Tenho umas quantas petições no bolso para lançar sempre que posso. Para este particular, proponho que rebatizemos as Avenidas Novas de Avenidas Antigas. Na verdade, preferia Avenidas Velhas, mas mais vale uma versão polida para evitar o beco escuro do cancelamento. Sigamos. A avaliar pela evolução da cidade, as Velhas Avenidas Novas encapsulam o que foi e voltará a ser enquanto for possível. Um museu vivo de atrações recomendáveis, incluindo na arte da mesa, pelo menos à hora de almoço, quando a proximidade dos escritórios garante casa cheia, receituário familiar e preços ainda convidativos.
No eixo Saldanha-Campo Grande sabemos que podemos confiar no Galeto mesmo com reposteiros nos olhos, mas o que seria da vida sem perpendiculares, por regra até mais interessantes que as afamadas avenidas frondosas? O Galeto está para os fora d’horas como outros vizinhos estão para a uma da tarde. Para as bandas da Duque de Ávila, há mais de 40 anos que O Moisés (assim mesmo, com o artigo definido) serve comida tradicional portuguesa e tem preservado alguns preceitos com um nível de curadoria bastante satisfatório. Não é espaçoso, muito menos silencioso, mas desde logo conserva uma instituição cada vez mais rara chamada escalopes aux champignons– ou melhor, com champignons para evitar deslizes na importação do francesismo. No meu entender, os escalopes aux champignons, ou com champignons, são a loja histórica das ementas: quase nunca lá vamos, mas choraremos um Nilo inteiro de dor no dia em que fecharem portas — neste caso, quando se reformarem da carta.
A casa também tem enguias fritas e carapauzinhos. Tem chocos à lagareiro e bacalhau com natas. Tem iscas de porco com elas e alheira mirandesa com ovo. Tem favas à alentejana, feijoada à brasileira, dobrada à portuguesa, pernil e a salada russa continua russa, imune a conversões forçadas e disparatado eclipse por causa de uma guerra que, por mais que dure, há-de acabar mais cedo que o bom senso. Amén. Para um pouco de informação útil, no Moisés ainda encontra muitas opções a 9,90 euros. Algumas outras, como o peixe, escalam para os 15,20, e a média das sobremesas ronda os 4,50. Nada que afronte a carteira ao nível da fratura exposta.
Num destes dias de peregrinação depois do meio dia e meia, tentei a sorte. À entrada, forma-se uma pequena fila de espera, outra experiência quase nostálgica num tempo e num modo em que só se sai de casa com marcação prévia, caso contrário arriscamo-nos a terminar a noite no KFC da segunda circular. Tudo despachado com rapidez. Pouco importa que o freguês não esteja em contrarrelógio e por aqui pudesse arrastar-se até à hora do lanche. Diligentes, os empregados atrás do balcão aviam serviço com sprint de campeão medalhado, calculando que a maioria regressa ao trabalho depois do café – e que é preciso desocupar as cadeiras para quem se segue. Aos lugares sentados, junta-se o espaço ao balcão, onde o mini prato “chega perfeitamente”. E a honestidade revela-se numa generosa dupla de filetes bem aviada. Eu avisei que caminhávamos para o estatuto de museu, meus amigos.
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O Moisés é uma montra ativa de iguarias portuguesas, com velha guarda no atendimento, individuais de papel com o nome da casa inscrito canto superior esquerdo, e ementas extensas dactilografadas com caracteres padrão, sem grande arrojo artístico, misteriosos floreados, apenas os arabescos essenciais, riscados a caneca com uma cruzinha sempre que paparoca se esgota na cozinha e os prosaicos enganos dececionam o cliente por breves segundos. “Afinal já não tenho massada de peixe…”. Caso convenha ao leitor, vale a pena recordar que o restaurante também despacha encomendas para fora, uma inovação que remonta à indigesta pandemia.
Por cada omissão na lista há um empregado que nos reserva uma maçã assada atrás do balcão para não corrermos o risco de ficar a ver navios na hora da sobremesa; uma cerveja à pressão servida em jarro, a quintessência de um modo de estar lusitano num bom snack bar que se preze; e um colega que grita “PASSA A DUAS!”, referindo-se ao pedido das bicas, em mais um pregão de azáfama que devia ser emoldurado.
Pelo corredor, clientes circulam com os jornais desportivos do dia debaixo do braço, numa gloriosa volta olímpica do papel. E juro pela minha alma que avistei à porta um cigarro genuíno, anterior ao grande êxodo dos isqueiros. É também o único local onde uma imagem de Moisés esculpida em madeira pode ocupar a parede sem frissons, desafiando lógicas e sentido estético com total comodidade. Não sabemos bem porquê, mas está tudo certo.
Lembrei-me da minha amiga Susana, outrora assídua quando morava para estes lados. “EPA, O QUE EU GRAMO O MOISÉS!. Como estás?”. E, pronto, se tudo o resto falhasse, no Moisés os caminhos para os estômago são atalhos para reencontros tão perigosos como a nicotina. E para ótimas farófias também.
Av. Duque de Ávila 121, 1050-083 Lisboa. Almoços e jantares. Encerra ao domingo.
Silvestre da Silva escreve com muito coração, alguma cabeça e todo o estômago possível. No final, paga sempre a conta. Ainda vai na segunda fase da vida, espera chegar à terceira, e pela primeira vez mostra o que vale como Experimentador Implacável.