontes, que aqui aparecem sempre de forma orgânica, compondo um panorama retórico e artístico. A abordagem, ainda que confinada ao espaço temporal da Grécia Antiga, parece transhistórica, universal, em parte porque pega na carga emocional e psicológica que se entende como universal.

As referências, que são quase antológicas, confinam ao mesmo tempo que expandem: têm o modo de ver e, sobretudo, de dizer da época, mas usam a matéria orgânica do que se convenciona chamar, em referências literárias, “a experiência humana”. Claro, tudo isto é ainda performativo, com citações escolhidas a dedo para que seja composto um ensaio orgânico, quase objectivo.

A prosa é limpa, a estrutura flui, e o leitor é guiado entre os pensadores da Grécia Antiga, numa espécie de aula panorâmica, embora centrípeta no tema. Finda a leitura, salta à vista a ideia de amor como desconforto, mas também o próprio desconforto como motor da vida, o que faz com que, pesados os elementos, reste a reflexão filosófica – e até poética, como se vê pela bibliografia usada – sobre o paradoxo.

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia