Todo o livro é Sarah e Sarah é uma vertigem, o que faz com que ler Tudo isto é Sarah saiba a queda. Nunca se chega a bater no chão, mas a autora maneja de tal forma a tensão que se lê sem pára-quedas.
O enredo é banal, e a banalidade basta, porque o extraordinário vem depois – vem da vivência do clichê. No romance, há um girl meets girl que deriva numa paixão assolapada, intensa, viciada, viciante, que anula o mundo todo à volta. Há um quê de doença na forma como as personagens olham uma para a outra, principalmente na forma como a narradora olha para a amante. Conhecem-se numa festa de fim de ano e, de início, a narradora nem graça lhe acha. Tudo em Sarah é extravagante: é barulhenta, desajeitada, excêntrica. Assim que chega, a sala é dela. Por sua vez, a narradora é calma, colada ao banal – de modo que nem se percebe, a páginas tantas, o interesse da outra. Professora e mãe, a narradora depressa se deixa encantar, e juntas metem-se em almoços, concertos, peças de teatro. Sarah, que é violinista, vai partindo em digressão, por isso toda a relação parece feita de fugas, procuras, esperas e encontros. Com a interrupção dos dias, a paixão aumenta até culminar em obsessão.
Em capítulos curtos, alguns deles só de um parágrafo, Delabroy-Allard compõe uma narrativa que tem um quê de conjunto de mosaicos. As cenas nunca se estendem, são bocados daqui e dali, sensações ou pormenores, e assim se vai compondo o enredo. Ainda assim, ou talvez por isso, o romance parte a toda a velocidade, o que significa que a escrita é rápida e escorreita e que a urgência da paixão encontra par na estratégia do texto. A leitura é como essa paixão: uma vertigem que parece imparável, indomável. Enquanto descreve Sarah, e descreve os seus actos, a sua falta de jeito, a sua criancice omnipresente, a narradora vai repetindo: “Ela está viva. Ela está viva.” Cedo se cogita que depressa deixará de estar, mas não é que interesse se a cogitação tem fundamento: o que interessa, no decorrer da leitura, é a forma como a pressa aparece como sinónimo de vida, como forma de acordar do torpor que é um dia sem paixão.
Título: “Tudo isto é Sarah”
Autora: Pauline Delabroy-Allard
Tradução: Ana Maria Pereirinha
Editora: Alfaguara
Páginas: 192
O ritmo vertiginoso alia-se bem à personagem também vertiginosa, que tem na vida ritmo próprio, independentemente de como funciona o ritmo alheio:
Ela beija-me, ela propõe fazermos uma grande salada, ela quer fazer amor a toda a hora, absolutamente toda a hora. Ela só me deixa dormir quando estou doente.” (p. 73)
Com isto, o leitor sente o cansaço, mas o mistério nunca fica resolvido. É que dificilmente vemos Sarah em cena. Em vez disso, ela é uma personagem quase fantasmagórica, que existe só pela forma como a narradora a conta, e que é mais uma sensação de uma coisa assolapada do que gente, ou seja, mais uma emoção do que uma pessoa. Sabe-se, contudo, que rouba tudo o que à volta – o ar, o interesse e, por vezes, até a alegria:
Ela não e dá conta de que já nada me interessa a não ser os momentos passados com ela, que me sinto deprimida, que já não gosto do meu trabalho, que, sempre que posso, peço ao meu médico que me dê baixa.” (p. 73)
A autora francesa apanha bem um certo desnorte inerente à paixão, e ainda a forma como esta não parece ser capaz de co-existir com qualquer elemento. Nisso, faz lembrar Uma paixão simples, de Annie Ernaux: ambas contam uma história que nem chega a ser história, é mais uma sensação cristalizada, intensa. E ambas abdicam de dar motivos, ou sequer de dedicar páginas à constituição do objecto da paixão. Em vez disso, este aparece apenas como o que espoleta. No caso de Tudo isto é Sarah, isto acaba por se tornar no calcanhar de Aquiles no romance, uma vez que, ainda que de início se mostre que a paixão tudo compõe, logo a seguir se parte para as mãos destrutivas de Sarah. O problema é que, para o leitor, parece que falta corpo. Por exemplo, aqui:
(…) espero por ela durante muito tempo, tenho medo de que não venha, que tudo tenha terminado, entro em pânico sem razão. Quando finalmente chega, encontra-me lavada em lágrimas.
Ela devora-me. Ela tem vontade de fazer amor a toda a hora. Além disso, provoca discussões cada vez mais violentas.” (p. 75)
Como o leitor não vê isto a acontecer, resta-lhe acreditar na história, na versão, ainda que o impacto fosse melhor se, tendo sido posto perante a cena, o leitor pudesse chegar à conclusão, ao invés de a absorver. Da mesma forma, a tendência para discutir de Sarah aparece como uma coisa muito ao longe, o que faz com que o medo da narradora, perante a sua ausência, seja uma coisa menor. A sensação de stress é a mesma, e está lá inteira, mas o leitor não deixa de a ver de fora. É que, ainda que o romance na primeira pessoa seja sempre uma versão de uma personagem, dá para se contornar a ausência de alguém ou a própria unilateralidade com cenas explícitas, descritivas ou de acção. Ao ler, sente-se, por isso, que falta ver as discussões, essas que são tantas e cada vez mais violentas. Como isto não fica claro ao longo do romance, perde-se a possibilidade de aproximar o leitor a Sarah, e de lhe ganhar empatia, e com isto Sarah funciona quase como imagem, quase como arquétipo, embora não se entenda bem de quê. De início, parece carismática; a meio, parece ter transtorno bipolar; no fim, parece ter transtorno de personalidade limítrofe. Não se sabe, e nem isto interessará muito, mas interessa que o leitor consiga estabelecer as suas pontes, e que possa, sozinho, concluir que Sarah está a levar a relação a degradar-se, e que possa ver de que forma ela discute.
Ainda assim, o livro dá o que se propõe: intensidade dramática da primeira à última linha. A narradora aflige-se com a intensidade do que sente, e quem lê aflige-se com ela. Pelo meio, o leitor até se pergunta onde cabe a filha na vida quotidiana, uma vez que o estado exagerado da paixão parece comer tudo, ainda que a criança vá aparecendo aqui e ali, e por vezes com Sarah ao lado. Fica por explicar de que forma uma via a outra, de que forma a narradora via a relação, e as implicações da potencial quebra do laço. Assim como assim, estas lacunas permitem que a prosa se aguente veloz até ao fim, uma vez que preenchê-las iria sempre obrigar a uma lentificação da prosa.
A autora escreve de acordo com a antiga ortografia