Evaëlle Dupuis tinha apenas 11 anos quando foi sujeita a um ato de humilhação em praça pública — no caso da jovem estudante a praça era a sua sala de aula e o público eram os colegas de turma, mais especificamente os que lhe faziam bullying diariamente. Em fevereiro de 2019, a sua professora de francês, Pascale B., organizou uma reunião com o propósito de discutir o assédio a que era sujeita por outros estudantes e, poucos meses depois, Evaëlle acabou com a sua própria vida em casa dos pais, já depois de ter deixado a escola.
O momento criado pela professora na escola acabou por se tornar num cenário de terror para a estudante, que se sentiu estigmatizada depois de, segundo o testemunho de vários alunos presentes, a professora ter “gritado muito” com a menina que começou a chorar devido à pressão do confronto com os seus agressores.
Esta segunda-feira, a docente responsável pela reunião e por outros atos que em vez de ajudar, acabaram por prejudicar a aluna, sentou-se no banco dos réus do Tribunal Judicial de Pontoise, em França. É acusada do crime de “assédio moral a menor de 15 anos” depois de Evaëlle se ter suicidado em junho de 2019, poucos meses depois deste momento traumático e de ter deixado o colégio Isabelle-Autissier, onde tudo aconteceu, em Herblay-sur-Seine, uma cidade a cerca de 20 km do centro de Paris.
Segundo o Le Monde, além dos pais de Evaëlle, a mãe de outro adolescente entrou com uma ação civil contra Pascale B. em tribunal, já que a professora terá assediado mais estudantes. Os dois menores, indicados como principais responsáveis pelo bullying dirigido a Evaëlle, serão presentes a um tribunal de menores, “até ao final do ano”, informou o Ministério Público de Pontoise ao jornal francês.
Em várias entrevistas, os pais da menina relataram que esta sofria insultos, gozo constante e agressões físicas por parte de algumas crianças. Também comia sempre sozinha e era sempre deixada de parte em várias atividades escolares. Marie Dupuis, a mãe da vítima, falou aos jornalistas no arranque do julgamento, garantindo ela e o marido “vão continuar a lutar até ao fim” para que justiça seja feita pela filha que perderam.
???? "On continue et on portera (ce combat) jusqu'au bout"
Marie Dupuis, la mère d'Evaëlle, a adressé quelques mots avant l'ouverture du procès à Pontoise de l'ancienne professeure de la collégienne qui s'était suicidée le 25 juin 2019 pic.twitter.com/mxFDL2ktXZ
— BFMTV (@BFMTV) March 10, 2025
“Como professora, ela legitimou o bullying que minha filha sofreu por meio de seu comportamento”, disse Marie Dupuis à BFMTV, revelando que a filha sonhava ser professora.
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“É difícil acreditar que uma professora experiente não tenha percebido o impacto em Evaëlle”
Grande parte da acusação à professora baseia-se na reunião, que terá sido a gota de água para a situação de assédio moral que a estudante que acabou com a vida enfrentou durante vários anos. O juiz de instrução, citado pelo El País, questiona o intuito pedagógico da professora com o confronto.
“Se [Pascale B.] explica que seu objetivo era pôr fim ao comportamento inadequado em relação à jovem, parece difícil imaginar, especialmente para uma professora experiente, não perceber o impacto social e emocional que isso poderia ter tido em Evaëlle”, afirmou o juiz esta segunda-feira.
Além do episódio em concreto, a professora de francês está também a ser julgada por ter “humilhado regularmente”, à frente de toda a turma, a jovem de 11 anos.
O caso está a abalar o sistema educacional francês, devido à atuação da professora que culminou em tragédia. As acusações que Pascale B. enfrenta deixam-na diante de uma pena de prisão de dois anos e de um multa de até 30 mil euros. Conhecerá a sua sentença esta terça-feira.
A mulher, atualmente com 62 anos, é alvo de medidas de controlo judicial há cinco anos e não tem permissão para dar aulas a menores. Segundo o El País, é a primeira vez que um professor é julgado por assédio moral a um aluno em França e, ainda, por sua responsabilidade no bullying que outras crianças exerciam sobre ele.
O diretor da escola admitiu que, ao tempo dos factos “o sistema administrativo [do estabelecimento] não estava adaptado à situação”. As autoridades educacionais que examinaram o caso também reconheceram que “foram cometidos erros na avaliação do sofrimento real [da menina]”.