As centenas de sapatos encontrados na quinta de Teuchitlán, na região mexicana de Jalisco, foram o achado mais simbólico da escavação que culminou na descoberta de crematórios, sepulturas e restos mortais enterrados na propriedade rural com pouco mais de meio hectare. As imagens do local têm atraído a atenção mediática internacional para este campo de extermínio agora descoberto por um grupo de familiares de desaparecidos da região. Em setembro passado, as autoridades mexicanas já tinham realizado uma operação precisamente neste local, que resultou, inclusivamente, no resgate de dois reféns. Contudo, a operação policial deixou enterrado algo que só seria revelado seis meses mais tarde.

A operação dos agentes da procuradoria da região de Jalisco, no ano passado, resultou na detenção de 10 pessoas, para além do resgate de duas outras pessoas que estavam sequestradas. Já nessa altura foi encontrado um corpo sem vida, vários fragmentos de ossos queimados, armas e cartuchos, de acordo com o El País. As autoridades suspeitaram que esta propriedade se tratava de um campo de treino para recrutas de um grupo criminoso daquela zona do México: os Nova Geração do Cartel de Jalisco (CJNG). O cenário ali encontrado terá feito os agentes suspeitar de que aquele estabelecimento escondia a prática de crimes mais graves. No entanto, por qualquer razão ainda não revelada, as autoridades não terão prosseguido com as diligências que agora encontraram um campo de extermínio, na quinta de Teuchitlán.

Os novos desenvolvimentos em relação ao caso começaram a surgir na semana passada, quando membros dos Guerreros Buscadores de Jalisco — grupo de familiares de desaparecidos — se dirigiram para a propriedade, após receberem uma denúncia anónima. Uma vez no local, os “guerreiros” não deixaram por revelar artefactos que os agentes da procuradoria de Jalisco tinham ignorarado e foram revelando os achados que estavam soterrados através de publicações nas redes sociais. O caso chegou entretanto à Presidente do México que na segunda-feira classificou o caso como “terrível“. Claudia Sheinbauma pediu que a propriedade fosse investigada, admitindo que pode ser a procuradoria nacional a assumir a condução dos trabalhos.

A propriedade seria utilizada como um campo de treino de estilo militar para dar formação aos caloiros do grupo criminoso do cartel. Segundo a líder dos Guerreros Buscadores de Jalisco, Indira Navarro, o recrutamento de novos membros para o movimento era forçado e, uma vez na propriedade, os recrutas eram sujeitos (nos casos menos graves) a treinos violentos ou a trabalhos forçados a troco de uma remuneração mínima. Navarro contou à imprensa que os jovens chegavam à quinta de Teuchitlán enganados por ofertas falsas de trabalho, acabando muitos deles por ser assassinados de forma sistemática.

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Alguns testemunhos das vivências dos sobreviventes deste campo, recolhidos pelo jornal sul-americano infobae, descrevem a quinta como “uma escola do terror“. As vítimas seriam provenientes de outros estados mexicanos, aliciadas por anúncios para trabalhos chofer, eletricista, segurança, entres outros. As vítimas eram convocadas para a estação central de autocarros de Guadalajara de onde seguiriam vendados na viagem até à quinta de Teuchitlán.

Aí, era-lhes retirado o acesso a telemóveis e outros objetos pessoais, sendo igualmente sujeitos a práticas de tortura como o isolamento forçado. Os recrutas, que segundo um dos testemunhos seriam cerca de 200 à vez, deixavam de ser tratados pelos nomes e eram obrigados a praticar exercícios de preparação militar. Entre os jovens eram, por exemplo, realizadas simulações de combate com recurso a armas — não de fogo, mas do género das de paintball. Quando os jovens cometiam erros, os membros da CJNG castigavam-nos, podendo mesmo matá-los no local. Os cadáveres acabavam por ser incinerados em fornos que estavam desenhados para não serem facilmente encontrados.

Nesta parte do México, entre Guadalajara, a capital de Jalisco, e Puerto Vallarta, a outra grande cidade da região, têm sido encontrados vários campos de extermínio deste género, ao longo dos anos. O caso mais recente tinha ocorrido em 2017 (e noticiado dois anos mais tarde) na localidade de Tala, vizinha de Teuchitlán. O descobrimento de um novo campo de extermínio volta a colocar pressão nas autoridades locais para conter o poder dos grandes grupos criminosos da região. Desta feita, há uma agravante: as autoridades estiveram no local, mas falharam em reconhecer a gravidade dos crimes ali praticados. E as explicações por essa falha não têm sido satisfatórias: o procurador de Jalisco justificou o erro com o facto de a quinta ser “muito grande”.