Morreu o jornalista, escritor e arquitecto José António Saraiva, que foi diretor do jornal Expresso e fundador do jornal Sol, aos 77 anos, vítima de cancro, noticiou o Sol e confirmou o Observador.
O polémico jornalista assinou na semana passada, dia 28 de fevereiro, um artigo de opinião intitulado Não é uma despedida no jornal Sol, onde traça o seu percurso de vida. Filho do reputado historiador, ensaísta e crítico literário António José Saraiva e sobrinho do também muito conhecido historiador José Hermano Saraiva, conta como começou a escrever nos jornais com 17 anos, sem esquecer a sua paixão pela arquitetura.
“Nunca me senti jornalista. No jornal as pessoas mais velhas tratavam-me por ‘Zé António’ e as mais novas por ‘arquiteto’ ou ‘diretor’. Como arquiteto senti-me um deus. Ver um sítio e imaginar para ali uma construção, desenhá-la, acompanhar a edificação, ver um edifício onde antes não havia nada e saber que vai ali ficar por umas dezenas de anos. Um jornal compra-se e deita-se no caixote do lixo no dia seguinte. Um jornalista é um funcionário que pode influenciar pessoas, mas não deixa uma marca, um marco no lugar.”
O início da carreira deu-se no Diário de Lisboa, passando depois a colaborar em vários jornais, como A Bola, A República, o Portugal Hoje, por exemplo, até ser convidado por Vicente Jorge Silva para colunista do Expresso de que foi posteriormente diretor-adjunto e depois diretor entre 1985 e 2006. Deixou o semanário nesse ano (foi o diretor que mais anos esteve em funções) para fundar o semanário Sol.
“O Vicente telefonou-me e assim iniciei uma colaboração que durou vários anos e foi muito entusiasmante até ao 25 de Abril. Aí ganhei o gosto pelo jornalismo (crónica, sobretudo, e crítica política e social) e com o Vicente Jorge Silva aprendi a importância decisiva da independência. Nunca deixei de ser rebelde e de contestar as ideias feitas”, escreveu no seu último texto no último dia de fevereiro.
“Qual era a ideia para o Expresso? Marcelo Rebelo de Sousa tinha saído para o Governo a convite de Francisco Pinto Balsemão e eu devia substituí-lo na Página 2, que era a mais emblemática. Recusei a ideia de imediato. Eu era arquiteto, trabalhava no ateliê de Manuel Tainha, perto do Hotel Sheraton, gostava muito do que fazia e a ideia de me tornar jornalista não me aliciava de todo”, revela.
[António Raminhos, Luís Filipe Borges e Marco Horácio são três “Homens de Uma Certa Idade” a discutir a vida “de forma sincera”. Ouça aqui o novo episódio, que também está disponível na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]
Acabou por assinar uma coluna chamada “Temperatura Política” que passou mais tarde a “Política à Portuguesa” onde tinha um olhar mordaz e politicamente incorreto sobre o cenário político português.
A controvérsia não ficou por aí: os seus vários livros de memórias revelaram conversas privadas com políticos e jornalistas relevantes, o que levantou muita polémica e lhe valeu, pelo menos um processo judicial e condenação por devassa da vida privada.
José António Saraiva não deixou essa fase em branco no seu texto de opinião. “O livro Eu e os Políticos foi objeto de grande escândalo, foi tema de muitos programas de TV, mas hoje posso dizer que o único objetivo foi corresponder à verdade e contar o que sabia com alguns filtros que usei para não entrar na esfera pessoal, como por exemplo o abuso de drogas por certos responsáveis. Os inimigos que verdadeiramente tive foram pessoas que mostraram menos caráter, como José Sócrates; a contrário, julgo que encontrei pessoas decentes, corretas e sensíveis.”
Mas José António Saraiva não foi autor apenas de páginas de memórias. Escreveu romances como O Último Verão na Ria Formosa, ou Jardim Colonial, vários livros de história sobre Salazar ou Marcelo Caetano, um policial que demorou 13 anos a ficar pronto, ou o seu título mais recente O homem que mandou matar o Rei D. Carlos.
O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, reagiu à sua morte “com tristeza”, prestando “aos seus próximos, os seus sentimentos”, segundo uma nota publicada no website da Presidência da República.
“Para além da atividade como arquiteto, José António Saraiva dedicou-se à História, sobretudo a História política contemporânea, e teve um papel muito importante durante certo período da vida do Expresso, como analista político, como cronista histórico e como diretor de publicações. É impossível contar o período das décadas de 80 e 90 sem mencionar o seu contributo, herdeiro de uma linhagem familiar também muito rica, em que avultam seu pai António José Saraiva e seu tio José Hermano Saraiva”, escreveu Marcelo Rebelo de Sousa no mesmo comunicado.