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▲A DeepSeek é uma startup chinesa criada 2023

Bloomberg via Getty Images

▲A DeepSeek é uma startup chinesa criada 2023

Bloomberg via Getty Images

DeepSeek, a startup chinesa que "abana" a indústria da inteligência artificial ao prometer fazer mais com menos

Lançamento de um modelo de IA desenvolvido pela startup chinesa DeepSeek gera ondas de choque na indústria. Tecnológica compete com rivais, como a OpenAI, usando (muito) menos dinheiro e menos chips.

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Ao longo da última semana, a startup chinesa DeepSeek mostrou ao mundo que é possível fazer mais com menos (dinheiro e tempo) no setor da inteligência artificial. A empresa lançou, no passado dia 20 de janeiro, um novo modelo — R1 — que tem por base essa tecnologia e que diz conseguir competir com os líderes de mercado, como o ChatGPT da OpenAI, e viu a sua app tornar-se na mais descarregada na loja de aplicações App Store, da Apple, nos Estados Unidos, no Reino Unido e na China.

O impacto fez-se sentir com quedas em bolsa. A startup chinesa fez “abanar” o setor tecnológico norte-americano, com gigantes como a Nvidia a registar durante esta segunda-feira perdas de 17%. Segundo a Forbes, a empresa norte-americana, que está na vanguarda do desenvolvimento de chips de inteligência artificial, já perdeu cerca de 600 mil milhões de dólares em capitalização bolsista, o que representa a maior perda de valor num só dia de qualquer firma na história. Não foi apenas a Nvidia que sofreu perdas grandes em bolsa. A Broadcom, outra produtora de semicondutores norte-americana, também caiu 17%, apagando ao seu valor de mercado cerca de 200 mil milhões de dólares, segundo contas da CNBC. A AMD desvalorizou 6,4%. O Nasdaq teve uma queda de 3%.

A DeepSeek está a ajudar a desmistificar várias narrativas que até ao momento circulavam em redor da inteligência artificial: que os Estados Unidos são um líder incontestável da indústria, que são necessárias elevadas quantias monetárias para construir modelos e data centers e que são precisos semicondutores (também conhecidos como chips) avançados.

O investidor Marc Andreessen, que também é um dos aliados de Donald Trump, o novo Presidente norte-americano, descreveu o R1 como “um dos mais impressionantes” avanços que já viu e classificou o modelo como o “momento Sputnik” da IA, referindo-se ao lançamento por parte da antiga União Soviética de um satélite em 1957, que deu início à corrida espacial.

A súbita popularidade poderá já estar a colocar pressão sobre a empresa, uma vez que não só já sofreu uma falha de energia como foi alvo de um ataque em larga escala. Por isso, de acordo com a agência Reuters, está a limitar temporariamente o registo de novos utilizadores — tal como aconteceu com o Observador que já não conseguiu registar-se na plataforma.

DeepSeek, que empresa é esta?

A DeepSeek foi fundada em 2023 na cidade chinesa de Hangzhou por Liang Wenfeng, que também é líder de um fundo de investimento quantitativo chamado High-Flyer (que criou juntamente com dois amigos da faculdade). Com uma licenciatura e um mestrado em Engenharia Eletrónica e de Informação, pela Universidade de Zhejiang, o empresário, atualmente com 40 anos, começou a comprar milhares de unidades de processadores da Nvidia em 2021, já com a ambição de desenvolver um projeto relacionado com a inteligência artificial.

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Nessa altura, anos antes da criação da DeepSeek, não foi levado a sério. “Quando o conhecemos, era um tipo muito nerd, com um penteado horrível, que falava em construir um cluster de 10.000 chips para treinar os seus próprios modelos. Não o levámos a sério”, contou um parceiro de negócios, cujo nome não foi revelado, ao Financial Times, acrescentando que pensou que só seria possível entrar na indústria de IA com “gigantes como a ByteDance e a Alibaba”.

Ao longo da última semana as dúvidas parecem ter-se dissipado. E Liang Wenfeng foi o único líder da indústria de inteligência artificial a ser convidado para uma reunião de empresários com o primeiro-ministro chinês, Li Qiang. Durante o encontro não só discutiu como é que as empresas chinesas podem competir com as norte-americanas em matéria de IA como como devem concentrar “esforços em inovar nas principais tecnologias de base”.

epa11417000 Chinese Premier Li Qiang speaks to the media during a signing ceremony at the Australian Parliament House in Canberra, Australia, 17 June 2024. Li Qiang, who is second only to President Xi Jinping, is on a four-day visit to Australia.  EPA/LUKAS COCH AUSTRALIA AND NEW ZEALAND OUT

▲ O primeiro-ministro chinês, Li Qiang, esteve reunido com o líder da DeepSeek

LUKAS COCH/EPA

Foi no final de dezembro que a DeepSeek revelou um grande modelo de linguagem (LLM, na sigla original), chamado V3, dizendo que foram necessários apenas dois meses e menos de seis milhões de dólares para o desenvolver. A título de exemplo, segundo o The New York Times, este montante é cerca de 10 vezes inferior ao que a Meta, dona do Facebook e do Instagram, gastou a construir a sua mais recente tecnologia de IA.

Além disso, a startup chinesa, que é unicamente financiada pelo High-Flyer, disse ter utilizado menos chips (e também menos avançados, mais antigos, da Nvidia) para desenvolver os modelos que já lançou. Se empresas como a Meta ou a OpenAI usam supercomputadores com, no mínimo, 16 mil semicondutores para treinar chatbots, a DeepSeek afirmou que precisou apenas de cerca de dois mil.

Em métricas de precisão, que vão desde resolução de problemas complexos a matemática ou codificação, o V3 superou modelos concorrentes, desde o Llama 3.1 (da Meta) ao GPT-4o (da OpenAI), de acordo com testes realizados por empresas terceiras, indica a CNBC. O R1, lançado na semana passada (sendo que ainda não são conhecidos os custos envolvidos), também superou o modelo o1 da dona do ChatGPT em muitos desses testes.

Os modelos desenvolvidos pela DeepSeek são de código aberto (open-source), o que significa que a comunidade de programadores consegue inspecionar e melhorar o software. Vítor Madeira, analista da XTB, nota que esta ferramenta “permite que qualquer utilizador tenha acesso ao código [do modelo] e possa contribuir para o desenvolvimento”.

“A ferramenta tem, dessa forma, um potencial de crescimento enorme. Por esse motivo, também são esperados impactos nos concorrentes da DeepSeek. O ChatGPT, por exemplo, que neste momento cobra pela subscrição premium, poderá ser forçado a reduzir os preços, para não perder clientes”, afirma o analista, em respostas escritas enviadas ao Observador, salientando que o crescimento da startup chinesa “não é certo” ainda que possa “levar ao enfraquecimento do domínio dos EUA numa área crítica como a IA, que é considerada um pilar estratégico no cenário global”.

epa11174322 The logo of NVIDIA outside their office in Taipei, Taiwan, 23 February 2024. Nvidia's (NVDA) stock soared on 22 February after the company announced better-than-expected Q4 earnings and revenue, attributing the success to robust sales of data center graphics chips.  EPA/RITCHIE B. TONGO

▲ A DeepSeek conseguiu desenvolver modelos de inteligência artificial sem os chips mais avançados da Nvidia

RITCHIE B. TONGO/EPA

O que provoca alarme nos Estados Unidos?

Para lá do (pouco) dinheiro que a startup chinesa utilizou para desenvolver os modelos de inteligência artificial, o facto de ter utilizado chips menos avançados fez soar os sinais de alarme nos Estados Unidos. A DeepSeek recorreu a esses semicondutores porque Washington, ainda sob liderança de Joe Biden, aplicou restrições à exportação dos mais avançados, para tentar impedir que a China desenvolvesse a sua indústria de inteligência artificial.

O analista Dan Ives, numa newsletter diária recebida pelo Observador, afirma que ainda não está claro “se a DeepSeek encontrou uma forma de contornar estas regras de restrições de chips e quais foram os semicondutores que acabou por utilizar, uma vez que haverá muito ceticismo em torno desta questão, dado que a informação vem da China”. Ainda assim, escreve a Bloomberg, a empresa “demonstrou o suficiente para sugerir que as restrições não foram suficientemente eficazes para travar o progresso chinês”.

Os engenheiros da DeepSeek sabem como desbloquear o potencial destes processadores [menos avançados], mesmo que não sejam de última geração”, garantiu um investigador, da área da inteligência artificial, próximo da empresa, ao Financial Times.

A maioria dos trabalhadores da DeepSeek são jovens recém-licenciados de algumas das melhores universidades da China, como as de Pequim, Tsinghua e Beihang. Liang Wenfeng utiliza as receitas do seu fundo de investimento, de cerca de oito mil milhões de dólares, para pagar salários de topo aos melhores engenheiros da área, que trabalham nos escritórios que a empresa tem em Hangzhou e Pequim.

“Os escritórios da DeepSeek assemelham-se a um campus universitário […] A equipa acredita na visão de Liang: mostrar ao mundo que os chineses podem ser criativos e construir algo a partir do zero”, afirmou o mesmo parceiro de negócios, uma vez mais ao Financial Times.

Por sua vez, durante uma entrevista que deu em 2023 ao canal chinês 36kr (e que é citada pelo mesmo jornal norte-americano), o próprio Liang Wenfeng já tinha sublinhado a importância de contratar talento local e da China desenvolver o seu próprio ecossistema nacional em matéria de IA, semelhante ao que foi construído em torno da Nvidia e dos seus processadores. “Mais investimento não leva necessariamente a mais inovação. Senão, as grandes empresas apoderar-se-iam de toda a inovação”, afirmou.

Mais recentemente, na semana passada, o líder da DeepSeek disse ao primeiro-ministro chinês, segundo fontes familiarizadas com a reunião que falaram com o The Wall Street Journal, que embora as empresas estivessem a trabalhar para recuperar o atraso e competir com outros países, as restrições dos EUA à exportação de chips avançados continuavam a fazer mossa na corrida à liderança da IA. Ainda mais num momento em que Trump anunciou um mega investimento em centros de dados a pensar na inteligência artificial.

Trump apoia projeto de milhões para a IA, mas Musk levanta dúvidas. O que é o Stargate, ponto de discórdia entre Presidente e “first buddy”?

epa11827542 US President Joe Biden delivers his farewell address to the nation from the Oval Office of the White House in Washington, DC, USA, 15 January 2025.  EPA/MANDEL NGAN / POOL

▲ Os EUA, ainda com Joe Biden, aplicaram restrições à exportação de chips mais avançados

MANDEL NGAN / POOL/EPA

A censura existe na DeepSeek?

Tal como outras empresas chinesas, a DeepSeek não escapa à censura. Os modelos de inteligência artificial da startup da China, nomeadamente o V3 (lançado em dezembro), não respondem a questões que possam ter tópicos considerados sensíveis pelo Partido Comunista chinês.

Por exemplo, quando questionada sobre uma possível invasão chinesa de Taiwan ou sobre os protestos na Praça de Tiananmen em 1989, quando o governo reprimiu manifestações pacíficas através do uso da força, a inteligência artificial da DeepSeek tenta escapar. Ou diz que não pode responder às questões porque deve apenas dar respostas “úteis” e “inofensivas” ou pede aos utilizadores para falarem sobre outros temas.

Por outro lado, de acordo com a Bloomberg, os modelos da startup chinesa respondem detalhadamente a questões sobre figuras e líderes políticos de outros países, como o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi. Mas não fazem o mesmo ao serem questionados acerca do Presidente chinês, Xi Jinping. Aí, remetem-se ao silêncio.

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