O Portugal Fashion (PF) vai receber quase 2 milhões de euros de fundos comunitários do programa Portugal 2030. Contactada, a diretora do Portugal Fashion, Mónica Neto, recusou-se a responder às questões do Observador. Fonte oficial da ANJE, que organiza o evento, diz ao Observador estar a “trabalhar nos últimos ajustes necessários para garantir que este apoio seja implementado da forma mais estruturada e estratégica possível, assegurando que todas as etapas do processo respeitam critérios e objetivos delineados”.

O financiamento deverá permitir o regresso do formato físico do evento, já que quando o certame foi reduzido para uma edição por ano, ao invés das habituais duas, Mónica Neto disse à agência Lusa que o novo conceito e estratégia seria a “base da candidatura ao Portugal 2030”.

Os fundos foram aprovados a 31 de janeiro, como consta no site do Portugal 2030. O certame vai receber 1.955.358€ através do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER), o mesmo fundo ao qual foi aberta uma investigação em março do ano passado envolvendo Manuel Serrão. O empresário portuense e vogal da Associação Selectiva Moda, que agora está a ser investigado pela justiça, chegou a ser vice-presidente da Associação Nacional de Jovens Empresários (ANJE), função que desempenhou durante seis anos. Nesta qualidade passou a ser, a partir da terceira edição, responsável pela organização do Portugal Fashion. Manuel Serrão foi considerado pelo Ministério Público “o principal mentor” do alegado esquema fraudulento na obtenção de subsídios comunitários e que levou a Polícia Judiciária a realizar 78 buscas no âmbito da Operação Maestro, na qual são também suspeitos o jornalista Júlio Magalhães, António Sousa Cardoso, que liderou a Associação de Jovens Empresários, e António Branco Silva.

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A atividade que levou ao alegado desvio de cerca de 39,3 milhões de euros (sendo a esmagadora maioria da Selectiva Moda) consistiu nas candidaturas a 11 operações do Programa Operacional Competitividade e Internacionalização (POCI), do Portugal 2020. Houve igualmente candidaturas ao abrigo do Mecanismo Extraordinário de Antecipação do Portugal 2030, do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER) — que é um dos Fundos Europeus Estruturais e de Investimento (FEEI).

A investigação sustenta que, pelo menos desde 2015, Manuel Serrão, António Branco Silva e António Sousa Cardoso, “conhecedores das regras de procedimentos que presidem à candidatura, atribuição, execução e pagamento de verbas atribuídas no âmbito de operações cofinanciadas por fundos europeus, decidiram captar, em proveito próprio e das empresas por si geridas, os subsídios atribuídos à Associação Seletiva Moda e às sociedades No Less e House of Project — Business Consulting”.

Fundado pela ANJE em 1995, o Portugal Fashion é um projeto promocional de moda de autor, de design e indústria da moda em diferentes áreas setoriais, representando de forma permanente mais de 30 designers e marcas portuguesas do setor da indústria têxtil e do calçado, prestando apoio complementar, a cada edição, a 10 criadores de moda internacionais que procuram o projeto para se desenvolverem a partir de Portugal. A ligação à indústria é o que distingue o PF do evento irmão, a ModaLisboa.

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Desde 2016 até 2022, enquanto esteve em vigor o quadro comunitário Portugal 2020, a ANJE recebeu cerca de 20 milhões euros em fundos europeus, segundo o jornal Público. As edições do Portugal Fashion têm sido financiadas em 85% por estes fundos comunitários do Portugal 2020, que se extinguiram em outubro de 2022. Sem conseguir aceder a novos apoios europeus (a previsão de abertura para o quadro Portugal 2030 estimava-se então em abril de 2024, mas tal não aconteceu) o Portugal Fashion fez a 51.ª edição totalmente financiada pela organização, que contou com o apoio de financiamento privado, e as duas seguintes com o apoio da Câmara do Porto. Até que, em abril do ano passado, a organização do Portugal Fashion anunciou que o evento de moda iria passar a acontecer uma vez por ano – em vez das habituais duas -, a começar em julho desse ano, num novo formato e com o apoio financeiro do Turismo de Portugal.

A escolha do início de julho para realizar o evento estaria ligada ao calendário internacional de desfiles, evitando a sobreposição com outra semana de moda internacional. Assim, o PF aconteceria depois da apresentação das coleções masculinas em Milão e Paris, e da Semana de Alta-Costura, também na capital francesa.

No entanto, duas semanas antes da edição, prevista para o início de julho (1-6), a organização acabaria por cancelar o certame. “Apesar de todos os esforços para realizar a edição deste ano não foi possível, em tempo útil, reunir todos apoios necessários que permitiriam garantir a qualidade do evento Portugal Fashion a que todos já se habituaram. Foi uma decisão muito difícil para a ANJE [Associação Nacional de Jovens Empresários]”, lia-se num comunicado enviado à comunicação social. O evento de moda português estava a atravessar “algumas dificuldades de financiamento e por isso foi necessário repensar a forma, e algum conteúdo”, admitia a organização, sublinhando que “todos os criadores e meios de comunicação social serão atempadamente informados com os pormenores da próxima edição”.

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No final de outubro, o Portugal Fashion evento surpreendeu ao anunciar um showcase digital um dia antes de a campanha online do mesmo arrancar. Chamou-lhe Portugal Fashion Sessions – Phygital Showcase. Ao longo de duas semanas, fotografias e vídeos das coleções da temporada outono/inverno 2024/2025 de múltiplos designers foram partilhados nas redes sociais do Portugal Fashion. Sem o habitual desfile de apresentação, participam nesta produção de conteúdos os designers e marcas Ahcor, Lo Siento, Carolina Sobral, Huarte, House of Wildflowers, Judy Sanderson, Maria Gambina, Nopin, Nuno Miguel Ramos, Pé de Chumbo e Susana Bettencourt.

O Portugal Fashion é casa de inúmeros criadores nacionais, de destacar as duplas Ernest W Baker e Marques’Almeida, ambas reconhecidas a nível internacional. Por cá, dezenas de criadores iniciaram o percurso no certame do Porto, como Susana Bettencourt, Hugo Costa e Diogo Miranda — que entretanto encerrou a marca. A instabilidade do certame já levou a duas baixas para o evento: Luís Onofre, em 2024, e Alves/Gonçalves, em 2025. Ambos os designers trocaram a semana de moda portuense e apresentam as coleções agora duas vezes por ano na ModaLisboa.