“Sabia que estava a ser beijada pelo meu chefe. E isso não acontece e não deve acontecer em nenhum ambiente social”. Foi desta forma que Jenni Hermoso analisou esta segunda-feira em tribunal o beijo “não consentido” do ex-presidente da Federação Espanhola de Futebol, Luís Rubiales, após o último Campeonato do Mundo de futebol feminino.

A polémica em torno do beijo acabou por abafar as celebrações pela histórica conquista de Espanha. “Agarrou-me na cabeça com efusividade”, comentou Jenni Hermoso sobre a conduta de Rubiales na cerimónia de entrega das medalhas, continuando: “Sem que eu pudesse reagir em momento algum“.

No primeiro dia do julgamento de Luis Rubiales, a quem é imputado um crime de agressão sexual — pelo beijo não consentido — e outro de coação — pelas alegadas pressões para que não houvesse uma denúncia sobre este caso —, a futebolista não escondeu a falta de respeito que aquele gesto representou.

“Senti-me desrespeitada. Acho que foi um momento que manchou um dos dias mais felizes da minha vida e, para mim, é importante dizer que em nenhum momento procurei este ato, muito menos o esperava. Fui desrespeitada“, respondeu Jenni Hermoso, quando questionada se se tinha sentido violada na sua integridade sexual enquanto mulher.

A internacional espanhola revelou ainda nunca ter ouvido um pedido da parte do ex-presidente da Federação Espanhola para avançar sobre ela e dar um beijo, salientando também que não autorizaria um eventual pedido desses: “Não ouvi nem percebi nada. A seguir, quando ele pôs as mãos nas minhas orelhas, foi o ato de me beijar na boca. (…) Não o senti nem o vi fazer qualquer tipo de pergunta com a boca”.

Pressões para abafar controvérsia começaram ainda no estádio

Segundo a jogadora, que foi interrogada durante mais de uma hora na Audiência Nacional, em Madrid, as pressões para desvalorizar o caso começaram ainda no estádio, após a final do Mundial na Austrália e de o beijo se tornar viral na Internet. “Disse-me que se estava a falar muito nas redes sociais, que estava a ficar complicado, que podíamos parar com isso de alguma forma. Eu disse: ‘vai ter de ser você, porque sabe que isto não está certo’. Ele disse ‘tu sabes que eu fiz isso pela euforia, no momento’”, contou, acrescentando que Rubiales ainda fez outro comentário: “Ele disse ‘tu e eu gostamos da mesma coisa’”.

Já no aeroporto, Jenni Hermoso revelou que os assessores da seleção espanhola mostraram-lhe um comunicado de imprensa para divulgar sobre o caso e que não teve qualquer participação na sua elaboração. “Disseram-me para o ler, que o tinham escrito para o poderem enviar para as notícias e para que o tumulto que estava a acontecer se acalmasse e o fogo se extinguisse. Eu não tinha escrito uma palavra dessa declaração“, indicou.

“Recebi ameaças de morte. Tivemos de sair de Madrid, porque a situação era insustentável”, revelou ainda a futebolista, que lamentou que ninguém da federação se tenha preocupado com a situação ou com as suas condições psicológicas: “Ninguém se dignou a perguntar-me como estava e o que se passava na minha cabeça. Senti-me desprotegida”.

A Procuradoria espanhola defende uma pena de dois anos e meio de prisão para Luis Rubiales, num processo em que também são acusados o ex-treinador da seleção feminina de Espanha, Jorge Vilda, o diretor desportivo da seleção espanhola, Albert Luque, e o ex-diretor de marketing Rubén Rivera.