Fazer um ataque direto a Pinto da Costa era muito mais do que isso. Era atacar a figura do presidente do FC Porto, era atacar o próprio FC Porto, era atacar todos os méritos e conquistas do FC Porto, era atacar todos os adeptos do FC Porto. Ao longo de quatro décadas foi sempre assim, nos últimos tempos tornou-se ainda mais assim. Primeiro num grupo muito restrito, depois num leque mais reservado mas que passava o interior do Dragão, todos percebiam que o estado de saúde do líder que mais tempo esteve à frente de um clube entre as principais ligas europeias ia piorando. Sem que soubesse, porque teve sempre o melhor de tudo e todos entre os azuis e brancos, a notícia que ninguém queria ouvir ou ler começava a ser preparada nos bastidores. Aconteceu agora, já depois de deixar a liderança dos dragões. Morreu Pinto da Costa, aos 87 anos.
Habituado desde novo a seguir o clube, fosse no Campo da Constituição, fosse no Estádio do Lima com um tio ou os irmãos, Pinto da Costa tornou-se sócio aos 16 anos como prenda de aniversário (e de Natal, por fazer anos a 28 de dezembro) da avó Alice tendo como proponente o antigo presidente António Maria Moreira de Sousa. Uns anos depois, aos 20, quando já tinha completado os exames e trabalhava no Banco Português do Atlântico, foi convidado para integrar a secção de hóquei em patins, modalidade que sempre foi uma das maiores paixões também pela proximidade dos jogos a Cedofeita, onde nasceu. Por causa do trabalho e da pouca disponibilidade, acabou por entrar apenas como vogal da secção nessa fase.
Não seria por muito tempo. Nem na posição, nem na modalidade, nem no estatuto. Assim, e até 1969, na altura do convite aceite para se tornar diretor de todas as modalidades, liderou o hóquei em patins, esteve no hóquei em campo e agarrou também a secção de boxe para evitar que a mesma fosse fechada (e foi aí que conheceu um dos amigos mais próximos, Reinaldo Teles). Pinto da Costa era uma espécie de bombeiro voluntário preparado para remediar qualquer lacuna mas, cumpridos dois anos de mandato, e perante a mudança de presidente, acabou por deixar o cargo em 1971 para que novas caras surgissem.
O primeiro convite do líder Américo de Sá foi recusado e manteve depois ligação às funções diretivas pelo Infesta mas, cinco anos depois, uma conversa entre amigos foi o gatilho para voltar ao FC Porto – e para soltar a frase que ainda hoje o acompanhava por dar o nome à autobiografia, “Largos dias têm cem anos”. Tendo alguns adeptos do Boavista que gozavam com o facto de Albertino ter fugido dos dragões para ir reforçar os axadrezados, foi nesse momento que Pinto da Costa decidiu que iria voltar aos azuis e brancos, comprometendo-se logo aí que nas próximas eleições entraria nas listas e seria o responsável pelo departamento de futebol, sendo que ainda antes de ser sufragado já chegara a acordo para garantir a contratação de José Maria Pedroto ao rival da cidade. Estava iniciada a ligação que iria quebrar o maior jejum em Campeonatos do FC Porto em 1978, estava iniciada uma ligação que resistiu em conjunto a tudo.
Em 1980, com a hipótese do tricampeonato perdida e a derrota na final da Taça de Portugal com o Benfica, Pinto da Costa critica Américo de Sá pela forma como andava a privar com todos na Tribuna do Jamor e aponta às influências do centralismo para impedir o sucesso dos azuis e brancos. O então presidente não gosta do discurso e adverte Pinto da Costa, que se afasta então do clube por considerar ser uma guerra perdida. José Maria Pedroto reage de forma ainda mais violenta contra Américo de Sá, pedindo também a demissão, enquanto 15 jogadores recusam iniciar os trabalhos na época seguinte numa rebelião que acabou apenas com as saídas de António Oliveira e Octávio Machado e a venda de Fernando Gomes. No entanto, os dias do então líder estavam contados e o espaço para Pinto da Costa voltar começava a ser evidente.
Pinto da Costa e as 80 frases que explicam quem é o sócio 808 do FC Porto (e muito mais do que isso)
As eleições em abril de 1982 tiveram uma lista única e com quatro promessas (todas cumpridas) por Pinto da Costa: apostar em José Maria Pedroto para treinador mais uma vez; fazer regressar o avançado Gomes que estava no Sporting Gijón; rebaixar o Estádio das Antas para aumentar a capacidade do recinto em 20.000 lugares; e criar uma publicação mensal que contasse a vida do clube com o nome de Dragões como ainda hoje existe. A entrada não foi totalmente pacífica, os resultados ajudaram a estabilizar o clube não só no futebol mas também nas modalidades, onde o hóquei em patins conseguiu por exemplo ganhar o seu primeiro título de sempre antes de se sagrar campeão europeu. Nos relvados, tudo mudou.
A final perdida da Taça dos Vencedores das Taças em 1984 frente à Juventus de Michel Platini e a vitória na Taça dos Clubes Campeões Europeus em 1987 contra o Bayern de Pfaff, Matthäus, Rummenigge e companhia foram dois marcos que ajudaram a “legitimar” os propósitos com que Pinto da Costa assumira a liderança do FC Porto, juntando-se ainda a Taça Intercontinental e a Supertaça Europeia em 1988. Os azuis e brancos ganhavam internacional na década de 80 para subir ao patamar mais hegemónico em termos nacionais nos anos 90, com a conquista de oito Campeonatos incluindo o tão famoso penta, algo que mais nenhum clube português conseguiu alcançar até hoje. A afirmação total do clube estava conseguida.
Fernando Santos, o engenheiro da decisiva vitória de 1999, não conseguiu depois das continuidade aos anos de sucesso e só mesmo com a chegada de José Mourinho a meio da temporada de 2001/02 voltou a haver um dragão capaz de lutar pelo Campeonato e algo mais. Com o antigo técnico da União de Leiria, que após ganhar tudo rumaria ao Chelsea, o FC Porto não só foi bicampeão como ganhou a Taça UEFA frente ao Celtic em 2003 e a Liga dos Campeões diante do Mónaco em 2004. É também nesse ano que tem início o processo Apito Dourado, que depois de vários anos de luta em diferentes instâncias (e escutas que acabaram por ser invalidadas enquanto prova) acabou com a Comissão de Justiça da Federação e os tribunais civis a ilibarem o presidente e o FC Porto da condenação do FC Porto pela Comissão de Disciplina da Liga. Em 2008, no âmbito de um processo paralelo não criminal com o nome de Apito Final, o mesmo órgão da Liga voltou a condenar clube e presidente mas a sanção foi de novo anulada na Federação.
Uns anos depois, com a tentativa de novo penta a cair numa época polémica de 2009/10 marcada pelo caso do túnel na Luz que levou a um longo castigo de Hulk (que seria depois reduzido para um par de jogos), o FC Porto conquistou o seu sétimo e último troféu internacional com a Liga Europa de 2010/11 com André Villas-Boas, antigo membro da equipa técnica de Mourinho que começara a carreira a solo na Académica. Houve ao longo de todo o trajeto pontos fundamentais, como a constituição da SAD (que no final do século parecia ser solução mas que com o passar do tempo, sobretudo nos últimos anos, se tornou um problema pelos desequilíbrios financeiros) o Centro de Treinos do Olival, o Estádio do Dragão, o Dragão Arena ou o Museu, mas o que mais fica entre todos os feitos são os troféus conquistados no futebol.
Até 1982, o FC Porto contava com sete Campeonatos, quatro Taças de Portugal e uma Supertaça; com ele, a longo de quatro décadas, ganhou mais um total de 69 títulos, entre os quais sete internacionais (duas Taça dos Campeões Europeus/Champions, duas Taça UEFA/Liga Europa, duas Taças Intercontinentais e uma Supertaça Europeia) que se juntaram aos 23 Campeonatos, às 16 Taças de Portugal, às 22 Supertaças e a uma Taça da Liga conseguida em 2023 (mais a Segunda Liga com a equipa B). Para isso muito contribuiu Sérgio Conceição (dez), técnico que chegou ao Dragão no verão de 2017 e conseguiu quebrar aquele que era o maior jejum de títulos da era Pinto da Costa. Nas modalidades, entre vários marcos, destacam-se além dos primeiros títulos do hóquei em patins (que mais tarde viria a ser campeão dez anos seguidos) as quebras dos jejuns no basquetebol e no andebol, a equipa que nas derradeiras temporadas mais se afirmou.
Em abril deste ano, e num cenário para muitos impensável, acabou por deixar o FC Porto pela porta pequena, relegado aos 20% de um sufrágio onde André Villas-Boas foi “esmagador” na maior votação de sempre dos azuis e brancos. Antes houve a polémica Assembleia Geral marcada por agressões, perseguições e insultos, a Operação Pretoriano, uma série de anúncios que quanto mais queria chamar sócios, mais afastava. Só deixou a liderança da SAD após a conquista da Taça de Portugal, o 69.º título no futebol. Meses mais tarde, assumiu em entrevista a doença de que padecia e que fazia com que quisesse ter apenas mais um ano na liderança.
“Fiz uma série de exames e no fim não me diziam nada. Eu disse: ‘Doutor, vamos deixar de brincadeiras… Ando aqui a fazer de cobaia?’. Eles disseram: ‘Não, é maligno’. Então eu disse: ‘Vamos encarar isso com naturalidade, não é nenhum drama’. Ainda vou viver muito tempo. Isto já foi há três anos”, assumiu em agosto. “Durante dois anos mantive em segredo. Só a minha mulher, mesmo eu a tendo enganado… Combinámos que tinha uma prostatite, ainda hoje não sei o que é. A minha mulher, quando comecei a tomar remédios, foi ver na internet para que eram e o que eram. Já paguei o meu funeral. A senhora disse-me que nunca lhe tinha acontecido isso, que as pessoas só pagavam depois da missa do sétimo dia. Eu disse que pago já para não empurrarem depois uns para os outros e para ninguém ter a preocupação de pagar o funeral. Quero que o meu corpo vá para a Igreja das Antas, que é a que frequento semanalmente. Não quero ninguém de preto, quero tudo de azul. E depois há pessoas que não quero lá”, acrescentou.