“Um homem que se confunde com a própria essência da alma portuguesa”, rotulou o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas. Um músico que “transformou o seu corpo numa extensão da guitarra portuguesa, ou a guitarra portuguesa numa extensão do seu corpo, e a sua vida numa extensão da sua arte”, destacou por seu lado a ministra da Cultura, Dalila Rodrigues. Uma figura cujo legado “afirma-se ainda hoje como uma obra aberta, plural, ponto de partida e de chegada de muitas outras artes, como o cinema, o teatro, a dança ou a poesia”, frisou a diretora do Museu do Fado, Sara Pereira.
Artista fundamental do século XX português, Carlos Paredes — que morreu a 23 de julho de 2004 — terá o centenário do nascimento celebrado no dia 16 de fevereiro, sendo este acompanhado de um extenso programa comemorativo que extravasa fronteiras geográficas e artísticas. Sob o título “Variações para Carlos Paredes”, a programação apresentada esta segunda-feira no Museu do Fado consiste em mais de uma centena de concertos, documentários, colóquios e workshops, assim como um programa de (re)edição da obra fonográfica integral do artista e que vai incluir alguns inéditos.
As celebrações — cuja programação pode ser consultada na íntegra no website oficial lançado esta segunda-feira e que foi explicitada ponto a ponto por Sara Pereira — assentam em “três grandes linhas de abordagem”, como destacou a ministra da Cultura no seu discurso: Artes Performativas e Música; Investigação, Memória e Património; Programas Educativos.
Quanto ao primeiro ponto, é o que arranca as comemorações, ainda antes do centenário propriamente dito. A 5 de fevereiro, há concerto da Orquestra Metropolitana de Lisboa no Teatro Municipal São Luiz, antes do espetáculo de tributo Perpétuo, no dia seguinte, no Centro Cultural de Belém. Trata-se de uma performance não só de música — com intérpretes como Bernardo Couto, Gaspar Varela, Ricardo Parreira, Luís Guerreiro, Nelson Aleixo, Francisco Gaspar, Ricardo Toscano e Maria Sá Silva, entre outros —, mas também de dança, contando com os bailarinos Guilherme Leal e Margarida Belo Costa e com encenação de Diogo Varela Silva.
Na data do aniversário propriamente dito, a 16 de fevereiro, a festa decorre na Aula Magna da Universidade de Lisboa, com um concerto com a presença de nomes como Luísa Amaro — guitarrista e companheira de Carlos Paredes —, o compositor Carlos Alberto Moniz, a cravista Joana Bagulho, os pianistas Mário Laginha e Ana Telles e a cantora A Garota Não.
Após esta primeira salva de comemorações decorridas em Lisboa, estas espalhar-se-ão, cumprindo um desígnio de “abrangência geográfica” que fará de Carlos Paredes “presente em todo o país”, como sublinhou Dalila Rodrigues, estendendo-se também às regiões autónomas. É por isso que haverá iniciativas como um concerto de Mário Laginha em Braga, uma digressão nacional dos guitarristas Norberto Lobo e Ben Chasny de Faro a Ponta Delgada ou um concerto para guitarra portuguesa e orquestra no Convento de São Francisco em Coimbra.
No entanto, a celebração de Carlos Paredes também vai acontecer fora de Portugal, a começar pela presença do trio Alvorada na delegação portuguesa na Exposição Mundial de Osaka — emulando um périplo semelhante que o guitarrista fez em 1970, à mesma cidade japonesa e com o mesmo propósito. Ao todo, serão organizados concertos e festivais internacionais em 17 cidades de 12 países espalhados por quatro continentes, em locais como Xangai, Atenas, Barcelona, Rabat, Cidade do México, Buenos Aires e Montevideu, tendo como representação artistas como Carminho, Teresinha Landeiro, António Zambujo ou Kátia Guerreiro.
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Quanto à segunda vertente, do património e da memória, o Arquivo Nacional do Som vai empreender num “plano estratégico de salvaguarda e conservação da obra fonográfica de Carlos Paredes”. Este vai consistir em ações como a “elaboração de uma discografia” da sua obra, a “ser difundida (online) pelas várias escolas de todos os níveis de formação” ou pela recolha “de suportes de som e documentos sonoros” do artista.
No entanto, este segundo pilar das comemorações também vai incidir na criação de duas exposições. Se Variações para Carlos Paredes, a acontecer no Museu do Fado entre maio e dezembro e com curadoria de Ivan Dias e António Manuel Nunes, terá um cariz antológico e direito a um catálogo, Asas sobre o Mundo será itinerante e passará pelos festivais acima destacados. À boleia das celebrações, haverá também espaço para edições e reedições, para a divulgação de dois documentários sobre o artista — Paredes Guitarrista, de Graça Castanheira, e Regresso, de Ivan Dias — e para a realização de dois colóquios subordinados a esse mesmo tema.
▲ A ministra da Cultura, Dalila Rodrigues, esteve presente na apresentação das comemorações do centenário de Carlos Paredes
MANUEL DE ALMEIDA/LUSA
Por fim, no plano educativo, a ministra da Cultura deixou um repto: “O que somos nós, sem a passagem de testemunho?” É com esse entendimento que vai ser lançada em maio a plataforma TOCABEM, para o ensino online de guitarra portuguesa e viola, e será realizado já em fevereiro um workshop de interpretação do repertório de Carlos Paredes, sob tutela do músico Pedro Jóia.
Nesse mesmo mês inicia-se também uma oficina de construção de guitarras portuguesas, a ter lugar na Oficina da Guitarra até ao final do ano, sendo que em setembro dar-se-á também a estreia do espetáculo de teatro musical 100 Paredes no Maria Matos, a cargo de um conjunto de 36 alunos dos 9 aos 18 anos do Agrupamento de Escolas Nuno Gonçalves, em Lisboa.
Outro aspeto importante da vida de Carlos Paredes — a sua militância antifascista e a sua prisão pela PIDE em 1958 — será destacada num roteiro organizado em colaboração entre o Museu do Aljube — onde o músico esteve detido durante um mês, antes de ser enviado para o Forte de Caxias — e o Museu do Fado. Fora esta iniciativa, ausente das celebrações oficiais parece estar a ligação do guitarrista ao PCP, motivo aliás pelo qual foi preso pela polícia política nos anos 50.
Criado em julho de 2024 pelo Ministério da Cultura, o grupo de trabalho responsável por este programa foi coordenado por Levi Batista (executor do testamento de Carlos Paredes), fazendo dele parte Sara Pereira, o coordenador da equipa de instalação do Arquivo Nacional do Som, Pedro Félix, o historiador António Nunes e Filipa Alfaro (Ministério da Cultura). A colaborar com o governo português esteve também a EGEAC Lisboa Cultura.
Um artista que se fez em Lisboa, mas de “pendor universalista”
No decurso da apresentação deste programa, Carlos Moedas destacou naturalmente a ligação de Carlos Paredes a Lisboa, já que nasceu em Coimbra mas passou grande parte da sua vida na capital, onde encontrou “uma fonte inesgotável de inspiração”. “Ele é parte daquilo que somos. Carlos Paredes foi realmente um homem genial, mas que representou como poucos, diria muito poucos, aquilo que representa ser lisboeta. Portanto, é uma grande honra para a Câmara Municipal de Lisboa”, afirmou aos jornalistas.
Já antes, no seu discurso feito no auditório do Museu do Fado, alinharia pela mesma matriz. “Celebramos a imortalidade de um homem cujas notas ecoam em cada esquina do nosso país, desde a Coimbra estudantil em que nasceu, até a Alfama Mourisca que eternizou com a sua guitarra. Cada coração que ama esta cidade e este país vibra com o dedilhar do seu instrumento, porque a paisagem lisboeta se reflete nesta melodia tão única”, afirmou o autarca.
▲ Carlos Paredes e o contrabaixista Charlie Haden, co quem tocou ao vivo e colaborou em estúdio
Sendo o edil responsável por fazer de Lisboa palco das celebrações a Carlos Paredes, Moedas destacou o peso desse papel assim como a oportunidade para a capital celebrar a sua identidade. Tratando-se de uma cidade “com alma própria” mas “em constante reinvenção”, o autarca traçou um paralelismo com a obra do artista, porque “com a sua guitarra, foi também ele um mestre da reinvenção, transformando melodias populares numa forma de arte intemporal, transformando para sempre o Fado”.
Moedas apontou também para o cariz global de Lisboa enquanto uma “capital mundial da cultura”. “Estas celebrações são um convite para que o mundo conheça a alma lisboeta através do grande Carlos Paredes. Mas também uma ponte para que nos liguemos a outras culturas. Ao levarmos o legado de Carlos Paredes para fora de Portugal, mostramos que a guitarra portuguesa não é só um símbolo nacional, é um património da humanidade”, apontou.
Essa foi, de resto, uma das notas chave do discurso de Dalila Rodrigues, frisando como Carlos Paredes entregou-se a uma “mistura de influências eruditas e populares” que refletiu “uma curiosidade incessante e a confluência de várias artes, como o cinema, a poesia e a dança, artes que ajudaram a atirar o seu repertório para um lugar cada vez mais longínquo, longe do fado e cada vez mais universalista”.
Fazendo questão de juntar estas celebrações às dos 500 anos da morte de Vasco da Gama e dos 500 anos do nascimento de Luís de Camões, a ministra da Cultura justificou essa colação porque os três tratam-se de “figuras históricas que têm em comum o facto de serem matriciais, decisivas, não apenas na história da cultura portuguesa, mas no que somos também enquanto país”.
“A Carlos Paredes é reconhecida a capacidade e inovação técnica e artística que permitiu criar uma voz própria para a guitarra portuguesa, tornando-a um instrumento solista. É para mim, e talvez para todos nós, um dos mais poderosos legados musicais que, com legitimidade ou sem ela, associamos à portugalidade. É evidente que as identidades constroem-se e reconstroem-se incessantemente. O lugar de Carlos Paredes tem um papel fundamental no que hoje consideramos serem elementos matriciais da nossa identidade”, declarou.
Dado esse peso histórico e esse legado artístico, Dalila Rodrigues aproveitaria para recordar uma citação de outra das figuras maiores do Fado e da música portuguesa, Amália Rodrigues. “Dizia que Carlos Paredes é os Jerónimos da guitarra portuguesa. Ora, nós sabemos que os Jerónimos são os monumentos dos monumentos portugueses, e portanto assim Amália categorizou-o, como um génio da guitarra portuguesa”.