Quando regressava à Aldeia Olímpica depois do primeiro dia de folga na sequência da conquista do ouro na categoria de 66kg de boxe, Imane Khelif parecia “outra”. Procurada por todos para mais uma fotografia, uma selfie ou um autógrafo, parava tudo e todos por onde passava e mostrava como se tornara uma das principais figuras dos Jogos de 2024, em Paris. Estava mais leve, mais descontraída. O único peso que parecia ter era somente o que carregava nos sacos cheios de recordações que trazia do passeio pela capital francesa, a que juntou também uma tela ainda enrolada num canudo. No entanto, esse quadro nem sempre foi assim. Longe disso. E também não voltou a ser. A vida da argelina mudou em definitivo pelo impacto mediático.

Notas 10 com ponto deduzido, uma assinatura, lágrimas e o grito “Eu sou uma mulher”: a tarde surreal em que Imane ganhou a sua medalha

Muito mudou no dia a dia de Imane nos meses que se seguiram. Na Argélia, além de grande heroína nacional que é defendida até à exaustão contra quem beliscar no que for a sua campeã olímpica, foi condecorada com a Ordem de Mérito pelo presidente Abdelmadjid Tebboune e inspirou uma nova geração de raparigas a irem para o boxe, num boom que já foi testemunhado por vários meios internacionais. No mundo, deixa marca por onde passa. Renovou o look, fez tratamentos de beleza, entrou no mundo da moda, desfilou mesmo em Milão pela Bottega Veneta ao lado de Kendall Jenner, Julianne Moore ou Michelle Yeoh, participou em vários eventos de diferentes áreas, esteve em programas televisivos de diferentes países europeus, assistiu a jogos da Liga dos Campeões – neste caso no Parque dos Príncipes, como convidada de honra do PSG.

Os desfiles de moda, o crescimento nas redes sociais, a Ordem do Mérito: a nova vida de Imane Khelif depois dos Jogos Olímpicos

A par de tudo isso, a novela continuou. Com críticas, com acusações, com apontares de dedo que podiam ser mais ou menos diretos. Agora, em entrevista à ITV, a africana voltou a falar de tudo. Do passado, de tudo o que aconteceu em Paris, do impacto que teve em termos globais, no presente, no que pensa para o futuro. E com uma garantia: nem mesmo o facto de os próximos Jogos serem em Los Angeles desvia o foco no ouro.

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“Ganhei a medalha de ouro, o que foi a melhor resposta a todo o bullying a que fui sujeita. A minha resposta durante os Jogos Olímpicos de Paris foi sempre no ringue e poder responder a ganhar a medalha de ouro foi ainda melhor. Acredito que o meu ouro em Paris foi a melhor medalha de todos os Jogos. Foi uma vitória que teve grande significado a todos os níveis – ético, atlético e até em termos de desportivismo”, comentou a atleta argelina, que bateu num Roland Garros a abarrotar a chinesa Yang Liu na final de 66kg.

Imane Khelif garantiu ouro em Paris, no combate que foi mais do que boxe

“Quando vi que chefes de estado, figuras famosas e antigos atletas estavam a falar de mim sem verificarem os factos, fiquei em choque. Estavam apenas a dizer coisas só por dizer, sem qualquer tipo de informação que fosse documentada ou fidedigna. Nas redes sociais, também reparei que todos estavam a discutir o assunto e não tinham qualquer fonte fidedigna. Foi isso que inicialmente me afetou, pensar ‘Porque é que eu, Imane Khelif, me tornei um alvo desta campanha?’. Foi isso que me afetou em termos mentais, assim como à minha família. Até a minha mãe estava profundamente afetada, tinha de ir ao hospital quase todos os dias. Outras pessoas da minha família também sentiram o impacto e o povo argelino sentiu o peso da situação. Foi uma questão que ultrapassou a parte desportiva ou do jogo, transformou-se numa grande campanha em termos mediáticos que poderia ter um efeito negativo sobre mim e sobre a minha família”, comentou.

“Fiquei muito afetada mentalmente e senti-me desencorajada mas continuei ciente de tudo o que estava a acontecer. Até mesmo durante os Jogos, tinha uma equipa de médicos especialistas que me deram suporte e assistência. Sem eles, talvez tivesse caído numa espiral de depressão”, assumiu. “Como costumamos dizer na Argélia, aqueles que não têm nada a esconder, não devem ter medo. A verdade tornou-se clara durante os Jogos, toda a injustiça a que fui exposta e, mais tarde, a verdade foi reconhecida pelo Comité Olímpico em Paris”, acrescentou, entre agradecimentos ao líder Thomas Bach, que está de saída do cargo 12 anos depois: “Espero que o próximo presidente continue a liderar com um verdadeiro espírito desportivo e comprometido com aqueles que devem ser os princípios olímpicos e na defesa dos valores do fair play“.

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Sempre me vi como uma rapariga, apenas como uma rapariga como tantas outras. Eu nasci como rapariga, eu fui educada como uma rapariga, eu vivi sempre toda a minha vida como uma rapariga. Competi em várias provas, fui aos Jogos de Tóquio, fui a quarto Mundiais. Tudo aconteceu antes de começar a ganhar e a conquistar títulos. Quando comecei a ter sucesso, começaram as campanhas…”, lamentou numa parte mais emotiva da entrevista.

“Claro que ser uma campeã olímpica, muçulmana e árabe é algo muito especial, em particular num desporto como o boxe onde as maiorias dos atletas são homens. No entanto, o boxe ganhou muita popularidade nos países árabes e islamitas. Acredito que a inspiração cresceu depois dos Jogos e que muitas jovens sintam a motivação e vontade de entrarem no boxe. O meu objetivo é alcançar resultados ainda maiores e enviar uma mensagem poderosa que sirva de lição para os mais novos. Quero ser uma fonte de motivação e um exemplo positivo para quem me admira”, apontou, antes de falar dos próximos objetivos.

“Próximos Jogos em Los Angeles num país liderado por Donald Trump? Vou dar uma resposta muito direta: o presidente dos EUA emitiu uma decisão relacionada com políticas ligadas a transgéneros no país mas eu não sou transgénero. Não me preocupada nada, não me intimida. Essa é a minha resposta a isso. É claro que vou defender com tudo a minha medalha de ouro. Vou continuar o meu sonho, é tudo para mim. Toda a experiência que passei em Paris ensinou-me muito. Acredito que se a velha Imane estava a 50% de todo o seu potencial, a Imane de hoje está ainda mais motivada e determinada. Aprendi muito com tudo o que se passou, Paris foi uma experiência que me abriu os olhos e sinto-me ainda mais forte”, concluiu a argelina, que foi criticada por Trump durante os Jogos a par de outras figuras como Elon Musk ou JK Rowling.