Era um protesto pacífico e, naquele momento, os mais de 100 mil manifestantes – praticamente todos jovens – estavam em silêncio, em respeito às 15 pessoas que morreram em novembro na estação ferroviária de Novi Sad, na Sérvia. Há imagens que mostram alguns elementos da polícia a correrem para longe da estrada que estava totalmente lotada com manifestantes e, segundos depois, gera-se um pânico súbito – ouvem-se gritos e abre-se uma brecha na multidão, com as pessoas a fugirem de algo que não conseguiu ver: só ouvir.
Rapidamente surgiram acusações de que as autoridades sérvias tinham uma arma sónica de nível militar para atingir e dispersar manifestantes contra a corrupção e contra o presidente sérvio, Aleksandar Vucic, na capital do país. “Não dava para fugir daquilo, não sabíamos o que fazer“, afirmou à televisão alemã DW Dušan Simin, um dos manifestantes que estavam a fazer os 15 minutos de silêncio, um minuto por cada vítima mortal de Novi Sad.
#Servia????????I La oposición serbia denunció que las fuerzas de seguridad utilizaron un arma sónica para dispersar la histórica protesta contra el Gobierno. Usó un cañón sonico LRAD, es un altavoz que emite una onda de sonido de 160 decibeles en una dirección y produce dolor. pic.twitter.com/NwXJyL8u4D
— THE SNIPER (@thesniperx15) March 17, 2025
“Naquele momento, ficamos sem saber se algo nos vai cair em cima ou abalroar-nos”, descreve a testemunha, acrescentando que, “instintivamente”, as pessoas terão reagido ao som como se achassem que algum tipo de veículo estivesse a descer a rua, para os atropelar. “As pessoas começaram a correr para o lado e começámos a cair uns em cima dos outros“, afirma Dušan Simin, indicando que a sua mulher, ao fugir, bateu com a cabeça num poste de iluminação.
No domingo, o Presidente Vucic negou categoricamente que qualquer tipo de arma sonora tenha sido utilizada pelas autoridades. Isto apesar de haver imagens que mostram alguns elementos da polícia a correrem para a beira da estrada, como se tivessem recebido uma indicação de que tal arma – que também os iria ferir a eles – estaria prestes a ser usada.
Irrefutable proof that Serbian police @policijasrbije
activated a sonic cannon on the citizens of Serbia, committing a terrorist act with which they intended to provoke panic, a stampede, injuries, and death among them.Look to the right in the middle where the helmeted cops are… pic.twitter.com/KsiSN6GjEU
— Jelena Mitrovic CENSORED (@Censored_Woman) March 16, 2025
Apesar destes sinais e da descrição feita pelas testemunhas, o Presidente garantiu que é “mentira” dizer que o governo deu instruções para se usar aquela arma. pediu às autoridades judiciais que respondam à alegação de “que foram utilizados canhões sonoros durante os protestos”, referiu a emissora estatal RTS.
Estou a pedir (…) ao Ministério da Justiça e ao Ministério Público que reajam, seja para processar aqueles que usaram [armas sónicas], e sabemos que não o fizeram, mas vamos verificar”, disse o Presidente. “Que haja um processo, mas depois também devem processar aqueles que tornaram pública uma mentira tão notória“, acrescentou o chefe de Estado.
“Quem teve a ideia de usar uma arma destas?” Sérvia tem armas sónicas, garante especialista militar
Mas dirigentes da oposição e grupos de defesa dos direitos humanos sérvios alegaram que armas acústicas, que são proibidas e emitem um feixe direcionado para incapacitar temporariamente as pessoas, foram utilizadas durante o protesto de sábado. Estes grupos prometeram apresentar ações no Tribunal Europeu dos Direitos Humanos e nos tribunais nacionais contra aqueles que ordenaram o ataque.
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Já vieram a terreiro, também, especialistas militares que confirmam que a Sérvia dispõe, mesmo, deste tipo de armas. Aleksandar Radić, especialista militar citado pelo meio de comunicação social sérvio N1, diz que todos os sinais apontam para que, de facto, tenha sido usado um “canhão sónico”.
Confirmando que as autoridades sérvias têm este tipo de armas, Radić lança a questão: “O maior problema no que aconteceu é: quem teve a ideia de usar uma arma destas?”
Numa situação em que todos os manifestantes estavam calmos, quando estava a ser dada uma mensagem de quinze minutos às vítimas, foi utilizada a arma. O único objetivo deste ato é uma demonstração brutal de força, prova de arrogância, e a razão é o ódio ao próprio povo”, disse Radić à N1.
Especialistas militares dizem que aqueles que estão expostos a uma arma sónica sentem fortes dores de ouvido, desorientação e pânico. A exposição prolongada pode provocar roturas do tímpano e danos auditivos irreversíveis.
Mais de 100 mil pessoas juntaram-se em Belgrado, no culminar de uma série de protestos desde o acidente ocorrido na estação de Novi Sad, a 1 de novembro, que matou 15 pessoas, quando a cobertura de betão do edifício recentemente renovado se desmoronou. Desde esse dia, tem havido manifestações sucessivas no país.
O protesto de sábado encheu as ruas do centro da capital e, segundo a polícia, no pico do protesto terão estado cerca de 107 mil pessoas, embora os media independentes sérvios tenham dito que o número foi superior.
As manifestações diárias tornaram-se mais tensas desde que o Governo acusou os manifestantes de serem pagos por agências estrangeiras e de prepararem ações violentas ou, mesmo, uma revolução.
Na sequência de incidentes isolados entre manifestantes e a polícia, vários estudantes universitários — que têm liderado os protestos nos últimos quatro meses — declararam o fim da manifestação, por considerarem que não estavam garantidas as condições de segurança.
A Organização das Nações Unidas apelou às autoridades sérvias para que não interferissem indevidamente nas manifestações e respeitassem o pleno exercício dos direitos à liberdade de reunião pacífica e à liberdade de expressão.
Mais de 100 mil sérvios protestaram nas ruas de Belgrado contra a corrupção