Ramalho Eanes, Dom Américo Aguiar, Rui Moreira. Fernando Gomes, Pedro Proença. Todos os capitães que levantaram um título internacional, Sérgio Conceição. Como é habitual, a lista de convidados para os momentos mais solenes do FC Porto nunca esquecem as representações institucionais e aqueles que mais ajudaram o clube. Mais uma vez, na comemoração dos 40 anos de Pinto da Costa na presidência dos azuis e brancos, foi assim. E todos tiveram uma atenção no discurso que encerrou o jantar de homenagem na noite deste sábado no Museu do clube, onde o líder do clube recordou o passado projetando o futuro. 

“Em termos de centralismo, hoje estamos pior do que em 1982”: Pinto da Costa e os 40 anos na presidência do FC Porto

“Como compreendem, ao fim de 40 anos, 14.600 dias, é muito difícil dizer que seja. Há 40 anos, por esta hora, mais minuto menos minuto, tinha acabado de tomar posse. Quando hoje ouvi nos depoimentos toda a gente a dizer que tenho muito boa memória e muito sentido de humor, vou usar um bocadinho disso para dizer uma realidade: conta-se que um indivíduo galardoado e condecorado por ter salvo um menino que tinha caído ao rio, quando lhe perguntaram ‘Então qual é a sensação?’, ele disse ‘Só queria saber quem foi o sacana que me empurrou’. A única diferença é que sei quem é me empurrou, foi o meu querido amigo Álvaro Pinto aqui presente, foi o meu querido e saudoso amigo Armando Pimentel e o grupo que eles lideravam que me armou uma armadilha dizendo que ia ser o diretor de futebol…”, começou por dizer.

“Assumimos a presidência de coração aberto e determinação total para superar qualquer dificuldade e as dificuldades foram enormes. Pareciam inultrapassáveis. Mas defendia sempre o princípio de que nada é impossível e que o impossível apenas demora mais tempo. A prova disso é que há 40 anos se alguém dissesse que o presidente que estava a tomar posse iria ser presidente 40 anos depois, toda a gente diria que é impossível mas como no FC Porto o impossível apenas demora mais tempo, demorou 40 anos mas tenho o prazer de estar a recordar esse dia histórico da tomada de posse a 23 de abril de 1982″, continuou.

Começou com quatro promessas (cumpridas), tornou-se o maior de sempre: os 40 anos da presidência de Pinto da Costa

“As dificuldades eram imensas, enormes, nem quero pensar nelas porque eram problemas todos os dias. Fomos eleitos por dois anos e andou um grupo de pessoas com um ex-dirigente a fazer visitas a dizer que só iríamos durar três meses porque éramos um grupo que tinha assaltado o clube a mando de um determinado partido político português e nós tivemos dificuldades imensas porque isso tirava-nos credibilidade”, recordou, antes de voltar a falar da importância de Ramalho Eanes na sua presidência.

“Talvez por inspiração divina, um dia fui ao aeroporto esperar um amigo e chegava a comitiva onde estava o Presidente da República, general Ramalho Eanes. Vinha nessa comitiva um grande amigo meu, o coronel Aventinho Teixeira. Perguntou-me ‘Estás à espera do presidente?’. E eu disse ‘Não, nem o conheço, votei nele mas nem o conheço’. E ele: ‘Mas olha que ele acompanhou a vossa luta e tem muito apreço por vocês e por ti’. Passados dois ou três dias, telefonou-me a dizer que o presidente me ia receber numa visita de cortesia de dez minutos. Lá estivemos. Foi mais de uma hora e o Presidente quis saber os problemas e disse-nos que o FC Porto tinha uma condecoração por receber. Marcámos para a semana seguinte. Com a sua credibilidade e coragem, condecorar um grupo de salteadores? Não podia ser…”, ironizou.

Pinto da Costa e um sonho, 40 anos depois: “Quero sair e perceber que o FC Porto fica ainda melhor do que é agora”

“Acabaram-se os boatos, tivemos outra aceitação para resolver problemas. Esse dia marcou o início desta caminhada até hoje de 40 anos. Não nos esquecemos nunca da sua importância no FC Porto e para a Direção do FC Porto. Foram tempos difíceis. Hoje estou aqui e tive a oportunidade de ajudar o FC Porto durante 40 anos a ter muitas conquistas porque tive a felicidade de encontrar pessoas excecionais que me ajudaram a formar grupos para a vitória e para hoje falarmos no presidente mais titulado do mundo. De todos os setores, pessoas excecionais que apreenderam que no FC Porto é para vencer, até ao fim sem desanimar”, assumiu, antes de centrar o foco nos treinadores com quem foi trabalhando.

“Tive a felicidade de poder fazer regressar um grande treinador, o meu amigo José Maria Pedroto. Aí nasceu uma nova era no futebol, o espírito de conquista e o medo de atravessar a ponte. Foram momentos inesquecíveis e na figura de José Maria Pedroto queria agradecer publicamente a todos os treinadores que ao longo destes 40 anos tive a felicidade de contar. Todos deram o seu melhor, muitos sendo ainda hoje meus amigos, outros não gostando de mim, mas quero deixar a todos uma palavra de gratidão e uma palavra de saudade para os que já partiram, o Bobby Robson, o Tomislav Ivic e o Carlos Alberto Silva. Até que chegados aos 40 anos temos a felicidade de ter não um Pedroto, porque Pedroto só houve um e não haverá mais nenhum, mas um treinador que é, à sua imagem, aquilo que se pretende no FC Porto: um espírito de paixão, de querer sempre ganhar, de nunca estar contente” destacou o líder portista.

“Tive oportunidade de ter centenas de jogadores. Uns melhores, uns razoáveis, acho que mau, mau nunca tive nenhum mas na impossibilidade de os ter aqui a todos tenho os capitães dos meus 40 anos: Rodolfo Reis, aquele que encontrei quando cheguei com toda a galhardia; Fernando Gomes, capitão de Tóquio; João Pinto, capitão de Viena; Jorge Costa, capitão de Sevilha e Gelsenkirchen; Helton, capitão de Dublin; Vítor Baía, capitão de imensos jogos e grandes vitórias. Estejam onde estiverem, quero saudar todos aqueles que vestiram a camisola do FC Porto. Tive a felicidade de desde o início ter grandes dirigentes que me ajudaram muitas vezes na sombra. Agradecendo a todos, não posso deixar de ter uma palavra de muita saudade com o meu amigo Reinaldo Teles. Era mais do que um amigo, era um irmão que eu tinha a certeza que se alguém me enviasse um tiro, a bala batia no peito dele antes de chegar a mim”, elogiou.

“Não gosto nada do alarido que se faz por termos tantos títulos e por conseguirmos tantas vitórias. Temos todo o orgulho, tantas taças e campeonatos. Estou aqui não para terminar, porque quando terminar irei comunicar e sei quando é que será, mas sim para incentivar para o futuro. Não podemos viver do passado, não podemos viver destas taças, temos é de aumentar este Museu cada vez mais. Faço um desafio a todos: hoje é o dia zero e daqui a um ano temos de ter conseguido tantos campeonatos e tantas taças como a média dos últimos 40 anos. Aí sim, direi que valeu a pena porque está lançado o espírito de vitória e de um FC Porto. Não durará mais 40 anos, certamente durará poucos mais mas enquanto aqui estiver quero que todos tenham no espírito e no pensamento que o limite para nós não existe. O único apelo que faço é que escolham bem quem vai receber o testemunho da estafeta da minha mão”, alertou.

“Senhor Dom Américo Aguiar, o senhor sabe a missão que tem no FC Porto, o senhor é o interlocutor com o nosso embaixador no céu, Dom António Francisco. Não se esqueça nunca de falar com ele para que ele junte de Deus interceda para que nos dê felicidade, vitórias e capacidade para seguir o melhor caminho e para que me dê a mim possibilidade de ser digno da amizade de todos vós”, concluiu.