A DANA deixou a comunidade valenciana num pesadelo. Duas centenas de vítimas, casas arrasadas pelo vigor do temporal, memórias levadas pela corrente das águas. Algumas sobreviveram e vão ter nova vida.

Um grupo de estudantes e voluntários da Universidade de Valência decidiu tentar recuperar fotografias e álbuns de família dos destroços provocados pelas chuvas torrenciais em Valência, com o intuito de as restaurar e devolver às famílias um pedaço daquilo que lhes foi retirado.

A universidade apela a que as famílias não se desfaçam dos seus álbuns de fotografias, mesmo que estejam bastante danificados, para que seja possível analisar todas as possibilidades de restauro. A iniciativa é gratuita e levada a cabo pelo Departamento de Património da Universidade de Valência.

O programa “Salvem les fotos” foi lançado três dias depois da tragédia provocada pela depressão DANA a 29 de outubro por cinco universidades públicas valencianas, que se autointitularam “Rede de Universidades Públicas para a Cultura”, pelo Grupo Español del International Institute of Conservation (GE-IIC), pelo Conselho Internacional de Museus (ICOM) e pelo Museu Valenciano de Etnologia (ETNO).

O restauro tem lugar nos laboratórios equipados pela Universidade de Valência (UV), com a colaboração de diferentes entidades, “para que seja possível reparar as fotografias e álbuns e devolvê-los às famílias na melhor condição possível”, diz a página web da Universidade de Valência.

Desde o início da iniciativa, a Universidade de Valência já recebeu mais de 400 fotografias nas áreas onde instalou laboratórios — no Museu de História Natural da Universidade de Valência (MUVHN), no campus de Burjassot e nas cidades da zona 0, onde foram construídos laboratórios de campo.

O trabalho foi desenvolvido com o auxílio de diversas alianças institucionais, nomeadamente com câmaras municipais, museus, instituições, entidades, empresas e voluntários. O Mancomunitat Intermunicipal de l’Horta Sud cedeu os espaços para a instalação de laboratórios de campanha, para além de ter fornecido equipamento de proteção individual, e a multinacional Canon doou câmaras para contribuir para o processo de digitalizar as fotografias resgatadas.

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A inicativa conta também com a participação de uma centena de estudantes e diplomados da Universidade Politécnica de Valência (UPV), ligados ao Departamento de Conservação e Restauração de Bens Culturais, que tomaram iniciativa após a DANA para ajudar no resgate e restauro de fotografias. Entraram em contacto com o diretor da Faculdade de Belas Artes, José Galindo, e em duas horas, o grupo montou e colocou em funcionamento um laboratório de campo preparado para receber as primeiras fotografias. “Recuperar as memórias e as recordações de pessoas que perderam quase tudo é o seu objetivo. É isso que os leva a dedicar dez horas, todos os dias, ao restauro de fotografias arruinadas pelos efeitos da DANA”, afirma a universidade no seu site.

Em muitos casos, os voluntários têm participado na recolha de fotografias nas cidades, enquanto os estudantes e diplomados da licenciatura, mestrado e doutoramento em Conservação e Restauro de Património Cultural estão encarregados do tratamento das imagens.

Pilar Soriano, diretora-adjunta do Departamento de Conservação e Restauro de Património Cultural, explica o processo de recuperação: “Primeiro, as fotografias são gravadas num formato que contenha todos os detalhes de propriedade. Se for um álbum, é tirada uma fotografia inicial do mesmo fechado. Depois, cada página do álbum é fotografada de modo a registar a posição das imagens”.

Todas as imagens têm de ser depois retiradas do álbum para ser limpas. As que não tenham ficado molhadas, mas sofreram os efeitos das cheias, são mergulhadas em diferentes baldes de água, que é trocada até sair limpa. Após a lavagem, as fotografias são penduradas com molas para secar e depois colocadas em papéis especiais de restauro, na mesma ordem em que estavam no álbum.

“Antes de serem devolvidas, todas as imagens são digitalizadas e entregues numa pen em conjunto com as fotos em papel, normalmente pelo mesmo voluntário que as trouxe”, explica Soriano.

O projeto já recebeu cerca de 230.000 photos e 1.800 álbuns, segundo o The Guardian.

E esta terça-feira, a UPV anunciou que uma equipa do Instituto Universitário Valenciano de Investigação de Inteligência Artificial (VRAIN) vai usar técnicas de IA para reconstruir as 80.000 fotos mais danificadas pela DANA, cuja deterioriação não afete elementos centrais como rostos ou partes do corpo. A iniciativa insere-se no projeto da Faculdade de Belas Artes intitulado “Recuperar las memorias”, coordenado pelos professores Pedro Vicente, Pilar Soriano e Esther Nebot, que decidiram dar um passo em frente para “agilizar a recuperação de fotografias e preservar a memória através da tecnologia e da inteligência artificial, porque a diferença entre devolver uma foto completa às famílias, dar-lhes uma memória clara do seu passado, e entregar uma foto danificada é brutal”, explicam os coordenadores.

A equipa UPV VRAIN, constituída pelos investigadores Carlos Montserrat e César Ferri e três estudantes do mestrado em Inteligência Artificial, Reconhecimento de Padrões e Imagem Digital (MIARFID), irá utilizar dois servidores que permitirão a reconstrução de cerca de 200 a 300 fotos por dia. Até ao momento, 35.000 já foram manualmente editadas, digitalizadas e entregues às famílias, mas é necessária a intervenção da inteligência artificial “para permitir um projeto mais ágil e efetivo, para que aqueles que perderam as suas memórias possam recuperá-las o mais depressa possível”, diz Pedro Vicente.

Nikita Averitchev, José Daniel e Galván e Hugo Albert, alunos de mestrado, voluntariaram-se para participar no projeto e procuraram financiamento de diferentes entidades públicas e privadas. “A quantidade de fotografias com que trabalhamos requer automação significativa para que possamos realizar a edição de fotos que apenas a inteligência artificial permite devido ao volume de dados que têm de ser trabalhados. É um desafio complexo porque nem todas as imagens respondem ao mesmo padrão de dano, e cada uma tem elementos diferentes que precisam de ser reconstruidos.  Mas o mais importante é que as famílias recebam as fotos restauradas, como eram antes da DANA e em que se consigam reconhecer”, explica Carlos Monserrat.

Texto editado por Dulce Neto