Há muito que as coisas não estavam bem entre Benfica e Pedro Pablo Pichardo. Aliás, só mesmo uma série de diligências entre intermediários dos mais diversos quadrantes conseguiu desbloquear a inscrição de atleta de 31 anos pelos encarnados no ano passado, uma condição para que se pudesse juntar à Missão portuguesa nos Jogos Olímpicos de Paris. Competiu, sagrou-se vice-campeão depois do título em Tóquio-2020, voltou ao tema na zona mista do Estádio Olímpico. No dia da competição, criticou. No dia seguinte, após receber a sua medalha de prata, mostrou esperança. Agora, a gota de água chegou e rescindiu de forma unilateral.

“Devido a divergências irreconciliáveis com o Sport Lisboa e Benfica, que inviabilizam a minha continuidade, decidi deixar de ser atleta do clube, conforme comuniquei hoje [segunda-feira] mesmo à entidade. O assunto está a ser levado às instâncias competentes, pelo que a partir deste dia não irei mais pronunciar-me sobre este tema, focando-me única e exclusivamente na vertente desportiva”, anunciou Pichardo através de um curto comunicado, onde anunciou a rescisão unilateral sem anunciar onde irá prosseguir a carreira.

Nos últimos sete anos da minha carreira profissional sagrei-me, entre outros títulos conquistados, campeão olímpico de triplo salto, campeão do mundo de atletismo e campeão europeu. Conquistei ainda três Ligas de Diamante de atletismo”, recordou o atleta de 31 anos.

“Quero agradecer publicamente aos adeptos do Sport Lisboa e Benfica, aos meus patrocinadores, à Federação Portuguesa de Atletismo, ao Comité Olímpico de Portugal e à Câmara Municipal de Setúbal pelo apoio incondicional ao longo destes anos, sem os quais não teria sido possível atingir os objetivos”, destacou. Já na página oficial no Instagram, onde chegou também a deixar algumas mensagens em publicações ou nos comentários, o campeão olímpico, mundial, europeu e nacional do triplo salto apagou tudo o que tinha para trás e deixou apenas um vídeo com as principais conquistas e a mensagem “Tchau…” com uma flor. Esta acabou por ser a “surpresa” depois dos últimos capítulos, tendo em conta que as divergências se tinham acentuado nos últimos meses com os encarnados, que não pensavam inscrever o atleta na nova temporada.

“O Sport Lisboa e Benfica informa que Pedro Pablo Pichardo foi notificado no passado dia 3 de janeiro de 2025 de um processo disciplinar com vista ao seu despedimento. Em causa está a falta de comparência de Pedro Pablo Pichardo a exames médicos para os quais estava convocado depois dos Jogos Olímpicos, bem como o facto de ter recusado a inscrição na plataforma de atletas, apesar de ter sido por diversas vezes solicitado para tal. Uma decisão que tem impedido, entre outras consequências, a sua participação em provas ao serviço do Benfica. O Benfica irá fazer prevalecer os seus direitos na defesa do bom-nome e dos interesses do clube”, confirmou o clube da Luz em comunicado uma hora depois.

Fica agora por saber onde vai treinar e residir Pedro Pablo Pichardo, que fazia toda a sua vida profissional e pessoal em Pinhal Novo trabalhando sobretudo no Complexo Municipal de Atletismo de Setúbal. E isso irá também ter influência no calendário de 2025, que apesar de ser um ano pós-Jogos não deixará de ter várias competições internacionais além da Liga Diamante: Campeonato da Europa em Pista Coberta no início de março (Apeldoorn, Países Baixos), Campeonato do Mundo em Pista Coberta na terceira semana de março (Nanjing, China) e Mundiais ao Ar Livre em setembro (Tóquio). Em Paris, além de estar com o pai e treinador Jorge, o saltador contou com outro técnico nas bancadas do Estádio Olímpico.

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2024, um ano de viragem entre a (quase) não inscrição e a zona mista de Paris

As críticas de Pedro Pablo Pichardo às alegadas faltas de condições de trabalho e ao comportamento do seu clube (sobretudo as divergências que foi tendo e manifestando com Ana Oliveira, diretora do departamento olímpico do Benfica) têm algum tempo mas foram mais extremadas ao longo do último ano, a ponto de o próprio atleta que se sagrou vice-campeão olímpico em Paris admitir mesmo terminar a carreira.

“Final da carreira? Eh pá, é uma sensação muito complicada… Há uns anos atrás tinha prometido à minha mãe que ia acabar nos Jogos Olímpicos de Los Angeles mas os últimos anos têm sido complicados, com os problemas do clube, lá em Portugal também não temos apoios, o Governo também só olha para o futebol. Nós somos atletas, temos de estar aqui mas não temos apoio nenhum. Tenho, graças a Deus, o apoio de um patrocínio que é a Puma… É complicado, ok? O primeiro-ministro vem cá? O que pedia se falasse com ele? Apoio. Ao Governo, ao primeiro-ministro, ao Presidente… Sei que aqui em Portugal é só futebol e tal mas somos atletas, também precisamos de um bocadinho”, referiu após a final do triplo salto.

“Não pedimos muito, é só um bocadinho daquilo que dão ao futebol. Resolver a situação com o Benfica? Espero reunir com o presidente em breve, quando chegar a Portugal quero reunir o mais rapidamente possível para ver se arranjamos uma solução, a ver se a diretora do clube me deixa em paz, a Ana Oliveira… A Câmara de Setúbal faz o possível, liga para o clube para pedirmos apoio, não temos apoio, é preciso arranjar os buraquinhos na pista que não está boa, a caixa da areia não está boa, o ginásio não está… É complicado, de segunda-feira a sábado aquele treino com faltas de apoio, treino… Não é fácil… Vou tentar reunir com os responsáveis o mais depressa possível a ver se encontramos uma solução, se me deixam sair…”, frisou.

“Recebi uma mensagem do presidente do Benfica, também de muitos amigos e portugueses que têm o meu contacto, da minha família. Primeiro-ministro? Sim, vi-o hoje na Aldeia, cumprimentámo-nos, deu-me os parabéns e tentei passar a mensagem para podermos marcar um encontro. Não sei se será possível, não sei como funcionam as coisas mas passei essa mensagem para reunir com ele. Acho que os políticos e o pessoal que está acima de nós no desporto têm de começar a ter reuniões e a ouvir mais os atletas, é sempre com os outros dirigentes mas nunca se reúnem com os atletas e deviam, perceber o que precisam, o que é que acham, se as coisas estão a correr bem, acho isso importante e espero ter essa reunião com ele para que as coisas possam melhorar para mim e para todos os atletas portugueses”, comentou no dia seguinte, quando recebeu a medalha de prata, mostrando-se também agastado com as visitas dos médicos anti-doping.

“Ontem [Dia da final] tiraram-me sangue dos dois braços, estou a começar a ficar cansado de andar sempre no anti-doping. Já fiz uma reclamação, acho que durante o ano já vou em 20 testes anti-doping seguidos não sei porquê. Vão a casa, vão fora do horário, vão ao treino… Andam a perseguir-me em todo o lado. Eu nunca tive nenhum problema com doping, nunca dei positivo em nada, não sei o que se passa. Já fiz uma reclamação através do meu empresário”, explicou Pedro Pablo Pichardo a esse propósito em Paris.

Já antes, em 2023, Pichardo tinha abordado a situação que vivia na Luz através de um comentário feito numa publicação de um antigo funcionário do clube no Facebook. “Triste a verdade. Nem parece que sou atleta do clube ou que o problema começou pelo clube e o moço… Se ainda tivesse relações de amizade com aquela pessoa de certeza que a página do SLB Atletismo e não só, até a página pessoal estivesse cheias de publicações e comentários, mas como já não há relações…. O tal silêncio. Nunca serão profissionais, tudo é interesse pessoal”, disse na altura, num comentário que não demorou a ser apagado pelo próprio.

De recordar que Pedro Pablo Pichardo, que por Cuba já tinha sido duas vezes vice-campeão mundial ao ar Livre e mais uma em Pista Coberta, chegou a Portugal em 2017 para representar o Benfica no seguimento da polémica saída de Nelson Évora para o Sporting. Em menos de um ano conseguiu adquirir a nacionalidade portuguesa, estreando-se curiosamente na única grande prova internacional pela Seleção em que não foi ao pódio: o Campeonato do Mundo ao Ar Livre de Doha, em 2019, onde terminou em quarto. A partir daí, o saltador foi criando um dos maiores palmarés nacionais no atletismo: campeão europeu em Pista Coberta e campeão olímpico em 2021, vice-campeão mundial em Pista Coberta e campeão mundial e europeu ao Ar Livre em 2022, campeão europeu em Pista coberta em 2023 e vice-campeão europeu ao Ar Livre e olímpicos em 2024. Agora, a dúvida centra-se no futuro, tendo três grandes competições em 2025.