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O designer José Manuel Gonçalves, fotografado no ateliê da marca Alves/Gonçalves, em Campo de Ourique, em Lisboa
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▲O designer José Manuel Gonçalves, fotografado no ateliê da marca Alves/Gonçalves, em Campo de Ourique, em Lisboa

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

▲O designer José Manuel Gonçalves, fotografado no ateliê da marca Alves/Gonçalves, em Campo de Ourique, em Lisboa

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

José Manuel Gonçalves regressa com Alves/Gonçalves à ModaLisboa: "O Manuel sempre me pediu que continuasse"

Depois da morte de Manuel Alves, o seu par na moda e na vida, José Manuel Gonçalves volta aos desfiles. "Estou cheio de medo. Parece que é a primeira vez", confessa em entrevista.

Foi a moda que o salvou, que o impediu de cair no abismo de mais uma depressão. É José Manuel Gonçalves que o diz, o homem que resta da dupla Alves/Gonçalves. Juntos desde os anos 1980, os Manéis (como são carinhosamente conhecidos) revolucionaram o vestuário português, deram bom gosto à elite, puseram charme em figurinos e fardamentos e notabilizaram-se enquanto nomes fortes da moda nacional.

Manuel, extrovertido e comunicativo, foi a face visível da marca, enquanto José Manuel, discreto e reservado, preferia o silêncio ao protagonismo. Eram opostos que na diferença encontravam o equilíbrio perfeito. Durante quatro décadas, Manuel Alves e José Manuel Gonçalves construíram uma identidade singular, marcada pelo jogo de contrastes, entre o rigor e a fluidez, a estrutura e o movimento, o clássico e o experimental.

A morte de Manuel Alves, em maio de 2024, apanhou o país de surpresa, mas não foi inesperada, como conta José Manuel Gonçalves ao Observador. Há vários anos que o designer de 72 anos sofria de uma doença oncológica. Por isso, houve tempo. Para despedidas, para um casamento e para um desejo “explícito”: que continuasse. Quase um ano depois, José Manuel decidiu finalmente cumprir a história dos Manéis. Em entrevista, revela o impacto da perda, a reinvenção como designer e os planos para um novo começo na marca. Explica, também, o regresso à ModaLisboa, depois de 20 anos no Portugal Fashion — é mais um desfalque no calendário do evento portuense, depois de Luís Onofre.

▲ José Manuel Gonçalves fez o seu primeiro desfile em 1985, no Palácio do Correio Velho, em Lisboa

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Pairava a dúvida sobre o que aconteceria à etiqueta Alves/Gonçalves com o desenlace terreno dos Manéis. Alguma vez ponderou fechar a marca ou foi sempre claro que seguiria em frente?
Não. Nunca ponderei nisso, nunca me passou pela cabeça. Por dois motivos. Sou das primeiras pessoas a sentir que quando não for capaz farei o final. Mas tenho que o sentir. E não o sinto, bem pelo contrário. Depois, tinha outra certeza: o Manuel sempre me pediu que continuasse. Ele foi extremamente explícito sempre que queria que continuasse, que não queria que as coisas acabassem. Não tem sido uma tarefa fácil. Já faleceram várias pessoas na minha família, mas tenho tido a sorte de nunca ter sido eu a pessoa que acompanha, que decide, que faz as coisas. Tenho tido a mãe, as irmãs, que têm tratado sempre desses assuntos. Foi a primeira vez que acompanhei uma pessoa com quem vivi quase 40 anos. Foi a primeira vez que esse destino me saiu na rifa. Reagimos tão automaticamente ao que está perante nós, que não pensamos em milhares de coisas. Com o Manuel sempre fui um grande privilegiado de não tratar de certas coisas. Fui… mimado. Desconhecia totalmente certos assuntos.

Como?
Não imaginava que se tinha de tratar de tanta coisa quando alguém desaparece. Estamos tão preocupados com o que está a acontecer que nem nos lembramos sequer que as coisas são mais duras a seguir. As contas são congeladas, as burocracias neste país não lembram a ninguém, os papéis e os documentos que se tem que tratar para reaver os nossos próprios direitos. Ainda por cima não sou um herdeiro por ser herdeiro, sou um herdeiro por direito porque sou sócio, sempre fui dono das empresas. Tem sido uma complicação, advogados para cá, coisas para lá. Finalmente estou a conseguir recuperar essa parte burocrática toda, mas nunca pensei que me fosse dar tanto trabalho. Isto para lhe responder que se pensasse que me ia dar metade do trabalho que me deu, não sei se continuaria [a marca].

Qual era a questão burocrática?
Tudo começa no dia que alguém morre. Há falta de preparação para o que é uma doença destas. O Manuel morreu com cancro, mas sabíamos do cancro há cinco ou seis anos. Só que nunca pensámos, nem eu nem ele, nunca pusemos a hipótese de que isto acontecesse.

Isto, a morte?
Sim. Não era uma verdade para nós. Vivemos num mundo irreal, a achar que tudo vai melhorar, tudo vai subir. E conseguiu-se, durante muito tempo. Tudo foi feito com uma normalidade e com uma calma… Os exames, estava tudo ótimo. E, de repente, em janeiro de 2024, parece que nos sentimos invadidos, não sei se existe diabo, mas há um ser estranho qualquer que nos entra pela porta adentro e tudo começa a correr mal. Aí começa aquela turbulência de médicos, urgências, em que se tenta tudo, exames, há uma instabilidade emocional enorme. De repente, vemo-nos com uma série de circunstâncias, de falar com advogados, ver o que se passa, o que tem que ser tratado. A união de facto e o testamento existiu sempre, era já uma coisa que tinha muitos anos, 30 e tal anos. Mas o casamento foi uma coisa que foi feita no hospital já.

▲ Os designers Manuel Alves e José Manuel Gonçalves no final de um desfile, em 2021. A dupla, uma refêrencia da moda portuguesa, celebrou 40 anos de carreira em 2024

Manuel Lastiri / Facebook Alves Gonçalves Atelier

Casaram no hospital?
Sim, o Manuel teimava em casar. Havia uma união de facto, mas não havia um casamento. Eu sempre fui o anti-casamento da questão [risos], sou de uma geração que acredita na liberdade e no direito de não ser preciso casamento para nada. Mas, de facto, as burocracias… O sistema está montado para aquilo. É complicado… Aliás, a coisa mais complicada é que durante a doença a pessoa está lá. Quando aquilo acaba, no dia que o telefone diz “acabou” não estamos preparados para o que se vai passar no próprio dia, nos dois dias que seguem. Fiquei num estado racional de choque. É muito difícil às 10 da manhã ter a notícia da morte de alguém e às duas da tarde ter alguém a dizer: temos que retirar não sei o quê do hospital, vem a senhora da funerária com os computadores, catálogos, coisas para escolher, o que se põe de flores. É o papel deles, não estou a questioná-lo. Mas é tão difícil. É uma pedra que nos cai em cima. No outro dia é preciso convidar as pessoas, dizer às pessoas que tudo aconteceu, é muito complicado de gerir. Acho que há um mês e meio, dois meses em que não caímos em nós, não acreditamos que estas coisas podem acontecer. Mas o pior é seguir. Os meses a seguir são temerosos, quando começamos a perceber que as coisas aconteceram. Aquilo que para mim continua a ser o mais difícil é pensar que nunca mais vou ver esta pessoa. Mas isso é a parte que nunca podemos pensar, porque é o que impede que andemos para a frente.

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Passaram nove meses. O tempo ajuda?
O tempo cura, faz passar, claro. Mas não faz esquecer absolutamente nada, isso é mentira. Ninguém esquece estas coisas. Vou me lembrar delas enquanto andar cá. Agora, que abranda, abranda. Há um instinto de sobrevivência que nos lembra que temos que andar para a frente com as coisas. Agora, esquecer, isso não se esquece. Isso fica cá.

Quando é que voltou ao ateliê?
Passados dois dias.

Dois dias?
Logo. Recusei-me a ficar em casa. Foi o funeral, estive um dia em casa e no outro dia estava a trabalhar com elas [aponta para as costureiras, no ateliê]. Foram elas metade da minha salvação. Foi a minha maneira de ter um registo diário qualquer. Tinha que o  arranjar. Se não caía numa depressão gigante. Tenho depressões, não queria ter mais uma. No trabalho há sempre coisas para resolver e isso faz-nos esquecer, de alguma maneira. O problema é quando regressamos a casa à noite. E tive outro problema, 15 dias depois do funeral do Manuel faleceu o meu cão, a Alice. Não sei interpretar estas coisas que o universo nos destina, o que sei é que nunca pensei nisto. Nunca pensei que o Manel ou eu… E isto acontece aos seres humanos. Dois meses antes as coisas complicaram-se muito, e obviamente este pensamento começa a existir, mas com todos os problemas que pudesse haver, nunca pensei que isto fosse uma realidade. Depois, eu gosto muito de roupa. Costumo dizer que roupa não é o meu trabalho, é uma coisa que faço porque gosto. Se me disser que tenho que estar aqui até às três da manhã eu estou, não durmo, é um prazer para mim. Enquanto esse prazer se mantiver, vou continuar. Enquanto a cabeça acompanhar os tempos e a realidade, vou continuar.

José Manuel Gonçalves voltou ao ateliê dois dias depois da morte de Manuel Alves: "Recusei-me a ficar em casa. Foi o funeral, estive um dia em casa e no outro dia estava a trabalhar com elas [aponta para as costureiras, no ateliê]. Foram elas metade da minha salvação. Foi a minha maneira de ter um registo diário qualquer. Tinha que o arranjar. Se não caía numa depressão gigante."

Aquando da morte do Manuel Alves, houve quem dissesse que era difícil imaginar os Manéis sem ele. Como está a ser deixar para trás um processo criativo em dupla? Redescobriu-se num novo papel?
Teve que ser. No meu caso, estou a redescobrir-me mesmo num novo papel. O nosso trabalho era um trabalho de dupla, não tínhamos um limite nem uma barreira. Eu estaria mais ligado sempre à parte de desfile e essas coisas, o Manuel mantinha-se muito mais ligado à parte comercial e a clientes privados. Tínhamos essa distinção, não porque ele quisesse, mas porque eu o obrigava, porque não tenho propriamente um feitio muito bom para o cliente privado.

O que é que isso quer dizer?
Quer dizer que não tenho muita paciência (risos). Basicamente tenho paciência para certo número de pessoas, não tenho para outras. Há uma grande confusão no nosso país que é: quando alguém entra aqui tem que perceber que posso pôr mais uma manga, menos uma manga, mas não sou uma costureira. Há uma diferença para fazer o que as pessoas querem. Nunca aceitei bem isso. O Manuel, com muita diplomacia, sabia fazer isso. Eu não tenho essa parte diplomática. O Manel tinha. O Manel era um ser de pessoas. Eu não sou um ser de pessoas. Sou um ser mais retraído, gosto da minha privacidade. Não quer dizer que ele não gostasse da dele, mas era um ser humano de pessoas, falava, gostava de festas, de jantar fora. Gostava de tudo que a vida teria de dar no sentido mais divertido e a roupa fazia parte disso. Eu sou um ser muito mais retraído. Estou disposto a reiniciar este projeto, mas à minha maneira, não à maneira do Manuel Alves. Não vai ser igual. Não quero ruturas nem as posso ter, não posso abandonar as clientes até porque vivo das clientes. Agora, se calhar, se abandonar duas ou três… Abandono. Não tenho problema nenhum com isso. É como se tivesse que reiniciar algo. Com um passado, claro, mas estou a reiniciar e a tentar que tudo o que faço a partir de agora esteja integrado numa linguagem moderna e atual. Não me interessa nada estar afastado dessa realidade. Quero fazer progredir a marca para além de mim. No dia que não sentir capacidade — é esse o meu projeto — há de haver outras pessoas que têm essa capacidade e que vão continuar o nome. Vou fazer tudo para que isso aconteça. Isto foi criado Alves/Gonçalves porque existia um ato de amor entre duas pessoas. Isso para mim é sagrado.

Não tem a ver com o que se fatura ou deixa de faturar. Aliás, mete-me muita impressão quando as pessoas falam de faturação. Já tive imenso dinheiro, já tive menos, outras vezes não tive nenhum. Não foi isso que me fez deixar de ser quem sou. Não atribuo valor suficiente ao dinheiro para abandonar o projeto. Se calhar para continuar este projeto precisarei de pessoas porque também preciso de estar livre para fazer o que quero. Mas essas pessoas têm que perceber necessariamente qual é o meu projeto. Não quero ser rico, não quero ser milionário, nunca quis. Extraio da roupa o lucro para viver bem, que é o que todos queremos. Não precisamos de ser ricos nem milionários. Precisamos de viver razoavelmente bem e ter acesso às coisas que nos dão gozo. Estou aqui só para isso.

Ao longo destes anos, o José Manuel sempre foi mais reticente em aparecer, esquivo nas entrevistas…
As pessoas achavam que era bicho-do-mato. Não era. Eu e o Manuel é que tínhamos feitios de vida muito diferentes, apesar de sermos duas pessoas que se adoram. As minhas reações perante a imprensa, perante as pessoas, sempre foram muito de feitio. Não sou uma pessoa de pessoas. Obviamente que sei que hoje em dia vou ter que assumir alguma parte disso…

Esta nova fase enquanto designer não permite que tenha o mesmo recato?
Não tenho outro remédio. Não vai ser nunca uma posição que adore, mas sei perfeitamente, e não sou parvo nenhum, para perceber que vou ter que assumir parte dela. Mas à minha maneira, sempre. Não estou disposto a ceder em certos princípios que tenho. Sei que muita gente gostará de mim, outros vão odiar, é a vida. A vida é feita assim, não há nada a dizer. Por outro lado, também não estou a concorrer a eleição de nada. Só consigo fazer aquilo bem que tenho para fazer se for eu. Não comecei na Alves/Gonçalves como designer. As pessoas anulam essa parte, mas comecei a ajudar o Manel quando era Manuel Alves só que se chamava Alves/Gonçalves. Fiz isso durante cinco ou seis anos.

"Fico estupefacto com as ideias que se têm neste país. Nunca na vida hei de perceber esta reação anti-imigração. Trabalho com uma moldava e uma ucraniana fantásticas, com um nível técnico muito superior ao nosso. Isto às vezes custa aceitar, mas, neste momento, a salvação desta área passa pela imigração"

Fazia o quê?
Tudo o que era preciso: ir aos tecidos, às retrosarias, ir lá a cima ao Norte buscar não sei o quê, vir para baixo. Ajudava e aprendi assim. Venho de uma época em que os cursos de moda não existiam, só havia o CITEX e estava muito ligado à área da modelagem. Não era uma coisa que me apetecesse fazer, vinha de um curso de História, mas sabia que não queria ser professor do liceu. Conheci o Manuel e achei giro. Ele tinha lojas no Porto, que mudou para Lisboa e comecei a ajudá-lo. Só passado uns cinco ou seis anos é que entrei na empresa como sócio. Ele deu-me esse presente, nunca lhe pedi. Foi aí que comecei a participar ativamente de outra maneira, porque até lá era um ajudante de empregado. Mas que acho que me fez bem, não estou a dizer isto no sentido mau. Para trabalhar em moda pode ser um princípio, saber o que temos que fazer, é uma área extremamente difícil e complicada de se trabalhar. É muito difícil ter relações humanas dentro do próprio trabalho, ter pessoas de confiança. Tive o privilegio de as ter, hoje em dia tenho-o em menor número porque é muito difícil ter gente a trabalhar nesta área. Aliás, acho que daqui a uns anos vai ser muito difícil manter isto por causa da falta de mão de obra, que não existe.

Agora fala-se tanto de imigração e, sinceramente, fico estupefacto com as ideias que se têm neste país, por toda a Europa e por todo o mundo. Neste momento dou trabalho a duas imigrantes fantásticas, pessoas tão normais e tão iguais a mim que nunca na minha vida hei de perceber esta reação anti-imigração. Trabalho com uma moldava e uma ucraniana fantásticas, têm um nível técnico muito superior ao nosso. Isto às vezes custa aceitar, mas, neste momento, a salvação desta área passa pela imigração e passa pela utilização destas pessoas que têm uma capacidade enorme e mais moderna de se atualizar que nós. São pessoas iguais a nós, com os mesmos problemas. Ouço as notícias e penso que esta gente é toda patética.

O Manuel Alves era um conhecido crítico da forma como os portugueses olhavam para a moda, e não raras vezes denunciou a falta de valorização dos criadores nacionais e um certo deslumbramento pelas marcas estrangeiras. Isso mudou? O que pensa o José Manuel sobre isto?
Acho que mudou. Quer dizer, está a mudar. Não acho que o deslumbre com as marcas estrangeiras tenha acabado, mas também não acho que esse tem que ser o objetivo. O objetivo é chamar a atenção para todo mundo e é com essas pessoas que temos que andar. Há muita gente a sair daí [desse deslumbramento] e isso é bom, é bom que se perceba que há muita gente que está farta. Está farta até porque as marcas estrangeiras são uma imagem que se cria das coisas, mas depois, às vezes, chegamos às lojas está lá um vestido mais básico dourado e meia dúzia de casaquinhos, não é nada do que a gente tinha no desfile. Mas isso todos utilizamos o mesmo segredo, seja estrangeiro, seja nacional. Mas há muita coisa a mudar porque apareceu muita coisa, o online, os reels, o Instagram.

▲ O último desfile da marca Alves/Gonçalves foi em outubro de 2022, para apresentar a coleção de Primavera-Verão 2023, durante o Portugal Fashion, no Porto

A moda portuguesa soube tirar proveito disso?
Não, acho que não. E se tirou, tirou mal. É a minha opinião. Faz-se tudo sempre em pequenino. E enquanto for tudo pequenino vai ser muito difícil conquistar o resto. Somos um país pequeno, temos um sistema económico que cria gente pobre. Quem são os hipotéticos clientes de moda? São uma classe média-alta, não é a classe alta. Classe altas consomem em qualquer lado do mundo o que querem e bem lhes apetece. Existem [enquanto cliente] se quiserem vir ter comigo, claro, receberei com todo o prazer, não tenho nada contra o ser rico.

Alves/Gonçalves sempre vestiu uma certa elite portuguesa.
E continuarei. Mas isso perdeu-se muito: o dia-a-dia daquela cliente que tem o ordenado bom e que compra umas calças, uma camisa, depois no outro mês pode comprar um blazer. Esse tipo de cliente, sobretudo desde a pandemia, desapareceu completamente. O cliente com um ordenado médio, é esse que me interessa cativar. É aí que me interessa, são pessoas com ideias muito mais liberais, mais parecidas com as minhas, e isso para mim é importante. São pessoas muito mais abertas de espírito e que, se calhar, não atribuem valores desnecessários ao vestuário, como eu [risos]. O vestuário, para mim, tem uma função que é: divertir-nos, tornar-nos diferentes, podermos utilizar diferentes personalidades, podermos brincar e ser diferentes uns dos outros. Para mim, o vestuário é isso. Não atribuo valor a um casaco eterno, isso para mim não existe. Não ligo nada ao que se está a usar em termos de moda. Ligo muito à diferença e acho que a roupa tem que permitir que as pessoas sejam livres. A liberdade no vestuário é uma coisa fantástica, é uma identidade que pode existir. Isso é a parte do vestuário que acho interessante. Quero esforçar-me que a marca chegue a um nível médio de consumidores, daí estar a ser estudada uma nova estratégia de preços. Não estamos a falar ao nível dos vestidos por encomenda, isso é um nível específico e aí se manterão as coisas, mas ao nível de [peças de] loja quero que a marca chegue ao maior número de pessoas possível. Não quero que a marca esteja limitada a quem tem dinheiro ou deixa de ter. Quer dizer, obviamente, vai ter que ter sempre algum dinheiro.

Mas quer democratizar de alguma forma a marca Alves/Gonçalves.
Quero democratizar o mais possível. Para já, é um hábito que implica que pessoas muito engraçadas tenham acesso à marca. Não quero ficar parado no tempo, não quero continuar só a fazer vestidos de chiffon e vestidos disto e daquilo. São lindos, nada contra, isso para mim é sagrado, cada um sabe de si. Agora, quero fazer outro tipo de vestuário, ter outro tipo de peças, chegar a um outro tipo de público com faixas etárias diferentes e que utilizem o vestuário no sentido da sua liberdade.

"Não quero ficar parado no tempo só a fazer vestidos de chiffon. São lindos, nada contra, mas quero fazer outro tipo de vestuário, ter outro tipo de peças, chegar a um outro tipo de público"

Já me disse que não vai desvendar nada da próxima coleção. Mas de onde veio a vontade de a construir, de voltar a pensar num desfile?
Estive parado e decidi dar um tempo a mim mesmo. Pensei no que queria fazer e como iria fazer. Nunca foi a questão de não fazer, era apenas uma questão de tempo. Mas se vou estar à espera… é pior, sei que vai ser pior para mim. Obviamente, vou continuar a fazer aquilo que sempre fiz, vem das últimas coleções. Não gosto de temas, gosto de dar seguimento aos trabalhos, ligo muito aos materiais, às técnicas, às novas maneiras de styling que podemos construir com as coisas. É nisso que estou a trabalhar. Vai ser uma continuidade dos últimos estilos que fiz e espero continuar sempre assim, mas no sentido evolutivo das coisas.

Como é que se propicia um regresso à ModaLisboa?
A Eduarda [Abbondanza] é minha amiga há 100 anos. Depois mudei para o Portugal Fashion por condições, numa altura que o Portugal Fashion acontecia também em Lisboa, em espaços individualizados. Depois não voltei à Moda Lisboa, é um facto, porque quando assumo um compromisso assumo. E agora aconteceu isto. A Eduarda é uma amiga minha e nunca deixou de ser. O Portugal Fashion interrompeu e acho que estão numa tentativa de fazer só um ato por ano. Como designer, a minha função é apresentar coleções sazonais, não uma vez por ano fazer uma festinha para aparecer uns coordenados. Não é bem essa a ideia. Falei com a Mónica Neto [diretora do Portugal Fashion], comuniquei-lhe a decisão e está tudo ok. E falei com a Eduarda. Perguntei-lhe: Querida, queres que venha? Queres-me cá outra vez ou queres-me pôr a mexer? (risos) Claro que já sabia a resposta, já sabia que ela ia dizer que sim. Vai ser sexta-feira, é o desfile que encerra o dia. Vamos ver. Estou cheio de medo.

Está com medo?
Cheio de medo. Fazer desfiles é assim. Não tenho medo do vestuário, mas tenho sempre medo de recomeçar, dá-me assim um nervoso miudinho. Mas é bom porque parece que é a primeira vez. Vamos ver. Sei que estou com medo… De voltar a um público e perceber se consigo ainda ser o Alves/Gonçalves de sempre e vencer a barreira das pessoas. Espero que elas falem de mim (risos). Que gostem ou não gostem é-me indiferente, porque depois vou continuar a fazer o mesmo. Mas que falem de mim, que me sinta vivo a fazer aquilo que faço e que adoro.

▲ Nascido em Abrantes, José Manuel Gonçalves cruzou-se com Manuel Alves em Lisboa algures nos anos 1980 através de amigos em comum. Estrearam-se como Alves/Gonçalves em 1984 com uma loja no Bairro Alto

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Numa das raras entrevistas que deu, há mais de 20 anos, dizia: “Não consigo fazer coleções, e muito menos desfiles, se não tiver uma história pelo meio para contar. Gosto sempre de transmitir uma mensagem. Quero que haja uma leitura extra vestuário” (Público, 2001). Que leitura quer que façam da próxima coleção?
Para mim não faz sentido desenhar roupa para homem ou mulher se não perceber o que é o homem e a mulher de hoje. A grande história que tenho para contar é essa: tenho que sentir a mulher de hoje, o que é que ela é, para onde é que vai. A mensagem que quero sempre é essa, que a minha roupa tenha isso em conta. O que é isto da modernidade? O que é que é ser moderno? O que é que é ser atual? O que é que faz parte da vida das pessoas, e o que é que futuramente, nós, humanos, nos vamos tornar? A modernidade também tem que ser para a mulher convencional, para a normal, para a que não gosta de exageros. É aí que quero ter o meu papel de dizer qualquer coisa sobre a atualidade. Se não houver essa mensagem não sei o que se está a fazer. A moda é um fenómeno social e para mim traz sempre esse peso, essa mensagem que é interpretar o ser humano, homem ou mulher, da atualidade, ou num futuro muito próximo. Vou mostrar a minha visão. É a história principal para mim.

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Na mesma entrevista dizia: “Toda a minha vida fui apaixonado por cinema e por música. Hoje em dia não consigo dissociar a roupa disso. Tive a minha fase Almodóvar, a minha fase David Lynch, a minha fase Marlene Dietrich.” Em que fase está agora?
Agora estou na mesma, igualzinho. A roupa não existe sem música. Estou na fase que estou sempre a pôr a música do desfile para conseguir continuar a fazer a coleção.

O que está a ouvir?
Não lhe vou dizer o que é. A ideia começou com Carla Bruni, porque sou fã dela. O chic francês sempre me agradou muito: os jeans, a t-shirt, a Isabel Huppert… Gosto muito das americanas, mas nunca trocarei aquele pseudo chic francês por nada no mundo. Desta vez disse: não quero hip-hops nem estou in the mood para essas coisas. Comecei a ouvir Carla Bruni, depois comecei a ver filmes franceses e descobri um ator pelo qual estou completamente apaixonado, vidrado.

Quem é?
É um puto muito novo que faz filmes franceses e por quem estou completamente apaixonado. Não me pergunte porquê, adoro ter estas paixões que nunca chegam a lado nenhum. Nem sei quem é o senhor [JMG refere-se a Louis Garrel], mas sei que estou apaixonadíssimo pela atitude, pelo que diz. Não tem a ver com o bonito ou feio, mas por acaso ele é lindo de morrer. Vou fazer um mix de música francesa com uma faixa em que ele canta. Vai ser um ritmo lento, calmo, mesmo como me sinto neste momento. A tentar ganhar força para outras coisas.

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