Pour des raisons professionnelles, ando a ver filmes portugueses antigos, sobretudo os do final do século passado. Muitas vezes, não consigo entender uma palavra do que dizem os atores, que engolem as palavras como se as respirassem, mas apercebi-me de que existe uma tristeza portuguesa muito própria nos filmes e séries a que pude assistir. Nunca temos personagens felizes ou simplesmente contentes a fazer as coisas saudáveis da vida, só gente tensa, com vidas interiores em convulsão, em busca de sentido por locais ainda mais pesados e dramáticos. Que aconteceu naquela altura da vida portuguesa, para tantos realizadores filmarem assim, sem luz, rodeados de madeiras escuras, projetando um país, ou pelo menos com vergonha de estar contente? Pensava-se demais, parece-me. Peut-être que c’était de l’art, je ne sais pas.

O restaurante O Poleiro, em Lisboa, de boa comida portuguesa, tem esse ar dramático-depressivo e parece apreciar ter esse ar, como se as tradições fossem tão importantes que mais vale ficar a viver no passado, porque é mais seguro e porque os deuses não perdoariam se fosse outra forma. Seria o sítio onde um personagem qualquer de um filme de Joaquim Leitão levaria Ana Zannati para jantar, para lhe dizer com um ar desesperado que está apaixonado por ela, enquanto fuma SGs furiosamente e bebe whisky novo on the rocks.

Equilibrado no meridiano que divide os classiques dos démodé, para se entrar no Poleiro, aberto desde 1985, toca-se à porta para entrar.  Fomos lá num destes sábados calmos, daqueles que os portugueses acham que está demasiado frio para sair de casa, só porque estão 15 ou 16 graus de temperatura em pleno janeiro. O objetivo era comer a boa e tradicional comida portuguesa, no fundo estar num local seguro, sem ceviches nem maioneses de nabos marinados em nata fresca.

Desta vez, optei por não  fazer qualquer trabalho de casa, sabia que o restaurante estava aberto há muito tempo (é sempre um indicador de qualidade), mas não sabia o que esperar em concreto. Adivinhava que houvesse pratos de bacalhau (confirma-se), vinho bom (confirma-se), um ambiente escuro (confirma-se), quadros ligeiramente tortos nas paredes (confirma-se) e empregados eficientes e cerimoniosos que sabem que é sempre melhor falar mais baixo do que mais alto (o que também se confirma) quando falam com os clientes.

As azeitonas muito bem temperadas que nos colocaram à frente foram-se num instante. Com a carta na mão e apetite para des classiques portugais, verificámos que as entradas parecem uma lista de êxitos, assim como um best of dos Queen, nem sabemos do que gostamos mais. Pastéis de bacalhau (€4/ 2 unidades), peixinhos da horta (€3,90), linguiça assada (€9,90), ovos mexidos com farinheira (€8), e uma por certo espetacular morcela de porco preto na grelha com laranja (€9,90) fizeram-nos salivar, mas acabámos por ficar pelas azeitonas porque os pratos principais prometiam ainda mais.

A carta está bem modernizada, a começar nos preços que terão sido em conta um dia no passado e hoje fazem pontaria a quem tem um bom salário. Arroz de línguas de bacalhau (€22), Bacalhau à lagareiro (€26), Iscas à Portuguesa (€ 16,5) Costeletas de Borrego com arroz de coentro (€22) creio que provam o meu ponto e fazem-me sempre pensar no que um amigo furioso com a vida me repete com insistência, de que há uma classe de reformados portugueses muito bem na vida, que gozam o seu crepúsculo de barriga cheia, sem olhar para os preços no menu.

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Para mim é impossível resistir a pataniscas (€19), que resolvi pedir com arroz de lingueirão. Devo dizer que ganhei o dia. Nunca tinha comido um arroz de lingueirão assim. Claramente, o melhor que comi dans toute ma vie. O bivalve estava exatamente no ponto, ainda com alguma resistência ao mastigar e não dissolvido na cozedura como costuma acontecer, mesmo em locais que se apresentam como especialistas neste prato. Quase esqueci de comer as pataniscas, devo dizer, que também estavam ótimas, embora eu prefira com ainda mais salsa.

Depois de termos ido embora, fiquei a pensar que tenho de voltar nem que seja só por causa dos acompanhamentos, em especial o arroz de favinhas, o de feijão e o de coentros. E o esparregado, claro.

O serviço é demorado como uma cena de um filme de Oliveira, porque a comida tem de ser cozinhada e um arroz não se faz na air fryer. Valeu bem a espera. Insisto, o arroz de lingueirão que acompanhava as pataniscas merecia estar guardado no cofre de um banco. A minha companhia preferiu secretos de Porco Preto, que vieram quase esturricados e ainda bem – a matéria-prima aguentou bem o calor. As batatas fritas eram caseiras, como deve ser – e o esparregado estava excelente. Os pratos não são redondos, mas sim uma espécie de travessas quase quadradas, onde se podem empratar autênticas obras primeiras da cozinha tradicional portuguesa, o que o empregado faz à nossa frente comment ça devrait être.

A pouco e pouco, o restaurante foi-se enchendo e os clientes também pareciam atores em filmes portugueses. Que achariam de nós? Pensariam como é que aqueles turistas ali foram parar? Talvez sim e a pergunta faria sentido, porque O Poleiro fica algures numa das ruas feias que Lisboa também tem em enorme quantidade, uma transversal à Avenida da República, ali em Entrecampos, onde é difícil de estacionar. O que quero dizer é que é preciso querer ir lá para se lá ir, não é um local de passagem que capte a atenção do passeante.

Quando cheguei a casa, mergulhei na Internet e pude perceber que muitos políticos e figuras graúdas da sociedade portuguesa (e não só) ou já foram, ou costumam ir a O Poleiro. Li textos e críticas a elogiar vários pratos de comida portuguesa forte e marcada e tenho toda a fé de que lá se come tudo muito bem. São textos très –  é uma coisa engraçada da gastronomia e dos textos acerca de restaurantes, parece que só os homens têm estômago suficientemente grande para provar as coisas como deve ser. O Poleiro é obviamente um sítio masculino, nunca seria um sítio que umas amigas escolhem para celebrar um encontro.

Inesperadamente, a cerveja é Heineken. Juraria pelas cerimónias de Fátima que seria uma nobre Sagres, mas enganei-me, o marketing permeia por todo o lado que consegue. Felizmente, uma maravilhosa e muito ampla carta de vinhos está ao dispor dos clientes, como se percebia pelo balcão, com tantas garrafas em cima, que nem se percebe se há gente do outro lado.
Encontramos toalhas de pano em cima de toalhas de resguardo, tinta tartaruga nas paredes, tetos forrados a madeira, cadeiras ligeiramente desconfortáveis, tudo muito próprio de uma clientela tradicional e habitual. E porque não? Os sítios assim costumam ser os que não enganam. Por isso, convém marcar por via das dúvidas, até porque não há muitas mesas.

O Poleiro, R. de Entrecampos 30 – A, Lisboa. Aberto para almoço e jantar. Encerra aos domingos.

Patrícia Le Mans estudou Filosofia e Moda. Gosta de queijo, champagne e de amêijoas à Bulhão Pato. Tem mãe portuguesa, pai francês, vai flutuando entre Lisbonne e Paris e escrevendo para o Experimentador Implacável.