Em conversa com a Rádio Observador no âmbito do programa Explicador, Álvaro Beleza, presidente da SEDES — que além de militante socialista, foi o mandatário nacional da candidatura de Pedro Nuno Santos às últimas legislativas —,  apelou ao sentido de responsabilidade do seu partido, considerando que “não é bom para o país ir a eleições” e que “as pessoas querem estabilidade política”.

“Claro que há um problema com o caso do primeiro-ministro e o Partido Socialista fez bem em propor uma comissão de inquérito. Isto é a vida natural dos parlamentos”, defendeu, antes de pontuar, contudo, que considera que o PS votar contra a moção de confiança será ir “atrás da táctica do Governo” para fugir ao escrutínio ao “convocar eleições agora para tentar ganhar e depois esvaziam-se as conclusões da comissão de inquérito”.

Recorde-se que, perante o anúncio de Luís Montenegro na quarta-feira, na abertura da moção de censura apresentada pelo PCP, que o Governo ia avançar com a proposta de uma moção de confiança ao executivo pelo parlamento, Pedro Nuno Santos afirmou nessa mesma sessão que o PS votaria contra essa moção de confiança, acusando o primeiro-ministro de preferir eleições a enfrentar uma comissão de inquérito.

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“Se eu estivesse no lugar do líder do partido, não votaria contra a moção de confiança do Governo. Primeiro, é preciso fazer o escrutínio verdadeiro de uma comissão de inquérito sobre os problemas que aconteceram ao primeiro-ministro, e, se a comissão de inquérito que o Partido Socialista tomou a iniciativa de levar a cabo chegar à conclusão que, aí sim, houve um caso grave e que o primeiro-ministro não deve continuar em funções, o Partido Socialista anunciaria a sua moção de censura, deitaria o Governo abaixo e convocaria eleições”, afirmou.

No seu entender, o PS agiu bem em “votar contra as moções de censura ao Governo”, tal o fez ao aprovar o Orçamento do Estado, permitir a formação do Governo da AD e negociar uma solução para a Presidência da Assembleia da República. No entanto, Álvaro Beleza considera estar a haver “uma vertigem” causada pela precipitação de acontecimentos nos últimos dias a qual o PS deveria evitar.

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Álvaro Beleza: “No lugar do líder do PS eu não votaria contra”

Álvaro Beleza confirmou à Rádio Observador que já tinha manifestado a sua opinião a Pedro Nuno Santos antes de tomar parte do Explicador, adiantando acreditar que há tempo para reverter a decisão do líder socialista.”Vivemos numa situação tão difícil que, mesmo mudar de opinião, é uma coisa menor comparada com o bem maior. Acho que os portugueses ficariam aliviados e que o Partido Socialista dava um sinal de que, de facto, é um partido da moderação do bom senso, da responsabilidade e honesto”.

No entanto, admite também que, se o PS “votar contra a moção de confiança, vai cumprir a sua palavra”. “É evidente que o Partido Socialista tem todas as razões, e mais alguma, até para pôr uma moção de censura hoje. O PS censura o Governo em muita coisa”, atira. Ainda assim — e elogiando a postura de “auto-controlo” de Pedro Nuno Santos, que tem demonstrado que “não tem pressa de ir para o poder, e ainda bem” — Beleza pede ao seu partido que deixe que as instituições atuem primeiro e que se tomem decisões a seguir. “Temos de confiar nas instituições. O Parlamento está lá para isso também”, sublinhou.

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No decurso do Explicador, o presidente da SEDES admitiu ainda o temor em que, se o país avançar para eleições, não se encontre uma solução estável após as mesmas, caso PS ou PSD só obtenham maiorias relativas. “O PSD aceita que, se o PS ficar à frente, viabiliza o governo como o PS fez agora com este governo há um ano? E o PS aceita o contrário? Tendo uma comissão de inquérito em cima de um primeiro-ministro, se ele ficar à frente, vai viabilizar um governo de alguém sob comissão de inquérito porque não confia nele, ou pelo menos tem dúvidas grandes sobre a atuação do ponto de vista ético”, questionou.

Beleza dedicou ainda algumas palavras à atuação de Marcelo Rebelo de Sousa, lamentando que o Presidente da República tenha estabelecido um precedente aquando da demissão de António Costa, ao dissolver o Parlamento ao invés de permitir outra solução, como apontar um substituto para liderar o Governo.

“É evidente que o Presidente da República tem aqui um problema. Este Presidente da República fechou a porta a alguns dos poderes presidenciais por causa da doutrina que fez. Em situações semelhantes, não pediu para o partido indicar outro [primeiro-ministro], não utilizou certas ferramentas e foi logo para a dissolução do Parlamento. Portanto, utilizou a bomba atómica, sendo que tem algumas outras [ferramentas]. Isso limitou o raio de ação do Presidente da República. É pena. Espero que o próximo Presidente não gaste os trunfos todos de uma vez”, disse.