Sem a habitual pompa de um evento que é acompanhado online por milhares de pessoas, a Apple lançou esta quarta-feira o iPhone 16e. Há muito que era antecipado pela indústria tecnológica, até como a continuidade da estratégia do iPhone SE — ou seja, um modelo com algumas concessões nas funcionalidades para conseguir ter um preço mais acessível.
Apple lança iPhone 16e, “o membro mais acessível da família”
Tim Cook decidiu abandonar a designação SE, a sigla para Special Edition, que foi usada pela última vez em 2022, quando foi lançada a terceira geração deste equipamento. Além do preço “mais acessível” (a partir de 599 dólares nos EUA e 739 euros em Portugal), a marca salientou outros aspetos do iPhone 16e, como o uso de um modem desenvolvido pela Apple, o C1, e a compatibilidade com as funcionalidades de inteligência artificial (IA), lançadas no ano passado.
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“O lançamento do iPhone 16e representa uma mudança de jogo estratégica para a Apple”, destaca Francisco Jerónimo, vice-presidente da IDC da área de dispositivos para a região EMEA. Numa nota enviada ao Observador, refere que o equipamento “vai ajudar a expandir a base de consumidores” da marca. “Este dispositivo tem como objetivo preencher a lacuna entre as funcionalidades premium e a acessibilidade” a nível de preço, refere.
Porém, é de salientar que, apesar de ser anunciado como “acessível” pela Apple, o 16e é mais caro que o anterior iPhone SE (599 dólares nos EUA contra 429 dólares, respetivamente). E, como acontece sempre que a Apple acrescenta telefones à “família”, há equipamentos descontinuados. Assim, o iPhone SE deixa de estar à venda através da Apple, o que se traduz num aumento de 170 dólares no equipamento mais barato da gama iPhone. Feitas as contas para Portugal, as diferenças saltam à vista: através da Apple, o SE arrancava nos 549 euros, enquanto o 16e, que só chega no fim de fevereiro, custará no mínimo 739 euros. Na versão com mais espaço de armazenamento (512 GB) chega aos 1.119 euros.
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Diferenças no preço à parte, Francisco Jerónimo utiliza a etiqueta do preço do anúncio do iPhone 16e para salientar que, desta forma, a Apple “está a colocar-se no mercado de gama média ao expandir a gama acessível”. Ou seja, “está também a abrir a porta a consumidores que poderiam optar por um modelo mais antigo ou recondicionado ou mudar para alternativas Android”.
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Do ponto de vista deste analista, “esta abordagem reflete a intenção estratégica de a Apple expandir o seu alcance de mercado sem comprometer a inovação”, dando como exemplo o facto de o novo telefone usar o processador A18 (o mesmo do topo de gama) ou ter as tais funcionalidades de IA. “A compatibilidade com a Apple Intelligence num equipamento de gama média indica que a Apple está a dar um impulso maior a experiências alavancadas por IA, garantindo que mesmo os consumidores com maior consciência de orçamento têm acesso a tecnologia de ponta”, realça.
“Dar o salto para o controlo completo do hardware” com um modem novo
Os analistas fazem questão de destacar que há mais neste lançamento além da questão óbvia do preço. “À superfície, o iPhone 16e pode parecer apenas mais outro smartphone de gama média, mas as suas implicações tecnológicas e estratégicas fazem com que seja um dos lançamentos mais significativos na história recente da Apple”, destaca o especialista da IDC. Refere-se à inclusão do modem C1 no iPhone 16e, ou seja, um chip desenvolvido pela Apple para assegurar a conectividade do equipamento.
“É um caso de teste para as ambições da Apple nos modems”, realça. “A escolha da Apple de ter o modem C1 no iPhone 16e em vez de inclui-lo nos modelos de topo é uma escolha calculada”, o que permite à empresa de Cook “monitorizar o desempenho e afinar a tecnologia antes de incluir o modem nos equipamentos topo de gama”. E, recorda, esta é uma estratégia que a Apple já usou noutra “grande transição”, quando passou a usar os próprios processadores nos Mac.
“Ao usar primeiro a tecnologia proprietária numa categoria de menor risco a Apple garante uma transição gradual mas inevitável de soluções de terceiros sem fazer grandes disrupções no ecossistema.” A Apple iniciou a transição do componente dos Mac em 2020, anunciando em 2023 que tinha concluído a mudança. Os resultados do último trimestre da Apple, terminado em dezembro de 2024, revelam que o Mac gerou cerca de 7% das vendas da marca, em comparação com os quase 55% de vendas do iPhone.
Até aqui, a Apple tem dependido da Qualcomm para os modem. A relação entre as duas empresas modificou-se após uma batalha legal, em que a Apple processou a fabricante de chips por supostas práticas anticoncorrenciais (em 2019, chegaram a acordo). Agora, o afastamento poderá ser ainda maior. A decisão da Apple de ter um modem próprio “muda a narrativa, porque deixa a Apple no controlo do seu desempenho wireless, na eficiência e otimização”, explica Francisco Jerónimo. E, em resumo, uma independência maior em relação a terceiros e o “salto para o controlo completo do hardware”.
O analista nota que, por agora, a Apple “continua a depender a curto prazo de alguns modems da Qualcomm”. A fabricante “tem um acordo de licenciamento com a Apple até 2027”, mas é “esperado que a quota de modems da Apple se reduza significativamente no próximo ano”.
Ben Wood, analista-chefe da consultora britânica CCS Insight, também destaca o modem como “um marco” para a Apple, que “vai ter impacto a longo prazo no negócio”. “Vai permitir à empresa ter uma solução mais integrada”, recordando a “enorme vantagem” dos esforços da Apple na linha Mac. “Isto marca o início de uma jornada em curso que esperamos ver a Apple seguir para desenvolver uma solução totalmente integrada e a usar a propriedade intelectual para atuais e futuras tecnologias, como o 6G”.