O primeiro-ministro sérvio Miloš Vučević demitiu-se esta terça-feira, depois de cinco estudantes sérvios terem relatado ter sido atacados por membros do partido no governo, o Partido Progressista Sérvio (SNS), na cidade de Novi Sad. O ataque, que aconteceu na segunda-feira à noite, coincidiu com um protesto em que estudantes bloquearam durante um dia um dos principais cruzamentos de Belgrado. Os estudantes protestam há semanas contra a corrupção do governo depois de o telhado de uma estação de comboios ter desabado em Novi Sad, matando 15 pessoas.
“O partido que lidero tem de mostrar o maior grau de responsabilidade, tem de mostrar que é responsável. E é por isso que depois dos eventos de ontem à noite [segunda-feira] em Novi Sad, a minha decisão irrevogável é a demissão da posição de primeiro-ministro”, afirmou Vučević esta terça-feira em conferência de imprensa.
Os estudantes estariam a grafitar caixotes do lixo, com apelos ao protesto, em frente à sede do SNS na segunda maior cidade da Sérvia quando foram atacados por membros do partido. Apesar de ter condenado o ataque, o líder do partido declarou que os atacantes estavam apenas a defender o edifício, depois de terem visto pessoas “a rabiscar nas imediações”. Uma rapariga de 23 anos continua internada na sequência deste ataque.
“O meu apelo é para que todos acalmem as paixões e regressem ao diálogo“, rematou Miloš Vučević, que tambem anunciou a demissão do presidente da Câmara de Novi Sad. Na segunda-feira, o Presidente Vučić, numa conferência de imprensa com o então primeiro-ministro e a presidente do parlamento, já tinha dito que iria remodelar o governo e dialogar com os manifestantes.
Milhares de pessoas manifestam-se na Sérvia contra Presidente
Como o acidente em Novi Sad despoletou os protestos estudantis (e possíveis eleições antecipadas)
A morte de 15 pessoas quando o telhado da estação de comboios de Novi Sad, caiu, a 1 de novembro, foi o catalisador para os protestos. A estação foi alvo de obras em 2021, no âmbito de um projeto de renovação de toda a estrutura ferroviária sérvia, levada a cabo por empresas estatais chinesas. Os trabalhos foram retomados em 2024 para que a estação passasse a cumprir “as normas europeias”, justificaram as autoridades.
Queda do telhado numa estação de comboios faz pelo menos 12 mortos na Sérvia
Na sequência da queda do telhado, o Ministério Público da Sérvia acusou treze pessoas de terem posto em perigo a segurança pública — entre eles estava o então ministro da Construção, Transporte e Infraestruturas, Goran Vesić, e vários membros do seu Ministério. Vesić chegou a ser detido, mas foi libertado pouco depois, o que aumentou as acusações de corrupção e levou os manifestantes a questionar a independência da investigação.
Os estudantes têm realizado protestos regulares desde novembro em várias cidades da Sérvia: em silêncio, bloqueiam as estradas durante 15 minutos, em memória dos 15 mortos. Inicialmente, tinham apenas uma exigência: a publicação de todos os documentos relativos à renovação da estação de Novi Sad. Os manifestantes também ocuparam algumas faculdades, com a mesma reivindicação.
No entanto, o incidente da noite de segunda-feira não foi o primeiro desde que as manifestações começaram. Ao longo dos últimos meses, foram registados vários ataques violentos contra os estudantes. Em duas ocasiões, carros avançaram contra a multidão e feriram duas jovens com gravidade. Os estudantes reagiram à violência com novas exigências.
Pedem agora investigações a todos os que estiveram envolvidos nos ataques contra estudantes — e a posterior demissão caso sejam identificados como funcionários públicos –, a suspensão das investigações contra estudantes envolvidos nos protestos e um aumento de 20% no orçamento para o ensino superior.
Agricultores, com os respetivos tratores, e motards acorreram ao bloqueio desta segunda-feira em Belgrado, em resposta a pedidos deixados pelos estudantes nas redes sociais, para que garantissem a segurança dos manifestantes, relatou um motard presente no protesto à Balkan Insight.
Apresentada a demissão, o parlamento tem 30 dias para aprovar um novo executivo. Caso contrário, a Sérvia avança para eleições legislativas antecipadas. O SNS, populista e de centro-direita, está no poder desde 2012. O Presidente, também do SNS, ocupa o cargo desde 2017 e enfrenta acusações de ter traçado um rumo autocrático para o país.
Notícia atualizada com as declarações do primeiro-ministro demissionário e mais informações às 12h50