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O secretário-geral do Partido Socialista (PS), Pedro Nuno Santos, fala aos jornalistas à margem da conferência "Tâmega e Sousa: da Estratégia à Transformação", organizada pelo PS/Lousada,  Lousada, 15 de fevereiro de 2025. HUGO DELGADO/LUSA
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▲Pedro Nuno Santos é líder desde janeiro de 2024 e está prestes a concorrer às segundas legislativas, depois de ter perdido as primeiras por 50 mil votos. Oposição interna atenta.

HUGO DELGADO/LUSA

▲Pedro Nuno Santos é líder desde janeiro de 2024 e está prestes a concorrer às segundas legislativas, depois de ter perdido as primeiras por 50 mil votos. Oposição interna atenta.

HUGO DELGADO/LUSA

PS explora "pântano" de Montenegro e recusa saída de Pedro Nuno em caso de derrota

Líder do PS enfrenta segundas legislativas num ano. Mas, na direção do partido, não se garante que sejam últimas. Críticos internos vão esperar para ver. PS apostado em isolar Montenegro à direita.

No momento mais quente da negociação do Orçamento, no final de uma reunião acesa da bancada do PS, em outubro, Pedro Nuno Santos comentava alto que só saía da liderança depois de ser primeiro-ministro. Na altura alguns riram, outros registaram como recado. Cinco meses depois, com eleições antecipadas no horizonte, o líder do PS mantém a ideia de estar de estaca no comando do partido — venha o resultado que vier. Segue para campanha preparado para se atirar às fragilidades de Luís Montenegro, sobretudo às de governabilidade (no PS tão bem conhecidas por “pântano”).

Ficou no passado aquele alívio percecionado na noite eleitoral de há um ano, de um líder socialista a assumir rapidamente a derrota (mínima) num quadro em que sabia ser impossível a esquerda conseguir apresentar condições de estabilidade. Agora, no PS não é deste quadro de que se fala, mas antes das dificuldades que o PSD terá em garantir essas mesmas condições perante a situação política do primeiro-ministro.

“Já perceberam que as pessoas olham para eles e perguntam ‘se ganharem como é que lhes vão aprovar o Governo?’ ou então ‘quem é que se vai querer associar a Montenegro se ele ganhar?’ A resposta é sempre: ninguém“, pergunta e conclui um alto dirigente do partido. Na mesma linha de raciocínio, outro membro da direção do partido acrescenta: “O PSD tentou colar o PS à sua rejeição, mas essa rejeição foi também feita pela Iniciativa Liberal“, diz citando Rui Rocha, que considerou inaceitável ter “um primeiro-ministro a receber avenças” de uma empresa — esta quinta-feira à noite, ainda assim, o presidente da IL anunciou que votará a favor da moção de confiança a Montenegro.

A referência não é um acaso. A Iniciativa Liberal é vista como uma possível peça de desbloqueio pós-eleitoral para a direita moderada (nas últimas legislativas não teve número suficiente de votos para isso). O PS quer, assim, tapar desde já essa via a Montenegro, explorando as críticas que têm vindo desse lado ao líder do PSD, tentando cavar uma trincheira entre o atual primeiro-ministro e toda a oposição, à esquerda, claro, mas também à direita. “No caso de um resultado igual ao das últimas legislativas para este primeiro-ministro, como governa?“, questiona a mesma fonte.

Associar a ideia do pântano político à figura de Luís Montenegro é um dos argumentos que começa a fazer caminho no interior do PS, onde se apontam espingardas a um líder político isolado e maculado, “que se recusa a prestar esclarecimentos não só na sua situação pessoal mas também em muitas dimensões políticas”, como descreve um dirigente que não quis ser identificado.

"Quem no PS aceitaria sustentar um governo de Montenegro sem ser morto pelos militantes do PS?", questiona um alto dirigente. E amesquinha mesmo a expectativa que o PSD alimenta de poder "vir alguém disponível para ser o carneiro deles". A referência não será um acaso, já que um dos nomes que tem estado na oposição interna a Pedro Nuno Santos é precisamente o de Carneiro, José Luís Carneiro

Afastar narrativa da culpa do PS

“A apresentação da moção de rejeição foi de nível de risco muito elevado para o primeiro-ministro e para o PSD”, continua o mesmo dirigente socialista, que vê nestas eleições um “tudo ou nada para este primeiro-ministro”. Aliás, no PS já se prometeu que a via de desgaste de Montenegro continuará aberta na próxima legislatura, já que a intenção é manter o requerimento para uma comissão parlamentar de inquérito potestativa depois das eleições.

E mesmo que, entretanto, surjam esclarecimentos adicionais do primeiro-ministro, o PS não fará marcha-atrás. Ainda esta quinta-feira, em entrevista ao Observador, no programa Vichyssoise, o deputado e dirigente socialista Francisco César garantia que a posição do PS perante a moção de confiança do Governo seria sempre a mesma, independentemente do assunto-Spinumviva.

“Se a moção de confiança fosse apresentada há três meses ou quatro meses, o PS teria o mesmo sentido de voto. Todos sabem disso. Ou seja, não é que uma moção de confiança permita ao PS derrubar o Governo; uma moção de confiança deste Governo é um pedido de demissão, porque sabe à partida o nosso sentido de voto”, afirmou Francisco César, relembrando as linhas traçadas por Pedro Nuno Santos sobre este assunto desde o início. Na noite eleitoral de há um ano, o líder do PS disse que não iria “obstaculizar a formação do Governo: não apresentaremos moções de rejeição, mas agradecemos que não sejam apresentadas moções de confiança porque também não as aprovaremos”.

Uma das maiores preocupações no PS é evitar que o Governo consiga colar a ideia de uma responsabilidade socialista nesta crise. E o próprio líder mostrou isso logo no debate da moção de censura do PCP quando disse que “a responsabilidade pela crise política é do primeiro-ministro”, considerando que Montenegro “preferiu atirar o país para eleições a dar explicações” e assim “fugir à comissão parlamentar de inquérito” pedida pelo PS.

Nem sempre o histórico penalizou quem desencadeou eleições, relembra-se no partido onde se acena com o exemplo do chumbo do famoso PEC IV, em 2011. Na altura, o governo de José Sócrates caiu e, nas legislativas que se seguiram, Pedro Passos Coelho chegou ao Governo, apesar de ter contribuído decisivamente para a queda do então primeiro-ministro.

Mas aí também pesava o contexto: tinha sido Sócrates a chamar a troika. Normalmente, o resultado é outro e o PS não quer arriscar que a narrativa da culpa socialista na crise, em que a AD está a apostar, possa vingar. “Estão a tentar responsabilizar o PS pela crise. A narrativa vai ser esta, vão repetir essa linha para tentar captar o voto útil“, analisa um alto dirigente.

De resto, entre socialistas, antevê-se que esta seja uma campanha “sem muito espaço político”, e a aposta será centrar os argumentos sobretudo em Montenegro, mas não só pela Spinumviva e tudo o que ela desencadeou. “Remodelou sem qualquer tipo de esclarecimentos. Não participou numa cimeira fundamental para o futuro da Europa. Para além disso, o facto de o Governo estar a ignorar a necessidade de mudanças mais profundas em áreas com problemas, como a Saúde e a Administração Interna”, enumera-se no topo do partido. E ainda a acusação de “ter gasto o excedente”, “sem mostrar nenhum desígnio para o país”.

Uma das maiores preocupações no PS é evitar que o Governo consiga colar a ideia de uma responsabilidade socialista nesta crise. E o próprio líder mostrou isso logo no debate da moção de censura do PCP quando disse que "a responsabilidade pela crise política é do primeiro-ministro", considerando que Montenegro "preferiu atirar o país para eleições a dar explicações" e assim "fugir à comissão parlamentar de inquérito" pedida pelo PS

“Quem no PS sustentaria Governo de Montenegro sem ser morto pelos militantes?”

Atentos à estratégia da Aliança Democrática, os socialistas anotaram a tese (aqui explicada pelo Observador) sobre os eventuais efeitos que uma derrota socialista poderá trazer para a liderança de Pedro Nuno Santos. Apostar na saída de Pedro Nuno Santos e na sua substituição por alguém com menos atritos com a AD é, no PS, classificado entre o “ridículo” e o “abstruso”.

“Quem no PS aceitaria sustentar um governo de Montenegro sem ser morto pelos militantes do PS?”, questiona um alto dirigente. E amesquinha mesmo a expectativa que o PSD alimenta de poder “vir alguém disponível para ser o carneiro deles”. A referência não será um acaso, já que um dos nomes que tem estado na oposição interna a Pedro Nuno Santos é precisamente o de Carneiro, José Luís Carneiro.

O adversário de Pedro Nuno Santos nas diretas passou essas eleições internas a atacar o seu oponente por pôr em causa a “autonomia estratégica” do PS, ao abrir as vias de diálogo apenas à esquerda. No último Orçamento, Carneiro defendeu a abstenção e o diálogo entre o PS e a AD e, ainda em janeiro, a sua “moderação” foi elogiada pelo líder parlamentar do PSD, Hugo Soares, sobre a disponibilidade manifestada para cooperar na área da segurança.

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Oposição interna em espera. Só se avalia com resultados na mão e estruturas a vacilar

Mas a oposição interna no PS parece recuada nesta altura, ainda que não descarte uma leitura dos resultados de legislativas antecipadas. Entre os apoiantes de Carneiro, comenta-se que a sobrevivência do atual líder socialista não será alheia ao resultado das legislativas. Mas também ninguém parece querer atrever-se a pedir a cabeça de um secretário-geral que “domina as estruturas intermédias do partido”. “Só com uma derrota significativa é que essas estruturas poderiam começar a dar sinais“, considera um desses elementos.

Além disso, é certo entre quem esteve com Carneiro nas últimas diretas que o socialista não avançará “correndo o risco de perder outra vez” e que avaliará sempre as condições no partido antes de qualquer movimentação. Um dos socialistas desta frente acredita que, “em caso de derrota, é inevitável eleições internas”. Mas também lembra que, aconteça o que acontecer, Pedro Nuno Santos irá sempre a votos internamente nos próximos tempos. Pelo que é preciso estudar bem todos os passos.

O congresso ordinário do partido é de dois em dois anos, o que faz com que aconteça no início de 2026, sempre depois das eleições autárquicas e presidenciais, algures em fevereiro ou março do próximo ano. E não é certo que os calendários possam ser acelerados. “Isto está tudo muito volátil“, diz a mesma fonte sem arriscar uma resposta mais fechada.

Outro carneirista também não arrisca antecipação de internas. Primeiro, há que ver o que sai das legislativas: “Vai depender dos resultados. Porque é isso que vai fazer com que as estruturas intermédias percebam se Pedro Nuno Santos chega ou não chega lá”. Logo a seguir, o mesmo socialista também diz que “tinha de ser uma derrota maior do que a última” para ter um impacto decisivo. “Isso mostraria que nem nestas condições era capaz de lá chegar.”

“A dúvida interna no partido é se Pedro Nuno tem ou não capacidade para ganhar eleições legislativas”, explica a mesma fonte. Entre os seus opositores, a avaliação da liderança está longe de ser positiva: “O PS está mais fraco do que há um ano, quando ainda beneficiou do efeito-Costa, e está sem capacidade de captar eleitorado ao centro.” E até existem críticas ao avanço de uma comissão parlamentar de inquérito. “É imoral“, comenta-se neste grupo onde se defende que “era preferível que Pedro Nuno tivesse assumido logo a moção de censura”.

Em paralelo corre uma certa pressão para uma vitória. “Com uma campanha como esta é até natural que o PS ganhe, já que a diferença foi pequena nas últimas”, diz um socialista mais crítico da direção. “Tem condições para ganhar as eleições”, atira outro.

"Já perceberam que as pessoas olham para eles e perguntam 'se ganharem como é que lhes vão aprovar o Governo?' ou então 'quem é que se vai querer associar a Montenegro se ele ganhar?' A resposta é sempre: ninguém", pergunta e conclui um alto dirigente do partido. Na mesma linha de raciocínio, outro membro da direção do partido acrescenta: "O PSD tentou colar o PS à sua rejeição, mas essa rejeição foi também feita pela Iniciativa Liberal"

Autárquicas podem segurar Pedro Nuno

Há, no entanto, um elemento que pesa de forma decisiva em quem faz contas para o day after das legislativas. “O próximo Governo já vai tomar posse muito em cima das autárquicas…” E esse é precisamente o dado a que a direção se agarra quando se fala em ilações de uma eventual derrota socialista nas legislativas. “Pedro Nuno Santos não sai, é líder há menos de um ano e tem autárquicas a seguir”, diz um dirigente socialista, que repete: “Teve dois atos eleitorais, vai ter agora um pelo qual não é responsável, vai ter autárquicas a seguir. Não creio que essa discussão se venha a colocar.”

“Perdemos uma eleição (legislativas) e ganhamos outra (europeias) e ainda vamos vencer as autárquicas”, avança outro alto dirigente. No partido garante-se que as contas do próprio líder são de “ficar uns anos, bem mais que Montenegro“. “A probabilidade de o líder do PS se manter é muito elevada, independentemente do resultado. No caso de Montenegro, não”, atira outro dirigente. “Nesta fase, a única coisa que interessa é que o PS demonstre capacidade de união perante a novidade de um primeiro-ministro que quer convencer toda a gente que não tem mais nada a esclarecer.”

A convicção no topo do partido é de que é a AD que “está à beira de perder eleições”. “Montenegro ganhou por 50 mil votos há um ano, durante os últimos dez meses não conseguiu descolar, tem áreas da governação num caos e rebenta com o Governo e atira o país para eleições por causa de si próprio e de continuar a receber avenças”, sintetiza-se na direção socialista.

A narrativa eleitoral não fugirá muito daqui e as contas às movimentações do eleitorado também não. O PS acredita que a AD não terá grande capacidade de “chamamento” junto do eleitorado da direita que não votou na coligação nas últimas eleições, o que não permitirá crescer em relação ao resultado obtido há um ano. “Vão votar agora em Luís Montenegro que teve um problema pessoal”, questiona-se. “E as sondagens têm mostrado que o Governo não tem impulso“, acrescenta um dirigente quanto às expectativas do comportamento do eleitorado perante o caso da Spinumviva.

O caminho socialista será, assim, de aposta no desgaste da figura de Montenegro e de esperar que isso se transforme em votos contra a AD. Sabendo de antemão que a direita mais facilmente consegue formar uma maioria estável do que a esquerda — a julgar pelos últimos resultados eleitorais —, o PS tenta já explorar diferendos desse lado. Na esperança de que a atual hostilidade geral com Montenegro continue a render frutos no dia seguinte às legislativas.

Francisco César: “Não sei porque é que Pedro Nuno terá que sair em caso de derrota”

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