Os alarmes começaram a soar na passada quinta-feira, 23 de janeiro. O Louvre, possivelmente o museu mais popular do mundo, está a soçobrar perante as enchentes de turistas e a falta de renovação, resultando em condições obsoletas que prejudicam a experiência da visita e colocam em risco a integridade das obras de arte expostas. Já esta terça-feira, o Presidente francês veio publicamente confirmar que a remodelação está a caminho e que a Mona Lisa terá uma nova sala, dedicada à pintura de Da Vinci. A pergunta seguiu-se de forma imediata: quanto vai custar?
O aviso foi feito pela própria diretora do museu, Laurence des Cars, numa carta confidencial enviada à ministra da Cultura francesa, Rachida Dati, a 13 de janeiro, mas entretanto revelada pelo jornal Le Parisien. A publicação de tal missiva levou o Presidente de França, Emmanuel Macron, a marcar uma visita para esta terça-feira ao espaço, prometendo um “Louvre redesenhado, restaurado e ampliado”, que pretende que se torne ‘o epicentro da história da arte” para França “e não só”.
Em causa está aquilo que des Cars descreve como a “multiplicação de danos nos espaços museológicos, alguns dos quais se encontram em muito mau estado”, assim como “equipamentos técnicos obsoletos”. Em 2025, aquele que é o mais prestigiado museu do mundo está a sofrer infiltrações em alguns espaços, ao passo que outros “registam variações significativas de temperatura, pondo em risco a preservação das obras de arte”. A título de exemplo, uma fuga de água particularmente grave em 2023 provocou o encerramento de uma exposição dedicada ao pintor francês Claude Gillot, quatro dias após a inauguração.
Alguns dos problemas que afetam o Louvre estão relacionados com o facto desta ser uma estrutura de vários séculos — o museu foi fundado em 1793, mas o edifício já existia desde o século XII —, mas outros prendem-se com as suas adições mais recentes, como a pirâmide de vidro, no exterior, que é vista como “estruturalmente ultrapassada”. Inaugurada em 1988, foi projetada pelo arquiteto Ieoh Ming Pei para processar a entrada de cerca de quatro milhões de visitantes por ano, mas em 2024 esse número já tinha ascendido para quase nove milhões — mais do dobro, portanto. Além disso, faz efeito de estufa dentro da estrutura, tornando os dias de calor especialmente desconfortáveis para quem aguarda pela sua vez de entrar.
Além das questões estruturais, o excesso de visitantes está a causar “pressões físicas” no espaço, mal preparado para receber tanta gente. “As opções alimentares e as instalações sanitárias são insuficientes em termos de volume, ficando muito aquém das normas internacionais. A sinalética precisa de ser completamente redesenhada”, lê-se na carta. Tudo isto, lamenta des Cars, leva a que visitar o Louvre seja “uma provação física”.
Esse mal estar dos visitantes ficou plasmado num artigo do The Guardian publicado esta terça-feira. Um casal que conduziu da Bélgica até Paris para mostrar o museu à neta de 12 anos, por exemplo, afirmou que não voltará e que o Louvre tornou-se “numa vítima do seu sucesso”. Já uma mulher septuagenária, visitante regular do museu nos últimos 40 anos, diz que saiu da exposição temporária patente num “estado de fadiga extrema”, jurando “nunca mais voltar a visitar”.
“Estou a sair num estado de fadiga extrema e jurei nunca mais voltar a visitar”, disse ela, recusando-se a dar o nome. “O barulho é insuportável debaixo da pirâmide de vidro; é como uma piscina pública. Mesmo com um bilhete com hora marcada, há uma hora de espera lá fora. Não posso continuar a fazê-lo. É suposto os museus serem divertidos, mas isto já não tem piada. Já não há prazer em vir aqui. E para sair, somos obrigados a percorrer toda a extensão de uma galeria comercial para forçar as pessoas a comprar coisas — os interesses comerciais apoderaram-se de tudo”, desabafou ao jornal britânico.
A tinta a descascar num dos espaços do museu denota a necessidade de renovação.
A Gioconda sorri, o staff do Louvre não
No epicentro da crise que atravessa o museu está Mona Lisa, pintura de Leonardo da Vinci e principal cartão de visita para o Louvre. A sala que acolhe a obra do século XVI não foi afetada pelos problemas acima descritos, mas há muito que se tornou demasiado diminuta para receber os perto de 20 mil visitantes que a ocupam todos os dias.
É preciso “reavaliar” a forma como esta obra é apresentada ao público, aponta des Cars à ministra da Cultura, sendo que não é a primeira vez que a responsável máxima do Louvre alerta para esta situação. Em 2024, por exemplo, sugeriu em entrevista à rádio France Inter que a solução poderia passar por tirá-la da Salle des Etats — o maior salão do museu, povoado também por outras obras — e dedicar-lhe um espaço exclusivo. Uma das hipóteses cogitadas chegou a ser colocá-la numa câmara na cave do edifício, mas tal opção não foi tomada.
Se o problema da forma como a Mona Lisa é exposta não é novo, os restantes também não, tendo a atual diretora do Louvre vindo a alertar para o que considera ser um “ponto de saturação” do museu desde que assumiu funções, em 2021. Como tal, procedeu a medidas como a imposição de um limite máximo de 30 mil visitantes por dia — eram 45 mil pré-pandemia. Já depois da sua carta ter sido divulgada, assumiu publicamente os reparos que tinha feito em privado. “É meu dever como presidente consciencializar-nos quanto a estas questões, e já fiz isso em várias ocasiões”, atirou.
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Tal reconhecimento da chefia ecoa as queixas de quem trabalha no museu. Em declarações à BBC, Christian Galani, do sindicato dos empregados do Louvre, afirma que “não há um dia sem que haja um novo sinal do declínio do edifício — pintura a descascar, salas de exposição e de armazenamento inundadas, cortes de eletricidade, pagamentos em atraso aos empreiteiros porque não há dinheiro”.
“Quando chove muito, a água escorre por vezes para os quadros expostos. Temos de fechar as salas todos os dias. Cada vez mais, os elevadores também estão avariados. Nenhum dos nossos avisos foram ouvidos”, lamentou, por seu lado, Élise Muller, segurança do Louvre e secretária nacional do sindicato Sud Culture, ao France24. A falta de condições de trabalho no Louvre, de resto, já levou a greves no passado, inclusive sem aviso prévio, como a 27 de maio de 2019, deixando milhares de potenciais visitantes apeados. Uma das causas para tal ação foi o facto do museu ter vindo a sofrer uma acentuada redução de pessoal.
O Presidente Francês Emmanuel Macron, num discurso a partir do Louvre, com a “Mona Lisa” em pano de fundo.
Uma “Nova Renascença” a caminho do Louvre, mas com que dinheiro?
O Palácio do Eliseu reagiu assim que a crise do museu foi tornada pública, revelando na sexta-feira que Emmanuel Macron estava a par dos problemas há vários meses e que visitaria o Louvre esta semana para fazer um comunicado. “O Louvre é um símbolo da França. É uma fonte de orgulho francês. Seria um erro ficar surdo e cego perante os riscos que o museu enfrenta atualmente”, lê-se no comunicado do seu gabinete, citado pela imprensa francesa.
A resposta chegou esta terça-feira, com a pompa e circunstância a que Macron tem habituado. Sob o slogan “Nova Renascença” e com a obra de da Vinci como pano de fundo, o presidente francês anunciou que o museu vai ser alvo de uma grande reforma, tornando-se assim num “Louvre redesenhado, restaurado e ampliado”, que pretende que se torne ‘o epicentro da história da arte” para França “e não só”.
Além disso, o chefe de Estado francês propôs solucionar alguns problemas acima descritos e denunciados pela diretora do Louvre, anunciando que a Mona Lisa vai ter a sua própria sala dedicada debaixo do Cour Carrée, um dos principais pátios do ex-palácio, e que vai ser criada uma nova entrada na Colunata Perrault, a fachada este do museu, junto ao rio Sena. Tais projetos têm como prazo 2031, mas toda a renovação deverá decorrer nos próximos 10 anos.
A grande incógnita em relação a este projeto da “Nova Renascença” para o Louvre é como será apoiado e quanto custará. Macron falou num empreendimento “realista” e que “será financiado pelos recursos próprios do museu, sem sobrecarregar os contribuintes”. No entanto, a projeção dos custos estará na ordem dos 700 a 800 milhões de euros, avança o Le Parisien.
Além disso, tratando-se de uma instituição pública, não está claro como é que o Louvre terá capacidade de autofinanciar estas obras. Christian Galani sinalizou ainda antes das declarações de Macron que o financiamento do Estado tem vindo a diminuir. “O orçamento provisório para 2025, apresentado ao Conselho de Administração em novembro, previa uma deterioração de 52 milhões de euros em relação ao orçamento inicial para 2024”, afirma.
Por outro lado, as receitas em bilhética, por exemplo, apenas contribuem para um terço do orçamento anual do museu, com cada entrada a custar 22 euros. Quanto a esse respeito, o presidente francês adiantou que a ideia de cobrar bilhetes mais caros para estrangeiros de fora da UE — que já tinha sido sugerida pela ministra da Cultura — deverá ir para a frente a partir de 2026 e abarcará também outros museus e monumentos. Além disso, a comitiva de Macron também já fez saber que as obras serão em parte apoiadas por verbas disponibilizadas pelo Louvre Abu Dhabi e por convites ao mecenato.
Esta incógnita quanto ao financiamento das obras do Louvre é tanto mais adensada pelo facto da França enfrentar um défice público significativo e ainda não ter conseguido aprovar um orçamento para 2025. Além disso, o Estado já vai ter de despender 262 milhões de euros para as obras do Centro Pompidou, o museu de arte moderna que encerrará durante cinco anos a partir de setembro de 2025.
As últimas obras significativas de renovação do Louvre decorreram na sequência dos grandes projetos arquitetónicos de François Mitterrand, entre 1981 e 1993. Macron, de resto, têm tido uma igual relação com a monumentalidade, fazendo o seu discurso de vitória em frente ao museu após a sua primeira eleição em 2017. Além disso, os jardins das Tulherias em torno do antigo palácio também desempenharam um papel proeminente durante os Jogos Olímpicos de Paris de 2024.