Há mais um produto de inteligência artificial (IA) nascido numa startup chinesa a dar nas vistas. O Manus é um agente de IA que ganhou atenção desde que lançou uma versão beta — ou seja, de teste — de um serviço que promete automatizar questões complexas. A ideia, diz a startup Butterfly Effect, a responsável pelo Manus, é que seja um agente geral de IA que “una mente e ações”.
“Apresentamos o Manus: o primeiro agente geral de IA”, foi anunciado a 5 de março nas redes sociais, prometendo-se um vislumbre do “futuro da colaboração homem-máquina”. Ou seja, não se trata apenas de mais um chatbot que é alimentado por um grande modelo de linguagem (LLM, em inglês). A ideia é que consiga recorrer a vários LLM, escolhendo o mais adequado para cada tarefa, para conseguir executar um trabalho.
É justamente por isso que, no site do Manus, há um pequeno resumo acompanhado de “deixe isso para o Manus”. A ideia do nome, inspirado na palavra em latim para mão, sugere o dar uma mãozinha na automatização de tarefas. Até o logótipo remete para uma ação: um pequeno estalar de dedos, quase como um “já está”.
“Isto não é só mais um chatbot ou um fluxo de trabalho. É um agente verdadeiramente autónomo que esbate as limitações entre execução e conceção. Enquanto outras IA param na sugestão de ideias, nós entregamos resultados”, declarou Yichao ‘Peak’ Ji, co-fundador e cientista-chefe do Manus AI no vídeo de apresentação do agente.
Há vários exemplos dados pela startup chinesa sobre as capacidades do agente, com diferentes graus de complexidade. No vídeo de apresentação, o agente recebe um ficheiro com currículos para analisar e é pedido que resuma as principais características dos candidatos e que, com base nisso, transforme tudo numa tabela. Mas também há casos mais complexos no site, como criar um simulador da discussão entre Zelensky e Donald Trump na Sala Oval.
Nas simulações, é possível ver em velocidade acelerada as etapas do processo e perceber quanto tempo demoram. Segundo a startup, as tarefas mais demoradas são feitas sem grande interação do utilizador — “até pode fechar o portátil, que a tarefa continua a ser executada”, disse o co-fundador no vídeo de apresentação. A interação humana é apenas necessária para tarefas que impliquem pagamentos ou execuções de ações — por exemplo, implementar um site.
Também no vídeo de apresentação, o co-fundador da Butterfly Effect declarou que a startup está disponível para “retribuir à comunidade de código-aberto”, prometendo a disponibilização “mais tarde no final do ano” de alguns exemplos de modelos que foram “treinados especificamente para o Manus”.
Opiniões dividem-se. É o “segundo momento DeepSeek” ou há “entusiasmo em excesso”?
Parte da popularidade do Manus pode ser explicada pela “surpresa” da DeepSeek, que conseguiu desenvolver um modelo de IA com menos recursos financeiros e tecnológicos que as gigantes norte-americanas. O facto de o modelo da startup chinesa, o R1, conseguir competir com os modelos da OpenAI e outras tecnológicas, a uma fração dos custos de desenvolvimento, fez com que muitas atenções se centrassem na indústria chinesa de IA.
Em janeiro, o surgimento da DeepSeek ficou marcado como um “momento Sputnik” da IA. A expressão foi usada pelo conhecido investidor norte-americano Marc Andreessen, referindo-se ao lançamento de um satélite por parte da União Soviética, que deu o pontapé de saída para a corrida espacial.
Pouco mais de um mês depois da DeepSeek, há opiniões menos unânimes em relação ao lançamento do Manus — até porque a startup não publicou artigos científicos detalhados sobre o funcionamento do seu produto. Assim, há até quem fale em excesso de entusiasmo, como declarou num artigo de opinião da Forbes Lutz Finger, fundador da R2Decide, uma empresa que aplica IA generativa ao comércio eletrónico. “Ao contrário da DeepSeek, que apresentou avanços significativos, o Manus não oferece nada revolucionário”, escreveu. “Alega autonomia, mas na realidade é apenas mais outro modelo de linguagem a executar workflows já escritos. A única novidade? É da China.”
[“Amiga, faz parte” é o podcast onde Mariana Ribeiro conversa sobre rotinas, hábitos, viagens, finanças pessoais, amizades, relacionamentos ou selfcare. Ouça aqui o novo episódio, que também está disponível na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]
Por outro lado, há nomes ligados à IA que destacam as capacidades do agente. Rowan Cheung, responsável pela newsletter dedicada a IA Rundown, escreveu no LinkedIn que considera que “o segundo momento DeepSeek da China chegou”. Descreveu o Manus como “uma combinação de investigação profunda, operador e um computador Claude”, afirmando que “é realmente bom”.
Já o professor Ethan Mollick, professor e co-diretor do laboratório de IA Generativa da Wharton School, da Universidade da Pensilvânia, experimentou o agente e notou que o Manus “parece ser maioritariamente um invólucro à volta do Claude e outros modelos, mas um bastante esperto”, declarou no LinkedIn. Mas também realçou que passa pelas mesmas limitações que outros agentes, “como ficar parado às vezes”. “Para aqueles que ainda não usaram a última geração de ferramentas de agente suspeito que vão ficar surpreendidos como o que os LLM conseguem fazer.”
Dean W. Ball, que assina uma newsletter dedicada a tecnologia chamada Hyperdimensional e está ligado à área de policy em Washington, também já testou o agente. Numa extensa análise, resume que “o Manus não é uma história de inovação tecnológica”, mas sim “uma história de difusão de tecnologia”, no sentido de exemplificar o que os agentes de IA poderão fazer. Mas sublinhou que, “no grande esquema das coisas”, o Manus “não é assim tanta coisa” e que, “provavelmente, não vai ter o mesmo poder de se manter como o DeepSeek”.
A DeepSeek tornou-se conhecida pelos seus modelos de IA
Aliás, considerou até que a “analogia” de comparação de “momento DeepSeek” “confunde mais do que clarifica”. “O DeepSeek é um laboratório genuíno de IA de fronteira”, afirmou. Já a startup responsável pelo Manus “é uma empresa focada em produto, não um laboratório de investigação”, notando que “praticamente todos os investigadores de políticas de IA” que conhece “já tinham ouvido falar dos modelos R1 e V3 da DeepSeek antes de se tornarem virais” e que, em relação à startup que desenvolveu o Manus, “quase ninguém tinha ouvido falar até à semana passada”.
Uma parte das dúvidas em relação às capacidades reais do Manus está ligada ao facto de não estar disponível para testes alargados — apesar dos constrangimentos técnicos nos primeiros dias, o DeepSeek estava disponível para registo. Atualmente, o Manus está apenas disponível através de convite, o que dificulta testes mais amplos para perceber as reais capacidades deste agente. À imprensa chinesa, um dos responsáveis da startup explicou que a lógica de convites “se deve a uma genuína capacidade limitada do servidor nesta fase”. Por outro lado, a indústria tecnológica tem explorado a questão dos convites para acesso como uma forma de aguçar a curiosidade e aumentar a atenção dada a determinado produto ou serviço — isso aconteceu com a app Clubhouse, em 2021, ou mais recentemente a rede social Bluesky.
Clubhouse: a nova rede social de que todos falam. O que é e como receber um convite?
Para aceder ao Manus e obter um código que permita o registo é necessário indicar para que fim se pretende utilizar o serviço, sem qualquer garantia de que haja acesso a um código — o Observador já tentou ainda sem sucesso. Segundo o TechCrunch e o jornal South China Morning Post, há relatos de códigos de convite à venda por milhares de dólares na app chinesa de vendas em segunda mão Xianyu.
Primeiro escreve, depois apaga. A censura da chinesa DeepSeek em tempo real e como contorná-la
Quem é a startup responsável pelo Manus?
O site da Manus praticamente não tem referência à startup que desenvolveu o agente. Mas, segundo o jornal South China Morning Post, é a Butterfly Effect, que tem escritórios em Wuhan, na província chinesa de Hubei, e em Pequim, quem está por detrás desta criação.
Há vários artigos que atribuem a responsabilidade desta criação a uma startup chamada Monica. No entanto, segundo sites como o Venture Beat, a Monica é, afinal, o nome de outra criação da startup: uma assistente digital que está disponível como extensão para o navegador e uma aplicação para smartphone.
No vídeo que acompanha o lançamento do Manus, foi dito que os trabalhos de desenvolvimento do agente estão em curso “há um ano, de forma discreta”. É o co-fundador Yichao ‘Peak’ Ji quem dá a cara no vídeo, mas a empresa é liderada por Red Xiao Hong, de 33 anos. É descrito como um “empreendedor em série”, que já desenvolveu aplicações para o serviço WeChat, um gigante na China.
Segundo a imprensa chinesa, Hong quer que a empresa se foque no desenvolvimento de aplicações para a IA, em vez de trabalhar em LLM, mais exigentes a nível de infraestrutura e também investimento monetário.
O jornal South China Morning Post avança que a Butterfly Effect recebeu um investimento da gigante Tencent, mas não especifica quanto. Já a Fortune cita informação da imprensa chinesa sobre um total de 10 milhões de dólares de investimento na startup.
O Observador contactou a Butterfly Effect para perceber mais sobre a empresa, incluindo quantos utilizadores já testaram o agente Manus, mas até ao momento não foi possível obter resposta.